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Violência sim!

Quarta-feira, 10 Outubro 2012

Abrám Alonso

Ao pouco das detençons de mais quatro independentistas galegos e ao calor das agressons policiais a manifestantes nas multitudinárias manifestaçons que tivérom lugar em Madrid, e posteriormente às acontecidas em Ferrol contra o Responsável Comarcal da CIG, lembrei umha frase que ouvim a um velho militante independentista e comunista. Afirmava ele lá onde ia que “a violência dos e das oprimidas, contra a violência opressora, é sempre legitima”.

Às vezes, a realidade tomada como cúmulo de contradiçons -todo o que é leva consigo a sua condiçom de nom-ser-, mostra-se-nos no seu ponto mais inverosímil.

Assim acontece no interior da contradiçom existente entre Capital e Trabalho. Contradiçom entre a aliança burguesa, que se dota dum Estado que é em essência um “destacamento de mulheres e homens armados” para defender a sua situaçom privilegiada, à custa do submetimento da classe trabalhadora. Dentro dessa unidade contraditória exploradores-explorad@s, o facto de que a burguesia se outorge o “monopólio da violência”, legislando para si, a partir do exercício do poder e amparada por essa mesma violência, é um plus a essa contradiçom que a fai ainda mais inverosímil, e que se ainda se sustém, é só porque é violência em si mesma.

A burguesia submete e explora, advertindo que é só ela quem pode empregar a violência. O sucesso desta questom nom é essa situaçom, que é no fim de contas umha simples imposiçom. O maior sucesso reside em ter convencido boa parte dos e das oprimidas do mundo da sua justeza.

Justiça

É também por meio do Estado, que a classe dirigente inocula nas cabeças da classe trabalhadora umha visom de sim própria fragmentada.

Somos, segundo a sua versom, indivíduos, e assim implantam em cada um mais doadamente a ideia de sermos todos e todas iguais perante a lei; perante umha imparcial e independente justiça que está por cima do bem e do mal.

No Estado espanhol, e dentro da luita contra da organizaçom socialista basca ETA principalmente, na propaganda de guerra dirigida a convencer a populaçom da sua fortaleza, da sua legal legitimidade e de serem eles os bons, fartamo-nos de ouvir da infalibilidade da justiça emanada do Estado de direito. Mas se somos quem de nos desfazer dessa visom inoculada de indivíduos isolados que procuram sobreviver cada quem como melhor pode, e passamos a ver-nos e a agir coletivamente, como conjunto, quando agimos como classe diferenciada, a cousa muda.

Aí a justiça da burguesia reage doutro jeito e mostra algo mais da sua verdadeira face, do que ela é realmente, dos interesses que a erigiram em tal e, portanto, quem defende. Golpeando, encarcerando, torturando ou eliminando diretamente indivíduos, emprega todo tipo de métodos para procurar controlar o grupo, para o submeter e o manter submisso, e para poder utilizá-lo com base nas suas necessidades.

É para isto que se autolegitimam previamente com o monopólio da violência, em prol do seu Estado, alegando que esse monopólio é supervisado e está sempre ao serviço da justiça, para velar por umhas leis de igual e obrigatório cumprimento para cada “cidadao”. Procuram desfocar essa autolegitimaçom alegando que esse monopólio é outorgado dentro dumha divisom de poderes. Mas como sabemos, toda divisom é-o dumha unidade prévia, e essa unidade é o poder da burguesia erigida em classe dominante, arrebatado a aristocracias e clero. É o poder de controlar o lote completo de território, riquezas e mao de obra a explorar. Mas por meio dessa falsa divisom, cuja independência de cada umha das partes é repetida até a saciedade, conseguem despistar a boa parte da populaçom explorada. O quadro mais ou menos conhecemo-lo todas e todos.

Olhar marxista

Umha das ensinanças mais formosas e apaixonantes do marxismo é, a meu entender, essa que nos ensina a ver as cousas como processos históricos. Há algo quase mágico nesse salto. Às pessoas que nos movemos entre mercadorias, casas, carros, eletrodomésticos… o velho ensinou-nos a deixarmos de ver todo isso como cousas isoladas e cousas sem mais, para as vermos como processos, fazendo parte dum processo histórico em movimento. Assim, umha cunca deixa de ser só cunca, para ser também as horas empregadas pola classe trabalhadora na sua produçom; umha mesa é árvore, abate, serragem da madeira, preparaçom, distribuiçom, venda, compra… junto com todas as horas de trabalho subtraídas em condiçons de exploraçom por parte da classe capitalista à classe trabalhadora. E nem aí se detém o processo, porque a madeira envelhece, é carcomida…

A realidade fixa e imutável deixa de ser tal e converte-se em realidade viva e em movimento, em relaçom com todo o que há nela, em relaçom connosco e a nós com ela.

