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A ‘Syriza galega’ e a vigência do princípio de auto-organizaçom nacional

Quinta-feira, 13 Dezembro 2012

Maurício Castro

Às vezes, as condiçons de fraqueza política levam algumhas forças a tentarem fazer da necessidade virtude. É isso, em nossa opiniom, que explica o precipitado acordo entre várias forças galegas de esquerda reformista com umha de idêntica natureza, mas diferente nacionalidade, concreta e significativamente espanhola. Referimo-nos, claro, ao recente pacto entre Anova (EI, FPG, MpB, Foga e MpB) e Izquierda Unida (com a adesom posterior de Equo e Ecogaleguistas), para juntas tentarem aceder ao Parlamento autónomo nas eleiçons de 21 de outubro.

No texto dedicado a este assunto antes do início da recente campanha das autonómicas, do qual este é umha alargada atualizaçom pós-eleitoral, comentávamos como as diversas argumentaçons com que foi defendida a necessidade do pacto confundiam, como é habitual em muitas forças políticas, as necessidades do País com as necessidades das próprias forças políticas envolvidas.

Assim, vimos como se apelava às “circunstáncias extraordinárias em que esta convocatória acontece”, à “urgência de derrotar o Partido Popular” ou até ao objetivo de “rebentar o sistema galego de partidos” (sic). Os argumentos mais elaborados até remontárom à Frente Popular de 1936, à ferriniana Posiçom Soto de 1992 ou, como nom, ao pólo soberanista basco, que incorporou um grupo cindido de IU, denominado Alternatiba.

Em síntese, a clara suspensom, neste caso, do princípio elementar da auto-organizaçom galega responderia à sobranceira unidade da esquerda, priorizando essa ideia sobre o que a própria IU definiu como “o secundário debate identitário”. Nesse sentido se manifestárom, abertamente, duas das forças integrantes da AGE (Alternativa Galega de Esquerda, nome que finalmente adotou a soma de Anova e a filial galega da espanhola Izquierda Unida). Referimo-nos à própria IU e à FPG, primeiras a defenderem abertamente a necessidade de umha confluência dos cindidos do BNG sob a liderança de Xosé Manuel Beiras, juntamente com os restantes grupos que reclamam estar “à esquerda do Bloque“. O próprio Encontro Irmandinho (EI) de Beiras nom demorou a abençoar a proposta de Mariano Abalo e Yolanda Díaz.

A FPG e IU mantinham já umha estreita relaçom política durante os últimos anos no concelho de Cangas, onde co-governárom e formam ainda um grupo municipal, que foi posto como precedente válido do que viria a ser a AGE.

Foi assim que, umha vez descartada a opçom “moderada” representada por Compromiso por Galicia (CxG), também rachado do BNG no último ano, se constituiu umha nova força eleitoral à qual aderírom as siglas acima indicadas.

Cabe lembrar aqui que NÓS-Unidade Popular foi a única das pequenas correntes da nossa esquerda  soberanista que, alheia à crise interna do BNG, desde o primeiro momento se autoexcluiu tanto do chamado Novo Projeto Comum (NPC) que originou a Anova, como da imediatamente posterior aliança eleitoral. Para completar o complexo mosaico, haverá que citar ainda Causa Galiza, reduzida à mínima expressom após o oportunista abandono por parte da FPG e do MpB, como imediata conseqüência da saída de Xosé Manuel Beiras e do seu EI do BNG.

Os restos de Causa Galiza traçárom nos últimos meses um errático ziguezague que os levou a aderir durante todo o processo pré-assemblear ao chamado NPC articulado polo EI e a abandoná-lo, surpresivamente, no dia anterior à Assembleia Constituinte do que viria a ser Anova.

