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As FARC-EP e o repto dos diálogos de paz

Quarta-feira, 19 Dezembro 2012

Alberto Angulo

Historicamente as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (FARC-EP) sempre apostárom na soluçom política do conflito desde as suas origens. É algo que levam no seu ADN, transmitido à organizaçom através do seu legendário líder Manuel Marulanda Vélez.

Factos anteriores à criaçom das FARC-EP figérom com que Marulanda, após o assassinato de Eliécer Gaitán e a sua crescente aquisiçom de consciência, vivira diferentes situaçons polas que passando do seu pensamento liberal ao comunista conseqüente nom há renunciar nunca à soluçom política do conflito. Outra cousa é que a corrupta e mafiosa classe dirigente colombiana mostrara umha férrea oposiçom a atingir tal fim. O caminho das armas nom foi umha opçom, senom umha obrigaçom imposta pola oligarquia colombiana ao nom deixar outra saída se se queria conservar a vida. Cada vez que se tratou de desenvolver um projeto político pola via pacífica, os assassinatos, a tortura e a repressom mais violenta fijo ato de presença.

Para chegar à atual mesa de diálogo que se está a desenvolver na atualidade em Cuba, houvo previamente umha série de processos que proporcionárom à guerrilha a experiência e a aprendizagem necessária neste tipo de conversaçons. Isto permite às FARC-EP afrontar este novo processo com profundo conhecimento de qual é a melhor forma de agir em cada momento, situaçom e circunstáncia. O interlocutor que tenhem diante sempre guarda um ás na manga e gosta de jogar com cartas marcadas. Os distintos processos de diálogo nos que as FARC-EP tenhem apostado assim o demonstram. Desde o acordo da Uribe com o governo de Belisario Betancur entre 1984 e 1987 que deu lugar à criaçom da Unión Patriótica, com o conseguinte massacre de mais de 5.000 dos seus militantes e simpatizantes. Passou-se em 1991 polo processo de Caracas e Tlaxcala no governo de César Gaviria, e entre 1998 e 2002 os diálogos do Caguán no governo de Andrés Pastrana.

Toda esta bagagem e experiência vê-se corroborada em como as FARC-EP estám a medir muito bem os tempos. Isto é, com as audaces e inteligentes açons que tenhem descolocado o Governo Santos, levando-lhe a dianteira e obrigando-o a ir a reboque na vitrina mediática, que é um cenario paralelo ao da mesa de diálogo com umha dimensom e projeçom muito importante e nada desdenhável no campo da influência. O discurso claro, contundente e combativo pronunciado por Iván Márquez em Oslo, a incorporaçom de Alexandra Narinho na delegaçom fariana, e a declaraçom de umha trégua unilateral de 2 meses por parte da guerrilha o mesmo dia em que começavam as conversaçons em Havana, som boa monstra disto.

Umha menssagem que se repete sem cessar intensificando-se na sua difusom com a chegada das atuais conversaçons, e que já cheira a podre polo velho e batido do seu uso, é aquela que trata de espalhar maciçamente a ideia acerca de que a guerrilha chega derrotada à mesa de diálogo. O Governo Santos bem sabe que a vitória militar sobre as FARC nom é possível, que nem sequer com o Plano Colômbia em toda a sua intensidade esse objetivo está próximo a atingir-se a curto, meio e longo prazo. A capacidade operativa da guerrilha é facilmente comprovável e contrastável nos boletins de guerra que as FARC-EP fam públicos, e que se vem verificados nas contínuas notícias que os meios de comunicaçom burgueses nom podem ocultar. Apostar na tese de que a guerrilha chega debilitada e derrotada militarmente à mesa de diálogo é nom querer ver a realidade e desconhecer qual é a essência que alimenta e alenta as fileiras farianas.

É certo que as FARC-EP sofrérom nos últimos anos fortes golpes contra a sua estrutura de mando com a morte de destacados comandantes, e também importantes baixas à guerrilha como em Arauca e no Meta ou mais recentemente em Nariño. Mas só a ignoráncia sobre o que as FARC-EP som pode fazer pensar que com essas operaçons militares a guerrilha vai a claudicar e vam produzir-se grandes desmobilizaçons. Cada vez que cai um guerrilheiro ou umha guerrilheira em combate, assassinado polo braço executor da oligarquia e das elites que governan a Colômbia com mao de ferro, o/a camarada morto/a é substituido/a por outro/a, que recolhe o seu fusil e ve reforçado o seu espírito de luita e a sua conviçom polo sangue do companheiro/a caído/a, retomando a luita e o combate com mais ímpetu e implacabilidade que antes.

O exército colombiano, com a ajuda inestimável de pessoal especializado e da última tecnologia proporcionada polo imperialismo ianque e o MOSSAD israelense, intensificou nos últimos 32 meses as denominadas operaçons Veta, é dizer, operaçons de alta precisom de tipo cirúrgico que lhe dérom bons resultados ao fugir do confronto direto e centrar-se em bombardeamentos da Força Aérea acompanhados do posterior desembarco de tropas de elite. Mas ainda assim, e com todo o potencial tecnológico, as operaçons terrestres estám muito longe de dar os resultados aguardados, demonstrando umha grande capacidade combativa da guerrilha para contrarrestá-los e causar grandes baixas e fortes golpes ao inimigo.

