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Da escalada imperialista à necessidade da Revoluçom

Segunda-feira, 30 Julho 2012

A seguir reproduzimos a comunicaçom apresentada nas XVI Jornadas Independentistas Galegas, que decorrerom em Compostelao dia 21 de abril de 2012, polo vetenaro militante comunista Miguel Urbano Rodrigues.

Miguel Urbano Rodrigues

A difusom polo mundo de umha realidade virtual é hoje umha arma decisiva no agravamento da medonha crise global que atinge a humanidade.

O controlo hegemónico do sistema mediático permite ao imperialismo, através da palavra, enganar os povos numha inversom do significado dos acontecimentos históricos que responde aos seus objetivos. umha máquina de desinformaçom planetária transforma a mentira em verdade, inventa crises inexistentes, diaboliza líderes políticos, empurra países para a bancarrota, mascara o crime de virtude.

Na estratégia de dominaçom planetária hegemonizada polos EUA, as guerras imperiais som agora precedidas de gigantescas campanhas que visam a anestesiar a consciência dos povos, impedindo a solidariedade com as vitimas das agressons.

Essas campanhas, cientificamente montadas, seriam ineficazes sem a cumplicidade do Conselho de Segurança das Naçons Unidas, transformado em instrumento do imperialismo coletivo.

Neste inicio do terceiro milénio da Nossa Era, guerras interimperiais como as de 14-18 e 39-45 passsárom a ser improbabilíssimas. As contradiçons entre as grandes potências ocidentais nom desaparecêrom, mas nom som hoje antagónicas, porque a crise estrutural do capitalismo as uniu numha santa aliança contemporánea no saque aos recursos naturais de países do antigo Terceiro Mudo.

Sem a passividade da Rússia e da China, também membros permanentes do CS da ONU com direito de veto, os EUA nom teriam tido as maos livres para empreender guerras criminosas como as do Iraque e do Afeganistám.

Na monstruosa guerra cujo desfecho foi a recolonizaçom da Líbia temos um exemplo expressivo do funcionamento da estratégia imperial com participaçom ativa da França e da Gram-bretanha. A campanha mediática precedeu as manobras no Conselho de Segurança e o início da agressom, preparada aliás com meses de antecedência. Projetos elaborados em Washington, apoiados polo Reino Unido e a França e, na maioria dos casos, pola Alemanha, o Japom e aliados menores como a Itália, a Espanha, o Canadá e a Austrália, som apresentadas como decisons da «comunidade internacional», entidade inexistente, invocada para dar respeitabilidade a iniciativas do imperialismo.

Cabe perguntar quem será a próxima vítima do imperialismo coletivo?

A ofensiva para derrubar o governo de Bachar Al Assad prossegue. A Síria somente nom foi ainda bombardeada e invadida porque a Rússia e a China vetárom desta vez no Conselho de Segurança da ONU a Resoluçom que, se aprovada, seria o prólogo de umha nova agressom. Mas o imperialismo nom esconde que o objetivo principal da sua estratégia na Regiom é o Irám, acusado de «ameaça à Paz» e «inimigo da democracia».

No seu discurso sobre o Estado da Uniom, Obama voltou a afirmar que «todas as opçons estám sobre a mesa» se aquele país nom se submeter às suas exigências O Pentágono elaborou nos últimos anos sucessivos planos bélicos de ataque, alguns divulgados pola midia. A intervençom de tropas terrestres é hipótese excluída, mas o bombardeio das instalaçons nucleares iranianas suscita também muitas dúvidas. Os generais do Pentágono admitem que bombas convencionais seriam ineficazes contra os bunkers subterráneos de Natanz. A retaliaçom poderia provocar o encerramento do Estreito de Ormuz e os mísseis iranianos poderiam atingir Israel.

O recurso a armas nucleares táticas- já sugerido por Sarkozy e membros republicanos do Congresso – provocaria umha onda de indignaçom mundial, ampliando o isolamento dos EUA.

