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Suicídio, propriedade e comunismo

Segunda-feira, 10 Dezembro 2012

Iñaki Gil de San Vicente

As palavras nom som neutras, estám carregadas ética e politicamente, também com vulgarismos, com tópicos e eufemismos, e quase sempre com ideologia, isto é, com falsa consciência que investe a realidade, que oculta as contradiçons, ou que as suaviza fazendo-as aceitáveis ao reformismo e a esse verdadeiro cepo imovilizador da consciência crítica que é o chamado sentido comum. Falamos de suicídio na vez de assassinato indireto no caso das mortes de pessoas que estavam a ponto de ver como o capitalismo os despejava, assassinato induzido a distância mediante a esotérica «mao invisível do mercado» que para funcionar com efectividade material precisa da muito visível e férrea mao acoraçada do Estado e da lei da propriedade burguesa. Estado e propriedade privada som, por tanto, dous conceitos imprescindíveis para acercar-nos com um mínimo de rigor ao problema dos chamados suicídios provocados por razons de despejo da morada.

Sempre devemos contextualizar as palavras e sacar à luz aqueles conteúdos seus sistematicamente expurgados da linguagem dominante, conteúdos que mostram as contradiçons irresolúveis do sistema capitalista que som a razom última e definitiva do tremendo deterioro da saúde psicosomática da humanidade trabalhadora. Por isto é de agradecer que muito recentemente se tenham publicado em Gara dous artigos ao respeito: “Despejos: o desamparo definitivo”, do 17-XI-2012, e “Aumento de suicídios como consequência da crise”, do 5-XI-2012. Dous artigos necessários para mergulhar ao fundo do problema, da tragédia melhor dito, dos despejos e suicídios provocados direta ou indiretamente pola incompatibilidade última entre a propriedade privada das forças produtivas e a liberdade humana que sempre precisou da propriedade coletiva, comunal e/ou comunista, segundo se queira, para realizar as suas inesgotáveis potencialidades. Pessoalmente, vou tentar completar três aspectos que, ao meu entender, som imprescindíveis para umha melhor luita contra a exploraçom.

Um primeiro aspecto nom é outro que a pergunta sobre que devemos entender por propriedade privada das forças produtivas? Desde logo que nunca temos de entender por tal cousa e no capitalismo atual, a posse de um utilitario de segunda ou terceira qualidade, ou de dous televisons no domicílio, ou de um computador com acesso a Internet, por exemplo, sem falar do próprio domicílio e dos seus aparelhos domésticos socialmente estabelecidos como equipamento mínimo estandarizado. Frequentemente estes e outros bens som necessários para a recomposiçom da força de trabalho no atual sistema de exploraçom assalariada. Nom. Por propriedade privada das forças produtivas há que entender, por exemplo e citando só umha das informaçons mais recentes, de meados de outubro de 2012, o facto de que o 1,3% da populaçom acumule o 44,4% do PIB do terço bascongado, uns 37.502 milhons de euros. Agora sim estamos a falar realmente de propriedade privada das forças produtivas. Polo lado oposto, sem propriedade burguesa algumha, nesse mesmo mês de outubro soubemos que no terço bascongado o 6,3% dos lares tenhem muitas dificuldades para chegar a fim de mês, sendo o 5,1% em Nafarroa, e no total de Hego Euskal Herria ascendem a 70.810 fogares.

