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Quem rouba a quem?

Sexta-feira, 10 Agosto 2012

Carlos Garcia Seoane, trabalhador desempregado e membro da Assembleia de Desempregad@s da CIG em Ferrol

Na passada terça-feira 7 de agosto, saltava à cena mediática do Estado espanhol a boa açom protagonizada por membros do Sindicato Andaluz de Trabajadores (SAT), entre @s quais se encontravam fundamentalmente trabalhadores/as em situaçom de desemprego, que procedêrom a retirar, sem mediar dinheiro, umha série de produtos alimentares considerados de primeira necessidade de dous centros de grandes empresas da distribuiçom de alimentaçom situados em Cádis e Sevilha.

A açom foi desenvolvida com grande audácia e conseguírom entregar parte dos produtos retirados no banco de alimentos de refeitórios sociais, localizados em bairros com altos índices de exclusom social.

Sem lugar a dúvidas, o objetivo declarado da açom, ganhar umha boa repercussom mediática, foi conseguido à perfeiçom, conseguindo chamar a atençom sobre a dramática situaçom socioeconómica que carateriza atualmente essa naçom, historicamente vexada e ridicularizada em todos os aspetos do seu ser polo imperialismo espanhol. Alarmante situaçom por apresentar umha taxa de desemprego por volta dos 34%, 40% populaçom abaixo do limiar da pobreza, nos últimos quatro anos 200.000 famílias na rua por despejos ou quando som só 2% de proprietários que possuem 50% das terras, havendo 500.000 jornaleir@s que nom disponhem delas.

Porém, os meios do sistema encarregárom-se desde o primeiro minuto de manipular o sentido da açom procurado polo SAT e rapidamente criminalizárom os/as participantes como “bando de salteadores”, “ladrons”, “os novos bandoleiros do século XXI”, inclusive, e com maiores doses de ficçom, até de “Robin Hood”. Toda umha série de denominaçons que só buscam criar estados de opiniom que contrarrestem os argumentos eticamente revolucionários e rupturistas oferecidos e praticados polo SAT com esta açom, por simbólica que fosse.

A espectaçom criada a nível mediático foi tal que obrigou o Ministro do Interior a intervir publicamente ao estilo de novo inquisidor, ordenando a detençom de participantes na açom e apelando à Procuradoria do Estado a investigar se os factos som constitutivos de delito. A atitude de extrema irritabilidade que despreendem as declaraçons do outrora franquista Fernández Díaz dam a ver o medo e o nervosismo do governo do PP, altamente desgastado pola delicada conjuntura económica e social pola qual está a atravessar o Reino de Espanha nos últimos meses, na qual qualquer tipo de mostra de rebeldia e de rejeitamento ao sistema deve ser perseguida e punida sem contemplaçons. De facto, a captura das duas pessoas detidas até o momento é desproporcionada, assim como os delitos que se lhes imputam: “roubo com violência” e o tam recorrido nestes casos de “desordens públicas”, cuja tipificaçom no Código Penal foi reformulada a raíz da greve geral de março passado.

O tom desafiante empregado polos gestores dos bons negócios da burguesia nom conseguirá amedrontar os setores do povo trabalhador mais conscientes das diversas naçons ocupadas polo imperialismo espanhol, e a promoçom de iniciativas como a do SAT devem começar a estender-se por toda a parte, para começar a despertar a necessária rebeldia entre a maioria social explorada que deve oferecer desde o imediato maiores mostras de oposiçom às brutais agressons que nos estám a impingir.

O sucesso atingido pola açom companheir@s andaluzes é duplo. Além da projeçom mediática conseguida, desenvolveu-se em toda a sua plenitude umha grande batalha ideológica entre oprimid@s e  opressores, isto é, a confrontaçom entre a denúncia teórica-prática da incapacidade do sistema capitalista de satisfazer as necessidades mais básicas do povo contra a falsificaçom e a inversom dumha realidade onde a satisfaçom da necessidade cega do lucro empresarial e privado é o único objetivo.