A Somália, o Iémen e as tribos pashtun da fronteira noroeste do Paquistám som com freqüência bombardeadas por drones, os avions sem piloto assassinos, comandados de distantes bases estado-unidenses.

A recente intervençom norte-americana no Uganda, realizada a pretexto de combater umha minúscula seita religiosa, ficou a assinalar umha nova fase da estratégia dos EUA para o Continente. O presidente Obama apressou-se a declarar que enviará tropas para o Sudám do Sul, Congo e a Republica Centro-Africana se esses países pedirem ajuda aos EUA para «o combate ao terrorismo».

Instalar em África um exército permanente americano de 100.000 homens é a meta do AFRICA COMAND, que está a operar a partir da sofisticada base aérea instalada em Djibuti, na antiga Somália Francesa.

Afastar a China da África foi um dos objetivos da agressom à Líbia. Mais de 30.000 chineses, técnicos e trabalhadores, fôrom retirados daquele país onde a China tinha importantes investimentos.

O comportamento dos EUA traz à memória o da Alemanha de Hitler nos anos 30 do século passado. Primeiro foi a anexaçom da Áustria, depois Munich e a posterior destruiçom da Tchecoslováquia, finalmente a exigência da entrega de Dantzig, a invasom da Polónia, a guerra mundial.

Nom pretendo estabelecer analogias, mas o desprezo polos povos e polo seu direito à independência é o mesmo. Primeiro foi o Afeganistám, depois o Iraque, em seguida a Líbia, agora o Uganda, amanha será a Síria, talvez o Irám.

A aproximaçom da Rússia e da China traduz a consciência de que, se isoladas, seriam também, oportunamente, declaradas potenciais «ameaças à segurança dos EUA». Putin, no seu primeiro discurso após a reeleiçom, afirmou que enfrentará com firmeza a politica imperial dos EUA.

A escalada de leis reaccionárias nos EUA assinala o fim do regime democrático na grande república do Norte. A chamada Lei da Autorizaçom da Segurança Nacional, promulgada por Obama, revoga na prática a Constituiçom bicentenária do país. A partir de agora qualquer cidadao suspeito de contactos com o terrorismo pode ser preso por tempo ilimitado e eventualmente submetido à tortura no ámbito de outra lei aprovada polo Congresso.

Os projetos SOPA e PIPA, em discussom na Cámara dos Representantes, concebidos para controlar o Facebook, mas levantárom tamanha indignaçom a nível mundial que o Legislativo recuou.

A fascizaçom das Forças Armadas dos EUA nas guerras imperiais é agora inocultável.

Comentando a justificaçom por Obama das últimas leis, Michel Chossudovsky define os EUA como «Um Estado totalitário com traje civil».

Os EUA estám a assumir o perfil de um IV Reich. No Afeganistám, elementos do corpo de Marines exibírom publicamente a bandeira das SS nazis e nom fôrom punidos.

Na Cimeira das Américas, em Cartagena de Índias, Obama assinou com Juan Manuel Santos um Tratado de Livre Comercio que reduz a Colômbia a umha situaçom de semi-colónia. Esse país, onde o Pentágono instalou sete bases militares, é para Washington o modelo de «democracia» no Hemisfério e o melhor aliado dos EUA na América Latina.

Perante a estratégia imperial que ameaça a humanidade, patrocinada por um dos mais perigosos presidentes que o povo dos EUA elegeu, a pergunta de Lenin, QUE FAZER? adquire umha actualidade dramática.

A recusa da «nova ordem mundial» que o imperialismo pretende impor assumiu nos últimos anos proporçons planetárias.

Seattle foi um marco histórico na rejeiçom do sistema de dominaçom que utiliza o FMI, o Banco Mundial, a OMC como instrumentos da política do grande capital.