A diferença entre propriedade burguesa e propriedade familiar ou pessoal «normal» radica em que a primeira se assenta sobre a exploraçom alheia para extrair maisvalor, que permite acumular mais propriedade e que, sobretodo, permite expropiar o domicílio, despejar e expulsar à desolaçom mais desumana, a quem com a sua muito enana propriedade pessoal e/ou familiar som incapazes de sobrelevar as despesas mínimas da sua malvivência quotidiana. A propriedade pessoal reduz-se, em síntese, à própria força de trabalho, mal a algo mais. Baixo esta realidade instaurada desde o início do capitalismo, com a sua fase de agregado originária de capital, que se reativa sempre com formas e modalidades novas, por exemplo a do atual agregado por despossessom generalizada dos bens comuns e da muito reduzida propriedade pessoal e/ou familiar, baixo esta realidade, o despejo contemporâneo nos remete às violências terroristas burguesas de outrora, já denunciadas e combatidas polo socialismo utópico. Sem ir bem longe, em 1845 Engels citava o despejo como umha das táticas habituais da patronal inglesa para aplastar a resistência operária e popular na permanente luita de classes ou «guerra social» daquela época. Propriedade burguesa e luita de classes formam umha unidade de contrários irreconciliáveis, sendo os despejos e os suicídios um efeito necessário que surge do interior dessa contradiçom. E para acabar com o efeito há que acabar antes com a sua causa.

Um segunda aspecto derivado do anterior é precisamente o da tendência cega do capital ao agregado por despossessom, à reatualizaçom das violências terroristas -assim as chamou Marx- sem as quais milhons de camponeses e artesans nunca teriam claudicado ante o direito burguês de exploraçom, e o papel chave do Estado burguês para que facilitar o agregado de propriedade a cada vez em menos maos. Tanto a nível mundial como a nível bascongado com o imoral e reaccionário golpe de Kutxabank, o Estado intervém em massa e permanentemente na privatizaçom descarada de ingentes massas de capital, bens e riquezas públicas, de todo o tipo, forma e condiçom. Um expólio privatizador que supera todo o tido anteriormente na sangrenta história capitalista. Nom vamos dar cifras porque aumentam a cada dia e nom temos espaço agora. O capital tem a «cega necessidade» de acumular a cada vez mais e por isso, entre outras vias, deve expropiar, privatizar e despejar todo o que poida, e mais, ou caso contrário acelerará-se a médio e longo prazo a tendência à queda da taxa média de benefício, base do agregado de propriedade burguesa. Falamos de tendência à baixa porque a sua velocidade e materializaçom depende da luita de classes, das contratendências que consiga aplicar o Estado mediante as suas estratégias socio-económicas, políticas e repressivas. Um exemplo demostrativo da dialética entre a tendência à baixa da taxa média de benefício e o aumento da taxa de suicídios temo-lo no facto de que um aumento de 1% do desemprego supom um aumento de 0,8% dos suicídios, como se nos informa em “Aumento de suicídios como consequência da crise”, do 5-XI-2012.

E o terceiro aspecto é a necessidade do comunismo como única alternativa à privatizaçom do comum, do pouco que pervive fora da propriedade burguesa, desde as terras comunais e/ou estatais, até os primeiros ou últimos sentimentos humanos, está a ser mercantilizado polo capitalismo. Transformar o real em mercadoria e reduzir ao máximo possível o tempo de trabalho, som duas exigências inevitáveis para o aumento da propriedade burguesa. A antropogénia sustenta-se sobre a sociabilidade e sobre os bens comuns, coletivos. Privatizá-los, reduzí-los a propriedade burguesa é destruir o que, até agora, criou à nossa espécie, mas esta e nom outra é a essência do imperialismo na sua fase atual. Por todas partes, em qualquer resistência popular e operária, quase imediatamente aparece o verdadeiro problema: como impedir a expropiaçom, o despejo, a privatizaçom. Manuel Reguera e Amaia Egaña tomarom o caminho do suicídio, mas a única soluçom é a luita ofensiva, tenaz e estrategicamente dirigida à recuperaçom do público, comum e coletivo. É a luta contra a propriedade burguesa, começando pola do cham, da morada, a saúde, a economia, a educaçom, as armas, o ar, a sexualidade, o amor e até a própria morte. A propriedade socialista de Euskal Herria, a sua independência Talvez nom é isto o comunismo?

Euskal Herria 29-XI-2012