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Foucelhas, memória de umha resistência

Segunda-feira, 10 Setembro 2012

Ramiro Vidal Alvarinho

No dia 8 de Agosto de 1952 (isto é, treze anos depois de oficialmente acabada a Guerra Civil Espanhola) era executado a garrote Benigno Andrade Foucelhas. Foi na antiga cadeia sediada nas proximidades da Torre de Hércules. Como era de prever, o regime fascista nom se apiadou do bravo guerreiro que tivo em xeque mate durante tanto tempo os esquadrons da morte do Somatén e à Guarda Civil, que protagonizou tantos ajustiçamentos de confidentes e membros das forças repressivas e que tivo os montes por fortaleza e ao povo como silencioso cúmplice.

Foucelhas é a figura ainda hoje mais carismática e popular da resistência anti-fascista galega, e é lógico que assim seja. O seu nome inspira rebeldia e é umha metáfora daquela Galiza que ainda sobrevive na memória genética daquelas pessoas que temos umha consciência anticapitalista e antifascista. Umha Galiza que se revoltava contra a injustiça e contra a barbárie, antitética com essa outra Galiza do eterno tópico, sempre submissa e resignada. Contra o pesado tormento desse lugar comum, um bom antídoto é a evocaçom do companheiro Benigno Andrade.

Benigno Andrade nom sei se foi um herói, mas eu diria que sim. E ainda nom sendo assim, é sem dúvida um mártir da nossa classe. Por muito que certo revisionismo histórico o risque de simples apanha-galinhas. A própria maneira em que foi perseguido e posteriormente torturado, julgado e executado, invalidam qualquer tentativa de refutar o carácter de mártir da causa operária do Foucelhas.

Porque o Foucelhas, Benigno Andrade, o labrego, o mineiro, o anarquista, o guerrilheiro… nom estivo fugido durante anos, nom foi brutalmente torturado e, ante todo, nom lhe foi realizado um conselho de guerra porque roubasse galinhas, ou coelhos, ou patacas, ou repolos, ou porque atracasse tabernas, ou porque matasse certo número de pessoas em açons de expropriaçom, ou de represália, ou simplesmente de combate polo monte acima… esse nom é o motivo central polo qual o Estado fascista culmina o ato de condenaçom e puniçom pública do Foucelhas com umha execuçom a garrote. Esses som os ribetes, a guarniçom do motivo essencial, que nom é outro que a motivaçom política do Foucelhas para adotar a vida guerrilheira como forma de resistência e insubmissom contra a ordem fascista. Na época em que Foucelhas é executado, existe o bandoleirismo em forma de delinqüência comum nos montes da Galiza, mas bem sabe o poder fascista naquela altura que nom é esse o caso do Benigno Andrade e nessa consciência é que se age na hora de aplicar a repressom. O Foucelhas morreu a garrote porque era anarquista e porque era guerrilheiro. E porque assumia a sua forma de vida a partir dessa condiçom de rebelde ao regime nascido do golpe militar de 36.

Na memória coletiva deste povo permanecerá a imagem do Foucelhas às portas da Corunha, com os mineiros de Lousame dispostos a matar os facciosos a barrenaços; a estampa do Foucelhas a intercambiar disparos com Guarda Civil e falangistas polos montes de Arçua, Irijoa, Sobrado, Cúrtis; ou a anedota simpática, popular, do Benigno Andrade disfarçado de crego para entrar de graça no Estádio de Riaçor e ver os jogos do Desportivo.

E o monte que foi morada e fortaleza para ele e armadilha mortal tantas vezes para os seus inimigos também lhe guarda memória. Os vidueiros que se calhar lhe dérom sombra, as nogueiras e castinheiros que se calhar lhe dérom no seu dia sustento, o rio que apagou a sua sede, o rechouchio das aves que povoam a fraga e que pugérom arrolo natural ao seu sono, as pedras e penedos que lhe dérom assento, hoje recordam o seu passar, a sua presença furtiva, enquanto se resistem a desaparecer sob as lapas do lume bárbaro dos filhos e netos dos que matárom o seu outrora hóspede.

Mais alô da névoa e do orvalho, ainda adivinhamos o seu passo; sem dúvida porque a senda que deixou nem a lume nem a sangue se apagam.