De repente, milhons de homens e mulheres começárom a sair às ruas em gigantescos protestos contra a religiom do dinheiro e as guerras de saque imperiais.

O lema do primeiro Foro Social Mundial, «outro mundo é possível», traduziu esse descontentamento e a esperança de umha mudança radical.

Mas, transcorrida mais de umha década, o próprio Foro transformou-se numa caixa de ressonáncia de discursos inofensivos.

No ano passado, o movimento dos Indignados na Espanha e o Occupy Wall Street nos EUA mobilizárom multidons expressando o desespero das massas oprimidas.

Mas, esses protestos, positivos, e outros, promovidos por movimentos sociais, nom abalam os alicerces do poder do capital. Os jovens sobretodo sabem o que rejeitam, mas esbarram com um muro intransponível na formulaçom de umha alternativa. Que querem afinal?

O espontaneísmo é como a maré oceánica, assim como sobe, desce.

Mergulhado numa crise estrutural para a qual nom tem soluçons, o capitalismo está condenado a desaparecer. Mas o seu fim nom tem data no calendário e a agonia pode ser muito prolongada. Desencadeia guerras de saque monstruosas e continua a manipular a consciência dos povos, através da midia e de governos de fachada democrática que som na prática ditaduras de classe.

Que fazer entom?

Nom serei eu, nem outros comunistas como eu, a tirar do bolso a receita mágica.

É minha conviçom inabalável que Lenine enunciou umha evidência ao lembrar que nom há revoluçom durável sem um partido revolucionário que a promova e lidere as massas.

Para mal da humanidade, a destruiçom da URSS e a implantaçom na Rússia do capitalismo permitiu ao imperialismo desencadear umha tempestade contra-revolucionária que atingiu os partidos comunistas, semeando tremenda confusom ideológica. Alguns partidos com grandes tradiçons, como o italiano, desaparecêrom após varias metamorfoses. Outros, como o francês e o espanhol, social-democratizárom-se, assumindo linhas reformistas.

A criaçom do Partido da Esquerda Europeia contribuiu para aumentar a confusom. Nom obstante a maioria dos partidos que a ele aderírom serem nominalmente comunistas, defendem estratégias reformistas. Batem-se dentro do sistema parlamentar, concentrando-se em reivindicaçons sobre problemas imediatos, sem dúvida importantes, mas secundarizam a luita polo socialismo como objetivo principal.

Neutralizar a combatividade das massas, orientando as luitas no quadro institucional para o «aperfeiçoamento» do sistema é o objetivo do Partido da Esquerda Europeia.

O Partido Comunista da Grecia-KKE surge hoje no panorama europeu como a grande exceçom à tendência maioritária que privilegia a linha reformista sobre a opçom revolucionária.

A sua contribuiçom -mais de umha dezena de greves gerais no ano passado- para a heroica luita dos trabalhadores gregos contra as politicas impostas polos governantes dos grandes países da zona Euro – a Alemanha e a França tem sido decisiva.

Julgo útil, camaradas, afirmar neste Seminário que acompanhar os acontecimentos da Grécia, reflectir sobre eles e apoiar o combate dos comunistas gregos passou a ser um dever revolucionário para os comunistas da Península Ibérica.

O KKE defende a criaçom e o fortalecimento de umha Frente Democrática anti-imperialista e antimonopolista, umha aliança entre trabalhadores e pequenos e médios agricultores, de todas as forças realmente progressistas.

Permitam-me, camaradas, que cite um parágrafo do artigo da camarada Aleka Papariga, secretária geral do KKE, publicado na Revista Comunista Internacional (Número 2):

Desenvolvimento desigual quer dizer desenvolvimento político e social desigual, o que significa que as condiçons prévias para o início da situaçom revolucionária podem surgir mais cedo num país ou num grupo de países que, sob condiçons específicas, pode constituir «o elo mais fraco» do sistema imperialista. Isto é particularmente importante hoje em dia em que o desenvolvimento e as remodelaçons têm lugar no sistema imperialista e se intensificam as contradiçons tanto nos países como no sistema imperialista, portanto, entendemos que cada partido comunista e os trabalhadores de cada país tenhem o dever internacionalista de contribuir para a luita de classes ao nível internacional, mobilizando e organizando a luita contra as conseqüências das crises nacionais, com vista ao derrubamento do poder burguês, à conquista do poder polos trabalhadores e à construçom do socialismo.