A “contradiçom principal”

Situando-nos novamente na constituiçom da AGE como proposta de unidade eleitoral nucleada por Beiras com o sustento de Izquierda Unida, os protagonistas da operaçom apelárom à necessidade de abalar o panorama político existente no Parlamento autonómico, instalado no marasmo das três forças de costume. Tanto o candidato a presidente da Junta pola AGE como a número 2, Yolanda Díaz (do PCE-IU), situárom como objetivo declarado a mobilizaçom do abstencionismo de esquerda, nomeadamente o movimento “indignado”, possibilitando assim umha derrota nas urnas do Partido Popular, numhas “circunstáncias históricas extraordinárias” que deviam somar toda a esquerda social para possibilitar esse recámbio institucional. O fator nacional deveria ficar arrumado diante da excecionalidade do momento e da prioridade do fator “de classe”, diziam…

Na verdade, alguns concluímos, e assim o declaramos no seu momento, que essa suposta “contradiçom principal” a que aludimos mais acima foi a estabelecida entre a coerência e o oportunismo, sendo resolvida mediante a procura, a qualquer preço, de um lugar no Parlamento. Beiras aspirava a que o 21 de outubro lhe permitisse recuperar o protagonismo perdido e, em simultáneo, culminar a sua particular vingança polas contas pendentes com a UPG, após o traumático processo no interior do BNG, culminado na Assembleia de Ámio e na cisom. Entretanto, os representantes galegos de Cayo Lara aspiravam a tirar proveito do cenário de crise e recomposiçom do nacionalismo galego, sabendo que em solitário teriam complicado nem que fosse conseguir umha única cadeira do Parlamento.

No mesmo campo do oportunismo político devemos situar a plena disponibilidade da FPG, MpB e Foga para alinharem com forças sistémicas e claramente reformistas, além de historicamente afastadas de qualquer veleidade soberanista.

Vistos os resultados, nom há dúvida de que o “contexto extraordinário” a que uns e outras aludiam para justificar o pacto ficou em mais umha eleiçom autonómica, caraterizada pola alta abstençom, essa sim, histórica (45%, 1.216.338 pessoas). Nengumha candidatura conseguiu aglutinar ou contribuir para aumentar o total de votos anti-PP, objetivo principal declarado por todas elas. Nem sequer a perda de votos do Partido Popular (661.281 em 2012, 789.427 em 2009: 128.146 votos menos, mas 3 deputados mais) permitiu articular umha maioria parlamentar alternativa, repartindo-se o PSOE, o BNG e Anova um número ainda menor de votos e de representantes (644.439 votos e 34 cadeiras, face aos 811.641 e 37 de 2009).

Certamente, a AGE conseguiu um grande resultado (200.828 votos e 13,9% face aos 16.441 e 0,9% de IU em 2009) mas, longe de significar qualquer abalo do Parlamento, a entrada de 5 deputados e deputadas de IU e 4 de Anova só vai servir para animar um bocado os debates, graças à participaçom do sempre espetacular Beiras, e para criar falsas expetativas, durante algum tempo, nos setores que trocárom as siglas do BNG ou do PSOE polas da chamada “Syriza galega”.

Apesar dos grandiloqüentes discursos sobre processos constituintes, segundas transiçons e a prometida “oposiçom diferente”, já ninguém se lembra, por exemplo, dos apelos a “rebentar o sistema de partidos” com que a FPG justificou a sua presença na operaçom eleitoralista encabeçada por Xosé Manuel Beiras e Yolanda Díaz. Sobretodo depois de vermos como o próprio Beiras é capaz de compatibilizar um discurso inaugural incendiário na sede parlamentar com a assistência como convidado a um evento editorial organizado por La Voz de Galicia, junto à nata da burguesia e da “classe política” autonómica na sede da empresa dos Fernández Latorre.

Perdeu vigência o princípio de auto-organizaçom?

Para além dos resultados concretos de cada ator neste episódio de vendettas, oportunismos e recomposiçom política das forças que configuram a esquerda reformista na Galiza, interessa tirar algumha conclusom a respeito da séria emenda realizada por Anova ao princípio de auto-organizaçom que historicamente definiu a trajetória política do nacionalismo galego.

