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O ato heroico de exercer um direito

Sexta-feira, 4 Janeiro 2013

Ramiro Vidal Alvarinho

Nom exercer um direito implica renunciar a ele, e mais quando se trata de língua. Manter-se nos níveis minimamente exigíveis de coerência e dignidade, na hora de exercer o direito de utilizar a língua galega na Galiza é um ato de heroicidade quando se fai conscientemente, máxime num momento em que o supremacismo espanholista passou definitivamente ao ataque, encontrando se calhar mais resistências das que calculavam, mas seguindo o seu roteiro a passo decidido.

Circula muito polas redes sociais estes dias um áudio de um “ataque” supremacista no transcurso de um programa da Radio Galega (“Pensando en ti”). É o típico programa de testemunhos, dedicatórias e demais que se pom para cobrir as horas da noite e a madrugada. Naturalmente há umha maioria e ouvintes de idade avançada, como costuma acontecer com este tipo de espaços radiofónicos. E já sabemos o perfil ideológico da imensa maioria das pessoas maiores de setenta anos neste país… nom ter cultura democrática nem experiências democráticas passa fatura.

Paga a pena fazer um breve ressumo de como se produz o ataque… o marco, um momento do programa “Pensando en ti” da Rádio Galega. Num momento deste programa, passam um telefonema de umha senhora de Ferrol, que fala em espanhol com um marcadíssimo sotaque galego. Di que chama para protestar, ao qual o condutor do programa responde que avante, que expresse o que gostar. A senhora di que os profissionais da Rádio Galega som maleducados porque falam sempre em galego, e que se ela fala em espanhol há que lhe responder em espanhol. A isto, o condutor do programa responde paciente e didaticamente explicando que na Rádio Galega a língua vehicular é o galego, porque assim o marca o estatuto de Autonomia, a Lei de fundaçom da CRTVG os estatutos da empresa e mesmo o contrato de trabalho dos profissionais. A isto acrescenta que só faltava que na Rádio Galega se falasse outro idioma que nom fosse o galego e que para rádio em espanhol já estavam todas as demais (esta última parte, sem dúvida amolou especialmente a mulher)

A senhora “galegófoba” insistiu várias vezes no seu argumentário: o trabalhador da RG era um maleducado por lhe falar em galego. Pouco menos que sugeria que para falar-lhe em galego a ela havia que pedir permissom. O condutor replicava, evitando o máximo possível cair no terreno da opiniom, que ele falava no que tinha que falar e que nom obrigava ninguém a falar em galego, simplesmene agia conforme as leis (ainda que também desse a entender que ele entendia lógica e justa a situaçom).

No ataque, que o locutor resolveu com dignidade, sem perder os papéis, a supremacista ferrolana deixou cair umhas quantas pérolas tais como: “Os estatutos! Quais estatutos? Aqui vamos acabar como na Catalunha!”, “Eu sei o francês e mais o inglês, mas o galego nunca me interessou”, “Os senhores som uns maleducados porque esta rádio a pagamos todos e se eu falar espanhol tenhem que me falar em espanhol”, “Eu falei antes, portanto esta conversa tinha que ser em espanhol”, “Eu conheço Feijó e vou-lhe dizer isto”. A toda esta chuva de estupidezes, o locutor replicou que ela podia ir dizer-lhe o que quigesse a quem quigesse e que mesmo lhe poda dizer com que locutor estivera falando, ao que o elemento galegófobo respondeu que nem pensava molestar-se em dar o nome do locutor.

Enfim, aspetos destacáveis do lance para termos em conta e analisar: Primeiro, desprezo absoluto pola legalidade, os meus desejos e as minhas apetências estám por cima de qualquer lei. A insistente referência ao quadro legal por parte do trabalhador, desde logo que serviu para colocar as cousas no seu contexto para o resto do público mas nom valeu de nada para que a senhora reconsiderasse nengum aspeto da sua argumentaçom. Simplesmente o Senhor é maleducado porque me fala em galego. Segundo, desprezo absoluto também polos direitos do interlocutor. Mais alô de que se me respeite a liberdade para eu falar espanhol, eu nom quero ouvir ao meu interlocutor falar-me em galego. Em ressumo, além de ter a liberdade no que di respeito da minha conduta lingüística, reivindico o poder sobre a conduta lingüística dos demais, que terám que amoldar-se à minha. Terceiro, supremacismo étnico-lingüístico. Os privilégios dos indivíduos de umha comunidade estám por cima dos direitos e mesmo dos deveres dos indivíduos da outra comunidade. Nom há reciprocidade, eu nom tenho que saber galego, nom tenho porque deixar de falar espanhol ainda que me falem noutro idioma, ninguém me pode obrigar a falar em galego, ainda que os galegofalantes sim que devem falar em espanhol comigo. Quarto, o amigo do poderoso tem direito a utilizar essa condiçom para intimidar quem o incomodar.

Nom tem desperdício todo o material que se pode tirar deste ataque supremacista. Sem dúvida algumha, há contextos em que a defesa dos direitos daqueles que somos galegofalantes de maneira consciente passa por argumentaçons “legalistas”, ainda que tal como se evidencia neste ataque, a razom da lei nom seja umha razom observável nem plausível para estes elementos. Os fascistas som como som; a lei é sagrada quando me dá a razom e quando nom ma dá simplesmente ignoro-a. Quero dizer que no contexto do mundo do emprego público um tem-se que cingir ao quadro legal por insuficiente que este parecer, já que por imperfeito que for, é infalível. Um trabalhador público se se cinge à lei é intocável, salvo que o poder político pretenda manipular. Na rua, a cousa já nom pode ir por essa via. Quando quem tem o poder e todas as vantagens passa ao ataque, quem joga com desvantagem deverá ser também agressivo. Essa agressividade terá que ser inteligente, mas terá que manifestar-se. E nom vou pontificar, mas deixo aí essa pequena reflexiom. Nom se pode jogar a um jogo ao que ninguém joga, respeitar umhas regras que ninguém respeita. Desde logo que necessitaríamos mais empregados e empregadas públicas nas administraçons que fossem capazes de defender o terreno que a nossa língua foi ganhando nesse ámbito, ainda que a luita está também fora das administraçons. Continuamente estamos expostos a agressons por parte de quem abusa do seu poder, ou de quem pretende antepor os seus pretensos direitos sobre os nossos direitos reais. O empresário que nom tem em conta a tua demanda de emprego por estar escrita em galego, o polícia que te reclama para expressares-te em espanhol porque di nom perceber-te, ou simplesmente por te provocar, o empregado daquele estabelecimento hoteleiro que nom te atende ou que necessita confirmar que o café com leite é com efeito “café con leche”. Som situaçons da vida quotidiana, que convertem em heroico viver com normalidade o facto de sermos galegofalantes, e galegofalantes porque queremos, nom porque “nos tocasse em sorte”, ainda que sejam motivos que podem confluir. Quando alguém que exerce umha atividade pública e defende com clareza e firmeza a legitimidade de falar em galego, sem ter que dar explicaçons nem ceder aos caprichos de ninguém, é de agradecer, porque me está a defender a mim e a todos e a todas as pessoas que luitamos por isso todos os dias… na rua, a batalha luitada hoje, será luitada de novo amanhá. Haverá que ler Martin Luther King e Malcolm X…