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Colômbia: As mentiras gastaram-se e a verdade brotou como surpresa

Terça-feira, 4 Setembro 2012

Narciso Isa Conde

As bases caluniadoras dos apelidos despectivos de “terroristas”, “bandidos”, “narcoterroristas”… empregues contra as FARC e o ELN foram evidenciadas em grande e também sensivelmente esquartejadas com o anúncio do governo colombiano de favorecer o diálogo com as FARC e o ELN em busca da paz

De repente, além disso, o contexto da propaganda que enquadrava essas organizações político-militares como “bandos em extinção” também ruiu.

A linguagem guerreirista oficial minguou consideravelmente, o que não significa que não se volte a retomar em condições piores para os promotores da guerra.

Nos fatos, no imediato, as forças insurgentes foram reconhecidas como o que são: organizações político-militares revolucionárias, marxistas-bolivarianas, comunistas, guevaristas, mariateguistas…

Foram aceitas como forças beligerantes, como contrapartes do governo de um novo diálogo pela paz, como interlocutoras válidas frente a um Estado que por mais de meio século se empenhou em impor uma guerra suja tutelada pelo poder imperial.

As mentiras gastaram-se e a verdade brotou como surpresa!

Crise do guerreirismo oficial colombiano

Evidentemente, o Plano Colômbia e seu derivado Plano Patriota, apesar da enorme logística e moderna tecnologia estadounidense e israelense que os nutriram, fracassaram. E fracassou de novo junto a esses planos o esforço destinado a derrotar militarmente a heroica insurgência colombiana.

A linha guerrerista entrou em crise maior. O poder dominante está dividido quanto à pertinência e efeitos de seu prolongamento. A realidade diz-lhes a uns (representados politicamente pelo presidente Manuel Santos) que não é possível a pretendida vitória militar; enquanto as claques mafiosas paramilitares, militaristas e empresariais vinculadas ao negócio da guerra e a narco-corrução, se empecinan em uma política guerrerista a cada vez mais questionada e acorralada pela sociedade. Agora estão bem mais isolados.

De qualquer jeito Uribe, já desmascarado e enlamado como máxima expressão política desses setores, persiste em seu empolgante afã guerrerista com verdadeiro apoio da extrema direita de EUA e do continente, com destaque da venezuelana.

Maior acumulação insurgente

As FARC não puderam ser debilitadas com as ações pontuais executadas em sua contra, já que soube encaixar os golpes recebidos e se repor a cada vez. Aprendeu dos reveses temporários e potencializou suas energias militares, sociais e políticas. Reestruturou-se, cresceu qualitativa e quantitativamente, desenhou novas táticas, melhorou sua estratégia, alargou sua inserção no tecido social rural, urbano e suburbano, e em toda a diversidade étnica-cultural e social.

Avançou notavelmente no seio da juventude, do povo empobrecido, das mulheres e das populações originárias.

Soube, ainda, enriquecer e renovar seu pensamento revolucionário, potencializando-se como exército popular bem dotado, milícias irregulares, partido comunista clandestino, movimento patriótico bolivariano e parte de um sistema de alianças de grande amplidão e firmeza.

O ELN, por sua vez, ultrapassou dificuldades, corrigiu erros quanto à saída política ao conflito armado no contexto da hegemonía uribista, afirmou sua política revolucionária, articulou melhor seus planos de expansão e suas políticas de unidade, e derrotou investidas e manobras inimigas, conservando suas áreas de implantação política e social.

Ao mesmo tempo avançou a cooperação e a unidade entre ambas forças insurgentes.

As lutas políticas sociais cresceu impetuosamente a escala nacional e os movimentos sociais ativos multiplicaram-se e fortalecidos no meio da da multi-crise crônica do capitalismo e dos efeitos devastadores do neoliberalismo e do terrorismo de Estado.

Para além da insurgencia armada -e sem chocar nem competir com ela, antes se complementando ambas- se conformou uma grande torrente de forças político-sociais civis, com definida atitude contestataria, que exige mudanças estruturais, nova institucionalidade, transformações sociais e políticas de de fundo no sentido de alternativa real ao neo-liberalismo e à pseudo-narco-democracia vigente.

A expressão mas estruturada, potente e esperançosa dessa torrente é o Movimento Marcha Patriótica, que a raiz de seu lançamento e dos meses posteriores exibiu um formidável poder de convocação e capacidade atraente.

