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“Se fôssedes trabalhar…” (Um problema de falsos contrapostos)

Segunda-feira, 1 Outubro 2012

Ramiro Vidal Alvarinho

“Se fôssedes trabalhar…” é a frase condenatória, definitiva, dos elementos representativos da parte reacionária, conservadora da sociedade ante as teimas reivindicativas dessa outra parte que persiste nos seus anseios por transformar em parámetros mais justos o seu meio. O curioso é que muitas vezes essa teima transformadora vai mesmo em benefício da parte refratária. Porque as linhas divisórias às vezes nom som nem de traço grosso, nem diáfanas, nem definitivas.

Havia o outro dia greve geral em Euskal Herria com umha manifestaçom de impressionantes proporçons em Gasteiz, e havia simultaneamente duas manifestaçons em Madrid até o prédio das Cortes Gerais. O folhom colheu Mariano Rajói, presidente do governo espanhol, a fazer turismo diplomático; estava na Assembleia Geral da ONU, parece ser que a falar de Gibraltar e outras prioridades indiscutíveis (ai, as feridas do imperialismo espanhol…!) E tivo na conferência de imprensa posterior umha lembrança para aquelas pessoas que nom se manifestavam. Para essa imensa maioria que nom saiu à rua para manifestar-se, mas que ia todos os dias trabalhar para ajudar a sair da crise.

Esse é o mapa social que desenha na sua mente a direita… estám os que trabalham, por um lado, que som discretos, humildes, pulcros, honrados, bons cidadaos, gente de ordem, e, polo outro lado, estám os que passam a vida detrás da faixa, berrando polas ruas, que vivem do conto, que som sujos, ruidosos, anárquicos, hedonistas, libertinos, vándalos… e que o que necessitavam era mais disciplina e mais trabalho, que o tempo livre, já se sabe, maleia e dá pé a pensar demasiado.

Os que se manifestam e os que nom se manifestam nom som contrapostos confrontáveis. Primeiro, porque muita gente que simpatiza no essencial com a manifestaçom de Madrid, ou seja, identifica-se com a perceçom de podrémia na classe política e nas instituiçons do regime, nom assistiu por impossibilidade de se deslocar a Madrid ou porque a manifestaçom a apanhou em horário laboral. Porque muitos que temos umha simpatia com essa greve geral em Euskal Herria, nom somos bascos nem bascas, e a nossa tarefa está noutras latitudes, concretamente nos nossos respetivos países e cidades, nos nossos centros de trabalho, tentando criar consciência da necessidade da greve “também aqui”. E segundo, porque nom todos os assistentes a umha manifestaçom, ou nom todas as pessoas secundantes de umha greve respondem ao mesmo perfil, ainda que evidentemente haja um elemento de coesom que os fai agir unitariamente, que é nom já ter o mesmo problema, mas ter um grau mínimo de consciência partilhada desse problema.

A divisom que traça Rajói é irreal; ser de esquerda nom é pertencer a umha tribo urbana. Ter consciência de classe nom é um vício. Ir às cinco da manhá de piquete nom é como ir à discoteca e as assembleias na fábrica ou na rua nom som um “botelhom”. A imensa maioria daqueles e daquelas que protestam nas ruas nos tempos que correm, tenhem as mesmas aspiraçons que aqueles que nom o fam e achantam, pensando que se calhar isto é transitório e que se nos sacrificamos, num futuro virám tempos melhores.

Muitos e muitas dos que se manifestam nom som revolucionários, ainda que o tempo e a necessidade poda que os converta em tal cousa. De partida, desejariam um estado de placidez social em que eles pudessem desenvolver a sua vida de casa para o trabalho e do trabalho para casa e, polo meio, ócio, consumo, vida social… todo numha roda perfeita e imutável, sem sobressaltos. Igual que os que calam e nom se manifestam. A fractura está em como afrontam a situaçom.

A enorme diferença está em que enquanto uns obedecem a palavra de ordem do líder e se dedicam a agachar a cabeça e a produzir mais cobrando menos e pagando mais por absolutamente todo aquilo que é necessário para viver e aquilo que nom o é tanto, para contribuír “devidamente” para o equilíbrio das trucadas contas do capital e do estado e assim reconquistar o prometido bem-estar, outros nom acreditam no conto. A diferença é que enquanto uns “acreditam para serem recompensados”, outros percebem que som despossuídos de direitos que parecia impossível que perdêssemos nesta altura da história, e que se aproveita a crise para rapinar. Que se penaliza aos que produzimos e que se premia aos que especulam e roubam. E que como isto o decidem a porta fechada umha dúzia de senhores e senhoras, que cada sexta-feira se reúnem para decidir por onde é que metem a tesoura desta volta, e nom há marcha atrás, porque aritmeticamente é impossível que por via parlamentar se lhes freiem as decisons, há que saír à rua, que a fim de contas é onde a classe trabalhadora sempre alcançou as suas conquistas.

Os que nom estamos conformes, as que nom acreditamos nos dogmas do capitalismo, os que ficamos sem casa, as que ficamos sem trabalho, os que fomos despojados das nossas poupanças polo banco que teoricamente no-las custodiava, as que estám zangadas porque lhes reduzírom o salário, nom somos indivíduos à margem da sociedade; formamos parte dela. A estudante que nom se vai poder matricular na universidade neste ano, o filho de umha mulher dependente a quem negárom a ajuda económica, a trabalhadora que fica na rua porque lhe fecha a empresa, nom som seres estranhos que moram nalgum lugar oculto, abduzidos por umha seita. Simplesmente somos os que estamos a levar a pior parte.

Mas a principal fratura é a de classe, como sempre. Quem tiver algumha dúvida, que olhe as declaraçons de património de cada um dos membros do governo espanhol, ou os seus currículos vitae. Essa sim que é umha divisom real e clarifica os motivos polos que nem Rajói, nem nengum dos seus ministros e ministras, tenhem a menor empatia real com essa parte da populaçom do Estado espanhol que se manifesta, ou nom; que acredita nas suas promessas, ou nom; que votou nas últimas eleiçons gerais PP, ou nom… mas que tem em comum que tem que viver do seu trabalho e que tem que cruzar os dedos cada dia para nom cair na maldiçom do desemprego. Com eles, nom apenas nom há nengumha empatia, mas inclusive nom existe a piedade. Cada sexta-feira, umha nova navalhada. Pois é, a miragem eleitoral fai com que pensemos que se escolha beira política como quem escolhe equipa de futebol, e nom é assim.