Insistindo na denúncia do oportunismo, a camarada Papariga lembra também que as reformas, por importantes que sejam, nom podem conduzir ao socialismo sem umha confrontaçom final com a burguesia cujo desfecho seria a destruiçom das instituiçons do Estado capitalista.

A questom é fundamental. A chamada via pacífica para o socialismo foi ensaiada no Chile com o desfecho que conhecemos. Hoje, a tese é retomada na Europa por alguns partidos comunistas e na América Latina é defendida polos teóricos do Socialismo do século XXI, nomeadamente na Venezuela bolivariana e na Bolívia.

Em textos que publiquei após participaçom no VI Foro de Maracaibo, em novembro do ano passado, critiquei essas posiçons, reafirmando a conviçom de que a destruiçom do Estado capitalista, em choque com o poder burguês, terá de preceder a construçom do poder popular. Trata-se, insisto numa questom estratégica fundamental para o movimento comunista internacional.

Na Europa o oportunismo semeia a confusom através do Partido da Esquerda Europeia. Na América Latina, tenta promover a social-democracia no Brasil, na Argentina e no Uruguai e semeia ilusons na Venezuela, na Bolívia, no Equador e na Nicarágua.

No cerne do grande debate ideológico travado no ámbito do movimento comunista internacional, umha questom continua a suscitar debate permanente: a transiçom do capitalismo para o socialismo. Já Lenine dizia que ela seria infinitamente mais difícil do que a tomada do poder em Outubro de 17. Até hoje nom encontramos respostas satisfatórias.

Camaradas:

No Estado Espanhol e em Portugal a crise agrava-se dia a dia. Os governos de Rajoi e de Passos Coelho, profundamente reacionários, empenham-se, com o apoio da Comissom Europeia e do FMI, em destruir conquistas sociais realizadas polos trabalhadores nas últimas décadas.

Os parlamentos, em ambos os países, som instrumentos dessa estratégia.

Os partidos da burguesia insistem em impor medidas e reformas que somente agravarám a crise.

Que fazer entom? -repito

O KKE aponta caminho, mobilizando as massas numa luita permanente em múltiplas frentes. A sua direçom está consciente que nom estám criadas ainda as condiçons que desemboquem numa situaçom insurrecional pré-revolucionaria.

Mas a luita nas fábricas, nos portos, nas escolas, nas repartiçons publicas, nos campos é permanente, diária, orientada nom para a ruptura de umha política mas para a ruptura da engrenagem capitalista.

Paralelamente, a repressom que atinge a mobilizaçom popular nom impede o trabalho difícil para que as forças armadas tomem consciência de que funcionam como instrumento da classe dominante, do grande capital, do imperialismo.

Camaradas

Termino saudando fraternalmente os camaradas galegos que promovêrom este Encontro.

Portugal é filho da Galiza. A nossa língua nasceu aqui.

Conquistada a independência, conseguimos defendê-la e resistir a todas as tentativas do imperialismo castelhano para nos privar dela.

Vocês, irmaos da Galiza, som há séculos umha naçom oprimida. Até o uso do idioma galego foi proibido. Mas sob umha repressom permanente e cruel o vosso povo resistiu e soubo preservar a cultura, a língua, a identidade galega.

Como dizia André Gide, é do particular que se parte para o universal, para a atitude internacionalista e revolucionária. Os comunistas galegos som exemplo disso.

Parabéns, camaradas!

Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e militante do Partido Comunista Português (PCP)