Por isso é que me sinto plenamente identificado com umha açom que, com as suas particularidades, já desenvolvemos de maneira análoga a Assembleia de Desempregad@s da CIG em Ferrol no passado dia 6 de junho num supermercado dumha multinacional da distribuiçom de alimentos situado numha zona central da cidade. Apesar do caráter local da nossa iniciativa e a quantidade muito menor de participantes na açom conseguiu-se também abrir o cerco mediático e pôr em questom o destino de miséria generalizada a que nos conduz este sistema injusto por definiçom e, diferentemente da açom do SAT, como coletivo de desempregad@s auto-organizados no seio do sindicato queriamos deixar patente a situaçom de desocupaçom a que necessariamente nos condena o capitalismo em funçom das periódicas batidas das suas inerentes crises, efetuando o intercámbio dos produtos de primeira necessidade retirados com o cartom oficial que nos acredita como desempregad@s.

Porém, se há um momento crítico no capitalismo, este é o de “passar por caixa”, que umha mercadoria se converta em dinheiro e, portanto, lucro para o capitalista. Mas há que dizer que, com a experiência da Assembleia de Desempregad@s, como aconteceu na Andaluzia, demonstrou-se o grande poder de dominaçom do dinheiro sobre a subjetividade humana, que nom pode conceber que produtos de primeira necessidade para a sobrevivência das pessoas saiam do estabelecimento comercial sem antes se converterem em lucro para a empresa. Entenderá-se entom que este momento se converteu em especialmente crítico e os fiéis defensores do lucro privado realizárom ato de presença para impedir tal ignomínia.

No nosso caso, o resultado da açom traduziu-se na retençom policial e a subtraçom dos poucos produtos retirados às pessoas que participamos na açom e, posteriormente a imputaçom a seis delas dumha “falta por furto” pola qual deveremos dar contas no vindouro dia 14 de setembro nos tribunais de Ferrol, no qual teremos novamente oportunidade de expressar mais que suficientes razons que demonstram a injustiça reinante neste sistema.

Porém, a argumentaçom da nossa açom ante a justiça nom irá na direçom de implorarmos perdom a quem aproveita umha situaçom de drama social como a que estám a atravessar um cada vez maior número de desempregad@s de longa duraçom no nosso país que nom disponhem de recurso algum para sobreviver enquanto há empresas, que apesar da crise do sistema experimentam ano após ano píngües benefícios.

Aproveitaremos a nossa intervençom no banco dos argüidos para acusar os verdadeiros salteadores e ladrons ao serviço do capital que por meio da extorsom permanente estám a roubar-nos sem preconceito algum para assegurarem o bom estado das contas dos seus amos. Aproveitaremos para acusar todos aqueles que nos mantenhem encurralad@s na lógica da austeridade económica cujo cinto nom deixa de apertar até afogar aquelas pessoas que só podem viver de exíguos subsídios, agora considerados um excesso que há que eliminar para cumprir os objetivos de défice, enquanto milhons de euros som dirigidos a subsidiar a banca polo Estado.

E os acontecimentos que se fôrom sucedendo nos últimos meses darám-nos a razom da nossa absoluçom dum facto imputado que poderíamos atribuir com maior rigorosidade, entre outros muitos, a toda a Família Real espanhola, amplamente desacreditada nos últimos tempos polos excessos de lazer do monarca ou bem do seu genro farturento de dineiro público; às centenas de políticos de diversa cor envolvidos nalgum dos variados casos corrupçom aos quais nos tem acostumados este sistema moralmente degenerado; aos banqueiros premiados com indenizaçons milionárias por levarem à falência entidades financeiras e com elas as pequenas poupanças do povo trabalhador depositadas nelas; aos proprietários das grandes fortunas como Amáncio Ortega que, de maneira obscena, nom para de ascender na listagem de pessoas mais ricas do mundo, atingindo este ano o terceiro lugar.

E se finalmente a justiça aceitar a categorizaçom que nos oferecêrom os mass media e teima em nos sentenciar como @s “Robin Hood” atuais, declararemo-nos orgulhos@s de defender a causa d@s explorad@s e oprimid@s, como também defendia a personagem criada pola mitologia medieval inglesa.

Galiza, 9 de agosto de 2012