Vale a pena lembrarmos que nom foi este o primeiro experimento de coligaçom entre forças reformistas dos nacionalismos opressor e oprimido praticado na Galiza. Passárom já 20 anos de umha tentativa parecida, mas isenta da parafernália “radical”, ensaiada pola Unidade Galega de Camilo Nogueira e a Esquerda Unida de Ánxel Guerreiro. O seu fracasso (ficou fora do Parlamento com 3% dos votos) provocou um esquecimento rápido mas, de facto, constituiu um precedente da que, agora sim, conseguiu um resultado muito relevante (14% de votos) devido ao momento político em que foi realizada e ao papel determinante de Beiras no êxito da experiência.

Indo direto ao assunto, e antes de que me acusem de essencialista e etnicista por defender a incontornável e permanente necessidade de fortalecer umha efetiva auto-organizaçom em todas as ordens da vida social no caso de umha naçom oprimida como a Galiza, direi que, coincidindo nisso com IU, tanto eu como a organizaçom política em que milito, NÓS-Unidade Popular, evitamos perder o tempo em debates identitários. A nossa nacionalidade galega resulta de umha vontade consciente e irrevogável.

Por isso, e ainda sendo conscientes da extrema fraqueza e dispersom da nossa esquerda nacional, em nengum caso recorreríamos ao atalho de um acordo subordinado a forças do regime que nega a nossa naçom. O PCE foi no seu dia, nom o esquecemos, um dos agentes políticos que tornárom viável o atual regime monárquico, unitário e capitalista espanhol. Mas, além do seu passado, continua a fazer parte da sua arquitectura institucional e aspira, como tal, a recuperar o protagonismo perdido no seio da esquerda social galega.

Poderiam ser dadas muitas provas sobre o papel que o regime atual nascido do franquismo atribuiu ao PCE-IU: desde a sua renúncia originária à legalidade republicana e assunçom da ilegítima legalidade monárquica, até o seu permanente compromisso na estabilidade do sistema de livre mercado como consciência crítica “de esquerda”.

Porém, conformamo-nos com citar um dado sintomático: o “Documento de análise conjunta da situaçom política” assinado polas delegaçons basca e catalá do Partido Popular em 1997, no qual se avaliava “muito positivamente o propósito de implantar Izquierda Unida na Catalunha, com o qual se contribuirá a dar umha ambientaçom cada vez mais espanhola à política catalá”.

Alguém duvida que, da mesma forma que fazia em referência à Catalunha dos anos 90, também agora o PP considerará positivamente a homologaçom da Galiza com o sistema de partidos imperante no conjunto do Estado espanhol? Eis o importante papel que corresponde a Izquierda Unida no caso galego: completar o leque ideológico do nacionalismo espanhol, já que coincide no fundamental com o princípio constitucional da unidade da “pátria comum indivisível” imposta sob ameaça militar pola oligarquia espanhola dominante. Os seus 5 deputados conseguidos no dia 21 de outubro aproximam a Galiza um pouco mais dessa homologaçom pendente.

Nom é o momento de relatar todas as carências que a corrente maioritária do nacionalismo galego atual arrasta, incluído o grave risco de se limitar a reproduzir o papel de “muro de contençom” das luitas, tal como o PCE-IU tem desempenhado como um dos atores principais da Transiçom. Contodo, a sua defesa do princípio de auto-organizaçom nacional tem sido determinante na existência de importantes ferramentas de construçom nacional na Galiza das últimas décadas e já desde a etapa final da ditadura franquista, em ámbitos como o sindical, o cultural e o político.

Da mesma forma, a emenda realizada nos últimos meses, dentro do próprio País, por beiristas e ferrinianos a esse princípio expressa nom só a subjetividade oportunista da proposta a que aludimos nestas linhas. Também dá corpo a umha tendência objetiva presente no seio da sociedade galega, que tende a equiparar-nos com a média espanhola e ameaça de maneira imediata o futuro e a viabilidade do projeto nacional galego.