Assim, o vazio político -resultado da declinação do bipartidismo tradicional (conservadores e liberais neo-liberados), da crise e divisão da “nova direita” e da crescente dispersão e redução do Pólo Democrático (centro-esquerda, ou antes centro), tende a ser enchido por esta nova força expansiva e inovadora, que conta com lideranças tão impactantes como o da ex-senadora (grosseiramente criminalizada) Piedad Córdoba, expressão de dignidade, combatividade e talento político.

Ela (Piedad) também foi inspiradora do espaço conhecido com o nome de Colombianos/as pela Paz, que reúne centenas de prestigiosos intelectuais dedicados/as a semear a ideia da paz através de uma saída política ao conflito armado capaz de superar as causas estruturais e históricas da guerra e a violência.

Tanto triunfou esse reclamo de paz -resistido por anos por um Estado guerreirista e pelos negociantes da guerra- que o atual governo de Santos não pôde o ignorar nem evadir em um momento no que o respaldo à busca da paz a nível de inquéritos representa quase 70% de população consultada.

A isto somam-se as enormes dificuldades que encerra o prolongamento do conflito armado, agora em condições mas adversas para o Estado e para a grande burguesia, incluídas os enormes obstáculos que sua continuidade em ascensão lhe geraria ao modelo exportador e mega-mineiro que a classe dominante governante tende a potenciar no contexto da globalização neoliberal; bem como aos vitais relacionamentos comerciais com a Venezuela, principal mercado da indústria manufatureira colombiana e principal forte de combustível.

É essa complexa realidade e essa combinação de fatores o que influi determinantemente no novo giro governamental para os novos diálogos de paz, auspiciado baixo pressão nacional pelo presidente Santos e os setores da grande burguesía local e da burguesia transnacional que representa, em uma tentativa de reduzir pressões e conter a deterioração.

Interesses e objetivos contrapostos no referido diálogo

É claro que as FARC e o ELN, com sua atitude proclive a uma saída política ao conflito armado, não simplesmente tentam uma precária inserção política legal dentro do sistema imperante e uma que outras reformas; ao invés,a partir de seu acumulado histórico e desde o poder adicional das novas forças emergentes mobilizadas, apostam em uma mudança política e social realmente alternativo ao sistema imperante; isto é, tentam a abertura de um período de transição a partir de transformações de qualidade e profundidade em todos os ordene e de reconquista de soberania nacional-popular e democracia claramente propostas.

O governo, pelo contrário, tentará reciclar o sistema, apaziguar lutas com concessões limitadas e desmobilizar a insurgência em troca de pouco. Enquanto o império tentará manter a sua hegemonia e presença militar, inaceitáveis para o povo. A contradição essencial continua nesse e todos os cenários.

Acontece, no entanto, que a contraparte revolucionária, além de ter mostrado muita firmezas e clareza de objetivos, aprendeu muito das experiências negativas de “paz negociada” em seu próprio país e na América Centra e conta ainda com um quadro continental e mundial muito mas favorável e um país a cada vez mais convulsionado pelo acenso da onda social e política que clama mudanças e independência para valer.

A multi-crise do sistema capitalista longe de abrandar aprofunda-se e estende-se.

A onda transformadoras diversifica-se, tendo hoje na Colômbia uma de suas expressões mas altas, acompanhada do agir de forças de vanguardas anti-imperialistas e anticapitalistas profundamente enraizadas em todos os combates e olha para o socialismo bolivariano e o comunismo do XXI.

Um novo período -não por promisório menos difícil- está marcha na Colômbia, cheio de obstáculos, complexidades e surpresas.

Um período em que a luta pela paz assume uma nova dimensão mobilizadora, mas cuja garantia de avanços e benefícios se coloca longe da ilusão ou o cretinismo pacifista e bem perto da combinação efetiva de diversas modalidades de luta, a defesa do acumulado no terreno militar e do maior despregamento integral das forças alternativas: umas com o poder dissuassivo e/ou confrontativo das armas vinculada ao povo rebelde e outras só com o enorme poderío da indignação mobilização social, cultural e político em direção à criação de poder popular e hegemonia política. Ambas somadas dão vitória popular-nacional com vocação continental.