De facto, nom se deve excluir a possibilidade de que essa esmagadora hegemonia da Força Aérea Colombiana (FAC) esteja a chegar ao seu fim co derrubamento de um aviom Supertucano o mês de julho passado, e recentemente, o achado por parte do exército colombiano de mísseis terra-ar Sam 7 com capacidade para derrubar umha aeronave a 6,5 Km de altura, pertencentes às FARC-EP, o qual abriria umha nova etapa no conflito armado.

Umha menssagem falsa repetida mil veces, e amplificada polas empresas que tenhem como área de mercado a informaçom, nom se transforma em verdade, senom que é manipulaçom mediática pura. Embora a oligarquia colombiana queira confundir os seus sonhos e desejos com realidades por enquanto inalcançáveis, as FARC-EP seguem a ser um rival temível com umha experiência e capacidade operativa tática e estrategicamente contrastada, por algo som a guerrilha mais antiga da América-Latina.

Diálogos de Havana

A mesa de diálogo tivo o seu início formal o passado 18 de outubro em Oslo (Noruega), e o primeiro encontro para abordar o primeiro ponto do organograma fixado no denominado encontro exploratório 19 de novembro em Havana (Cuba) -no que se acham na atualidade-, corresponde com o desenvolvimento rural. Podem observar-se, como nom podia ser doutro jeito, duas tendências bem diferentes segundo falar um ou outro dos interlocutores. Haverá que observar e estar muito atentes para conhecer até onde se está disposto a ceder por ambos os lados nas conversaçons, qual é o ponto limite.

As FARC-EP tenhem deixado muito claro que a questom da terra é algo fulcral. Nom por acaso é o primeiro tema a tratar, o único do que se sabia a ordem, pois será no percurso que se hám decidir os quatro pontos restantes.

Há que ter em conta que a questom agrária é umha das principais causas históricas da luita de classes na Colômbia. Encontramo-nos com um processo baseado na acumulaçom por despossessom com o deslocamento forçado e obrigado de quase seis milhons de camponeses/as. Grandes territórios que passam a maos das multinacionais que sem nengum tipo de respeito pola terra provocam enormes desastres ambientais e ecológicos, com a exploraçom minero-energética e agroindustrial como principais atividades lucrativas.

O ritmo de destruiçom é tam alto que tal e como denunciárom as FARC-EP em Oslo, se continuar assim, em dez anos a Colômbia poderá converter-se num estado inviável.

O carvom, o petróleo, o coltam, o ouro ou o ferro-níquel, como grandes riquezas do país estám em maos privadas, graças à política de estrangeirizaçom da terra por parte do governo colombiano. Os ingentes dividendos que se geram repartem-se entre as multinacionais e os governantes corruptos sem que chegue praticamente nada às maos do povo.

Os porta-vozes do governo Santos já se apressurárom a assinalar que o modelo económico, a inversom estrangeira e a propriedade privada nom entravam na discussom. Para eles a mesa de diálogo só tratará os temas agendados, mas as FARC-EP nom som cria de pita, mas de lobo espreitador. A guerrilha bem sabe que o mantimento da guerra é muito custoso para o Estado umha vez que o Plano Colômbia fracassou estrondosamente na procura de umha rápida eliminaçom militar da guerrilha. Um cenário de desgaste paulatino com avanços e retrocessos que provoque que o conflito se dilate no tempo resulta insustentável para o Estado que sabe que se com as ingentes quantidades investidas na guerra nom conseguiu dobrar a insurgencia, poderia ir perdendo terreno a medida que o orçamento militar diminui, o qual se deve levar em conta em momentos em que a crise económica mundial se agudiza.

Nom se pode obviar que o gasto militar do estado colombiano é dos mais altos do mundo em proporçom ao seu Produto Interno Bruto (PIB), triplicando-o nos últimos vinte anos ao passar de 2,4 a 6,4, acrescentando a isto os 700 milhons de dólares que o governo ianque lhe entrega anualmente em relaçom ao Plano Colômbia. Nom se deve esquecer tampouco que o estado colombiano é o terceiro país receitor de ajuda militar dos USA.

Agenda a debate

Os outros temas da agenda som as garantias para a oposiçom política (rutura da relaçom armas/política), o fim mesmo do conflito (abandono de armas e reincorporaçom das e dos guerrilheiros à vida civil), narcotráfico e direitos das vítimas.

Como será o decorrer destes pontos é umha incógnita e a sua tendência, sem dúvida, estará influenciada por diversos fatores endógenos e exógenos que farám com que o processo passe por situaçons melhores e piores, que se avance mais rápido ou mais lento segundo as diferentes circunstáncias e temas a tratar na agenda em cada momento. Um desses fatores desestabilizadores som e serám as palavras e declaraçons incendiárias que desde a oligarquia colombiana tratarám de fazer descarrilar o processo de paz procurando salvaguardar os seus privilégios.