O caráter minoritário mas, sobretodo, minimalista, do nosso nacionalismo, com as suas tendências eleitoreiras e de renúncia a umha verdadeira aposta na soberania nacional plena, em favor da ilusom ‘co-soberanista’, pugérom nos últimos anos em risco o próprio processo de construçom nacional. A responsabilidade da dirigência do BNG (a UPG, sim, mas também Beiras e as restantes correntes) no avanço dessas tendências é grande. A retificaçom é urgente, mas complicada, no caso de que ainda seja possível.

Da mesma forma, a situaçom de crise sistémica generalizada obriga a que as diferentes correntes da esquerda nacional galega que nom capitulárom perante o nosso inimigo histórico assumam um inequívoco compromisso de classe, ligando a conquista da soberania nacional plena com um programa socialista de ruptura com o capitalismo.

Dito por outras palavras: devem superar-se os minimalismos nacionais arrastados durante décadas pola maioria das e dos nacionalistas deste país, cujo discurso federalista os equipara já com forças espanholas que recorrem à ilusom federal para frear o independentismo. Mas deve também superar-se o inviável interclassismo que se plasma no afám por convencer a burguesia galega para que dirija um limitado processo de construçom nacional, o que a experiência do BNG nas últimas décadas demonstrou como aspiraçom irrealizável.

As eleiçons autonómicas passam e os problemas de fundo permanecem. Como nom somos alheios aos desafios que o nosso povo trabalhador enfrenta em plena crise capitalista, nem pensamos que as soluçons a esses reptos passem por umha renúncia à autoconstruçom como comunidade nacional, deveremos tirar as liçons correspondentes nom só do episódio da ‘Syriza galega’ e da sua emenda ao princípio de auto-organizaçom nacional. Deveremos também analisar em profundidade as graves eivas que tem arrastado a esquerda nacional galega durante as últimas décadas, que possibilitárom que nom só a sua expressom institucional maioritária, mas também o conjunto do movimento de libertaçom nacional, enfrente hoje umha grave crise de identidade e viabilidade.

Em plena crise sistémica do capitalismo mundial, expressada no Estado espanhol numha descomposiçom do regime, que está a perder a estabilidade que o caraterizou nos últimos 30 anos, a reafirmaçom da vigência do princípio de auto-organizaçom deve articular-se na Galiza com a construçom de um novo referente político. Um referente que deverá estar unicamente ao serviço do povo trabalhador galego, como principal protagonista de um processo de emancipaçom nacional plena. Um processo classista e independentista, que inclua também a centralidade da específica luita que protagoniza em primeira pessoa mais de metade da populaçom atual da Galiza: a luita das mulheres.

Essa é a importante tarefa que a esquerda independentista interiorizou há tempo e que deverá ser abordada junto a outros setores identificados com o idêntico anelo. O anelo libertador que guia todos os oprimidos e oprimidas da terra até a conquista da verdadeira fraternidade humana.


‘Por umha verdadeira articulaçom galega, soberana e de esquerda’ in Novas da Galiza nº 118 (15 de setembro a 15 de outubro de 2012).

Esquece quem apela ao exemplo basco que a tal Alternatiba rompeu previamente com o seu referente madrileno anterior (IU), parecendo-se mais com a evoluçom seguida anos 90 por organizaçons como o MCG-Inzarno caso galego.

Naqueles anos, com efeito, ‘Esquerda Unida’ era o nome da filial galega de IU. A partir da crise de 1997, o PCE rebatizou a sua agrupaçom eleitoral incorporando em primeiro lugar o nome em espanhol espanhol, seguido do galego (Izquierda Unida-Esquerda Unida). Essa continua a ser a denominaçom atual de IU na Galiza.

“Documento de análise conjunta da situaçom política”. PP do País Basco e PP da Catalunha. Bilbau, 21 de outubro de 1997.