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Afirmaçom ou caricatura da identidade galega

Terça-feira, 29 Maio 2012

Ramiro Vidal Alvarinho

A vereadora de Normalizaçom Lingüística da Cámara Municipal de Compostela, compareceu aos atos oficiais do Dia das Letras programados polo governo local ataviada com um fato tradicional galego, ou algumha cousa parecida (o tema dos fatos tradicionais também vos tem o seu miolo) é dizer, apresentou-se “vestida de gallega” ou dito de umha maneira menos benévola, assistiu disfarçada. Disfarçada, nom porque um fato tradicional em si disfarce, mas polo significado que o próprio sujeito portador do fato lhe concede ao gesto.

A utilizaçom que se fai em cada sociedade do fato tradicional pode ser um indicador do conceito que temos da nossa cultura e dos nossos símbolos. Quando um vê a carga simbólica que se lhe concede à barretina ou à txapela, a utilizaçom destas peças do atuendo popular catalám e basco em determinados contextos, nom pode deixar de intuir que aquí temos um sério déficit quanto à posta em valor do próprio e fica com a sensaçom de que algumha cousa compreendemos mal, que confundimos alhos com bugalhos.

Um analiza o comportamento coletivo em determinadas romarias madrilenas, ou nas festas populares catalás ou em fenómenos de massas como a Feria de Abril de Sevilha ou o San Fermín em Iruña…e tem que sentir enveja à força, porque vê exemplos de como as pessoas vestem o fato tradicional porque o contexto lho pede, e o ambiente que se cria fai que lhes apeteça vestir o fato tradicional. Na Galiza, vestir o fato tradicional é um gesto forçado, que ninguém fai de maneira espontánea e, por cima, num número notável de ocasions fazemo-lo para demonstrar que nem sequer sabemos utilizar a herança que as anteriores geraçons nos deixárom com um mínimo de inteligência.

O Dia das Letras nom é um dia para a exaltaçom do folclore. Ou polo menos, nom foi essa a intençom que levavam os inteletuais que no seu dia reivindicárom o 17 de Maio como Dia das Letras Galegas. O 17 de Maio é para homenagear autores em língua galega, ou assim foi concevido originariamente, ainda que o movimento popular também o tenha como data referencial para a reivindicaçom lingüística em geral. A literatura escrita em galego, naturalmente que tem nas tradiçons populares umha enorme fonte de inspiraçom, e nom há mais que revisar superficialmente a obra de Rosalia de Castro e comprovar o sabor popular que tenhem desde a musicalidade dos seus poemas até as estampas que nos fai visualizar, tocar e inclussive respirar, tanto em “Cantares Gallegos” como em “Follas Novas”. Nom há mais que introduzir-se nos versos de “A virgen do Cristal” de Curros Enríquez. Nom há mais que notar numha simples vista de olhos o enorme conhecimento das falas populares que tinha Marcial Valladares em “Magina ou a filla espúrea”.Isto por citar alguns exemplos. Mas a literatura galega também é, ante tudo, umha expressom culta, umha manifestaçom de cultura moderna que devemos conhecer e reivindicar, porque a nossa literatura (entre outras cousas) é a que nos coloca em pé de igualdade com outros povos que também configuram naçom e que, sabedores disso, sabem manter no seu lugar a sua literatura. Porque somos galegos e galegas por obra e graça do idioma, e o nosso idioma é o que é graças também à sua literatura.

E a literatura galega é Amado Carballo, mas também é Lois Pereiro. A literatura galega é “O catecismo do labrego” mas também é “Nós, os inadaptados”. A literatura galega é “Queixumes dos pinos” mas também é o “Silabario da turbina”. Isso, sintetiza-se para alguns num remedo de fato tradicional, se calhar adquirido numha grande área comercial e, perdendo-se mais no tópico-distorsom, na Pulpeira de Melide a fumegar num campo da festa qualquer com ruído de gaitas ao fundo. O despropósito de certos políticos desde logo que nom ajuda a que esta sociedade se reconheça  nas suas expressons de cultura moderna.

Para defender áqueles que de maneira escrita cultivárom a palavra em galego, nom fai falta evidentemente disfarçar-se de enxebre. Nom fai falta e, a olhos de umha pessoa com sentido comum, fica fazer tal cousa como umha sobreatuaçom fantochesca e extemporánea. O que há é que conhecer ao nossos autores lendo-os e facilitando que o povo os leia. Para festejar a língua, um pode vestir-se de enxebre ou nom, a questom é ter um discurso acreditável e umha prática conseqüente. Entom, com fato tradicional ou sem ele, afinal é o que lhe falha a esta vereadora. Alguém que começa com o mau pé, num posto como o seu, de fazer a sua primeira comparecência em espanhol, mal remenda a sua estridência vestindo-se com um fato tradicional e dizendo cousas como que o 17 de Maio” é um dia de festa para a nossa língua” e que esta é “o maior património com o que contamos e o símbolo de identidade que nos vincula como galegos”. Em lugar de espaventos deste tipo, o que haveria, se houver verdadeira intençom de trabalhar porque a nossa língua ganhe espaços e falantes, é precisamente operar em conseqüência com essas palavras. E lêr de verdade aos nossos autores, que nom som santos aos que beijar, mas inteletuais com umha obra que é testemunha escrita da nossa cultura e tradiçons (precisamente) e também da nossa história social, dos nossos movimentos culturais, e sobre tudo memória da naçom que somos.