Sabem que as FARC-EP nom som compráveis neme assimiláveis ao sistema corrupto e criminoso que governa a Colômbia, que se deixam as armas é porque se vam a dar as condiçons necessárias para umha mudança profunda a nível político, económico, social e militar. As FARC-EP nom estám a dialogar para atingir privilégios para si próprios como organizaçom insurgente. As FARC-EP som o povo em armas e luitam pola paz com justiça social para o povo colombiano: camponeses/as, indígenas, afrodescendentes e todos os desfavorecidos, condenados à miséria e a pobreza por um sistema criminoso que se aproveita da terrível e descarada desproteçom que o povo colombiano sofre.

Para as FARC-EP é muito importante que o povo seja escuitado na mesa de diálogo, que ocupe e desempenhe o papel que lhe é próprio como motor e impulsionador do processo para a mudanza que necessita o País. É através da mobilizaçom e pressom nas ruas que se poderám atingir as mudanças reais. As conversaçons entre guerrilha e governo podem dar lugar a acordos, mas se estes nom refletem os anceios do povo nom vam ter valor algum.

Os prazos da negociaçom

Umha questom crucial, e muito importante, é o tempo destinado para o desenvolvimento do processo. A respeito disto o passado 2 de dezembro o Presidente da Colômbia Juan Manuel Santos anunciou que o prazo máximo seria até novembro de 2013. Por que essa data? Pois porque em novembro de 2013 será que comece a campanha eleitoral às presidenciais e Santos nom vai poder, segundo as circunstáncias, permitir que continuem os diálogos se estes podem restar-lhe apoios numha possível reeleiçom.  Ao anunciar essa data limite Santos reserva-se a ruptura dos diálogos se as cousas nom vam como ele aguarda. Desta maneira mete pressom às conversas e guarda-se umha carta na manga que lhe sirva como justificaçom para rompê-las se o considerar necessário.

Justificaçom que lhe havia servir também caso supere esse limite para em qualquer momento deixar cair que ampliou esse período como mostra de boa vontade, mas que a guerrilha nom tivo intençom de chegar a nengum acordo. Isto deixa entrever que nom há umha aposta real em acabar com o conflito que já atinge quase 5 décadas.

Fai-se necessário assinalar que nos acordos prévios entre as FARC-EP e o Governo em nengum momento se falou de meses, senom de demorar o tempo que seja necessário. Outra cousa é que do poder institucional se queira boicotar esta realidade e que através do Presidente Santos já se anuncie que nom duraria anos como no Caguán. A realidade é que os porta-vozes do Governo manifestaram inicialmente que o executivo tinha a INTENÇOM de manter “negociaçons” de 8 meses com as FARC-EP a partir dos quais se avaliaria se os diálogos iam por bom caminho e assim determinar a sua continuidade. Nada de umha data marcada previamente para a sua conclusom, é dizer, que se trata de umha condiçom unilateral por parte de Santos realizada a posteriori.

Se nom se quiger pensar mal nom é lógico nem compreensível que se tardem seis meses (de 23 de fevereiro a 26 de agosto de 2012) simplesmente para chegar a um pacto para começar um diálogo, nem que se pretenda que em doze meses se abordem todos os temas agendados, chegando-se a acordos profundos e bem afiançados que dem segurança e garantias de éxito ao processo de paz.

Um tema que nom quero deixar passar por alto antes de finalizar, e do que já se tem escrito algo ao respeito, é a possibilidade de que a delegaçom das FARC-EP poda ficar isolada em Cuba após umha possível ruptura do processo. Esta circunstáncia que soa rara poderia dar-se sem nengum problema, pois a restriçom de umha eventual captura só existem para à Noruega, Cuba e a Colômbia, mas neste último caso o regresso só poderia fazer-se com umha autorizaçom expressa do Governo. Se algum dos/as membros das FARC-EP se acharem nalgum país que nom seja algum desses três poderá ser detidos/as de imediato.

Deixando de lado o campo da hipótese, o que sim é claro e inqüestionável é que se lamentavelmente o processo nom tiver sucesso e resulta falhido, passe o que passe as FARC-EP voltam a ser reconhecidas como um interlocutor político válido, demonstrando que essas etiquetas de guerrilha narcotraficante e terrorista nom som mais que intentos da oligarquia colombiana e o imperialismo ianque para tratar de desprestigiá-la, deslegitimá-la e demonizá-la ante a opiniom pública. Fica ao descoberto e meridianamente claro qual é a verdadeira razom de que se obrigue a que os/as delegados/as da guerrilha fiquem isolad@s em Cuba, em vez de deixar que expliquem, difundam e dem a conhecer o seu projeto político em qualquer parte do mundo onde sejam convidados/as.

Os/as revolucionários/as e povos do mundo temos nas FARC-EP um exemplo, um referente de entrega e dignidade, de luita inclaudicável pola emancipaçom das classes oprimidas e o objetivo socialista. Com a espada de combate de Bolívar em alto, seja qual for o cenário de luita, os/as comunistas da Galiza rebelde e combativa unimo-nos com toda a guerrilha fariana num grito único e fraterno: juramos vencer, e venceremos!

Galiza, 13 de dezembro de 2012