Recolocamo-nos nessa realidade de cousas mas já a partir da nossa condiçom de produtores e passando a ser sujeito ativo e criador nela e dela. Aprendendo a olhar assim o mundo em que nos movemos e vivemos parte da populaçom mundial, podemos aplicar essa visom a outro aspeto das cousas que pareciam só objetos sem mais. Incorporando todo o que fai parte no processo que leva a realidade que conhecemos, e na qual nos movemos, a ser como é, topamo-nos também com a violência.

A violência negada, afastada, ocultada, essa da qual o Estado e a burguesia querem ter a exclusividade, aparece novamente. Quanta violência há numha cunca? Que grau de violência foi necessário para que numha determinada sociedade, umha classe muito inferior em número consiga “organizar” e apropriar-se da força de trabalho necessária para a produçom de objetos, posta em circulaçom no mercado e benefício dessa minoria? Quanta violência há nesse café que preparamos nada mais começar o dia cada dia? Para extrair esse café a um preço x, torrá-lo, moê-lo, embrulhá-lo, e trazê-lo até aqui?

A burguesia quer que vejamos só a cunca ou o café, como quer que vejamos só que vamos a escola aprender, e que quem nom ascende no seu modelo educativo fica destinado, de jeito natural, para os trabalhos mais precários se “há trabalho”, e se nom houver, a exclusom social será o natural. Mas procura que todo aparente estar dentro dumha igualdade de oportunidades inicial, similar a igualdade da qual dim gozamos todos e todas perante a lei.

Ver a realidade como processo e as cousas como partes “vivas” desse processo, em relaçom dialética com ele, entranha a abertura da porta na qual, se a realidade nom é tam fixa nem imutável como a burguesia di, nem a divisom em classes, nem a exploraçom dumha pola outra, som tampouco fixas nem eternas, é, ao contrário, transformável. É mais singelo apreciar e tomar consciência da possibilidade de mudar algo quando todo o que se conhece está em constante transformaçom.

Mais violência(s)

O Rei de Espanha, Juan Carlos de Bourbom, é, além do chefe dos três corpos do exército espanhol, o sucessor de Franco. Quanta violência nom há nessa síntese de chefe supremo das forças armadas, (todo um exército!!!) e chefe do Estado (com toda a sua polícia!!!), nomeado polo ditador, cuja vitória supujo por volta dum milhom de assassinatos?! Há violência aí? Sim, há.

A violência é o cerne de qualquer Estado, mas estas som caraterísticas específicas e quase irónicas do espanhol, que afirmando ser um Estado de direito, conta com um chefe nom sujeito à lei; chefe que está mais por cima do bem e do mal do que a própria justiça burguesa di também estar. Outra contradiçom inverosímil!

Milhons de judeus tenhem hoje um lar na Palestina. Há violência nesse fazer-se com um país por parte dos judeus? Parece que sim. E a Palestina como sobrevive? Resiste como pode. Com violência? Também sim.

Patriarcado é violência. 11-S´s foram violência, Catalunya, Pinochet, Iraque, Afeganistám, Líbia, milhons de vezes África, Cuba, Venezuela, Colômbia… O próprio capitalismo é na sua génese violência: “O capital nasce vertendo sangue e lama, de todos os poros, da cabeça aos pés”.

Conclusons

Para poder ascender um rio, há que vencer a força que ele fai. Há que opor umha força igual para nom descer e superior para avançar. O mesmo para romper qualquer objeto. Som as leis da física.

A burguesia apresenta umha situaçom superior e de privilégios na ordem social porque o faz a partir de umha posiçom de força. A burguesia organiza a sociedade: ela é a dirigente e dedica parte da força de trabalho à produçom e parte à defesa da sua posiçom por meio da violência.

A classe submetida tem um jugo no pescoço, padece umha ordem social injusta na qual é colocada, por umha força que opom umha barreira que deverá romper. A força que deverá vencer para se libertar. Essa força está aí, embora em sociedades de parlamentarismo burguês o faga do jeito mais subtil possível e justificando-se, como dizia ao princípio.

Atendendo a que a violência como força só pode ser vencida no sentido físico por umha outra superior, é aí que se acha a resposta a pergunta: é legítima a violência por parte da classe explorada e oprimida? Nom só é legítima, é imprescindível; a legitimidade temos que dá-la nós como a burguesia se outorga a sua. Como aponta o marxismo, é cientificamente necessária.

Violência, portanto, sim! A esquerda tem que reivindicar o direito ao uso da violência, a sua total legitimidade contra a opressom, e a sua necessidade. Nom o fazer é contribuir para reforçar a nossa situaçom de submetimento. Os posicionamentos condenatórios ou contrários aos episódios de luita nos quais somos as oprimidas e os oprimidos que golpeamos, som colaboracionismo e traiçom. A esquerda nom revolucionária deve aprender que para nom cruzar a linha que a situa já no bando inimigo, o decoroso é ficar em silêncio.

Para todo e toda comunista, a paz é um objetivo que procuramos para a humanidade, mas a violência está aí, em maos dumha minoria que nom vai renunciar polas boas à sua posiçom na sociedade. Contraditoriamente mais umha vez, como recolhe a famosa cita, si vis pacem, para bellum.