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A emancipaçom da mulher é umha luita das mulheres

Terça-feira, 22 Maio 2012

Luzia Leirós Comesanha

O debate sobre se os homens deveriam assistir aos atos públicos feministas ou ser membros das organizaçons feministas está de atualidade no nosso país, mas nom é um debate genuinamente novo. Seria contraproducente para a luita das mulheres fazer ouvidos surdos ao fenómeno, porque se trata de um problema de fundo.

Para introduzir o debate comecemos por perguntar a nós próprias porque as mulheres do Povo Trabalhador Galego precisamos umha luita própria. Iniciemos o debate sob a premisa de que o interesse que manifestam alguns homens polo feminismo, em nengum caso deve supor um retrocesso para o Movimento Feminista Galego (MFG). Nom deve supor a perda de autonomia das mulheres e das organizaçons feministas.

O importante grau de visibilizaçom da luita feminista conseguida polo Movimento nas últimas décadas, o processo de institucionalizaçom do movimento feminista sufrido na Galiza e no Estado espanhol a partir da década de oitenta e noventa, como parte de umha estratégia imperialista desenhada para desativar o verdadeiro feminismo combativo, e converter as organizaçons feministas em ONG`s, ou o desconcerto teórico atual que vivemos na Galiza propiciado polas teorias pós-modernistas, podem ser pontos de análise do fenómeno.

Mas neste artigo, o importante do debate será responder a pergunta colocada no início. O de como satisfazer esse interesse dos homens polo feminismo poderá converter-se, se o MFG chega a tal acordo, num ponto do dia da agenda feminista.

A auto-organizaçom das mulheres é imprescindível

A experiência histórica da luita das mulheres pola sua emancipaçom demonstra que o desenvolvimento da auto-organizaçom das mulheres contra o patriarcado foi imprescindível para conquistar os direitos civis e políticos que nos eram negados. A auto-organizaçom foi umha imprescindível ferramenta para o avanço do movimento feminista. Analisando o período histórico da sociedade capitalista que vai desde finais do século XVIII até a atualidade, deparamo-nos com que as mulheres, além de ter um papel destacado na luita contra o sistema capitalista, também necessitárom criar organizaçons, sociedades clandestinas, jornais, grupos de estudo, clubes revolucionários de mulheres e outros espaços próprios dirigidos por elas mesmas, para luitarem contra a opressom derivada da simbiose entre capitalismo e patriarcado.

Assim, se olharmos brevemente a história da luita de classes dos últimos douscentos anos, observamos que a finais do século XVIII, na Europa, as mulheres obreiras e das classes populares organizavam-se como consequência da tomada de consciência da sua situaçom como exploradas e oprimidas, trás a agudizaçom das contradiçons inerentes ao novo sistema de dominaçom burguês e a apariçom da “mulher trabalhadora”. Mas, principalmente, as grandes massas de mulheres organizavam-se como ato de resistência às legislaçons dos novos estados capitalistas, que negavam os direitos civis e políticos alcançados polos homens e proibiam a sua participaçom na política, a sua filiaçom sindical ou a sua assistência a atos públicos. Mas também era umha resposta contra a negativa das organizaçons sindicais da altura dirigida por homens de filiar mulheres sob o argumento de “proteger os salários e os empregos”.

Estas experiências de açom coletiva supugérom um salto qualitativo na luita contra a opressom, a exploraçom e a dominaçom das mulheres. Estas experiências possibilitárom que o Feminismo, como movimento politico e ideológico, aparecera com força na cena da luita de classes. Os direitos feministas conquistados na Comuna de Paris de 1871, só se podem entender se lhe damos a suficiente importância a estas experiências de auto-organizaçom e resistência das mulheres trabalhadoras e dos setores populares. Exemplos a estudar em profundidade som a Uniom das Mulheres para a Defesa do Paris, as ajudas da seçom femenina da Primeira Internacional, o Comité de Mulheres para a Vigilância ou o batalhom feminino da Guarda Nacional, que luitou durante a última semana da Comuna.

As importantes e históricas conquistas feministas emanadas da Revoluçom de Outubro de 1917 nom se podem compreender sem nom nos remetemos à experiência acumulada de três décadas de trabalho feminista em prol da consolidaçom de um movimento centrado na defesa dos próprios interesses da mulheres da classe trabalhadora e dos setores populares, no seio do movimento operário. Um dos acertos vitais das militantes socialistas foi impulsionar a criaçom de espaços próprios para as mulheres, onde poder analisar e refletir sobre os seus próprios problemas como mulheres trabalhadoras e elaborar as suas revindicaçons.

A reuniom nom-oficial de 1896 liderada por Clara Zetkin à qual assistírom 30 delegadas de 14 países, propiciou que germinara o que posteriormente se consolidaria como Movimento de Mulheres Socialistas. Lá, Zetkin1 defendia a necessidade imperiosa de criar seçons, sindicatos, cooperativas e jornais feministas com os que articular umha poderosa ferramenta para erradicar as miseráveis condiçons de vida nas que viviam milhares de operárias na Alemanha. A sua acertada aposta pola organizaçom das mulheres trabalhadoras prosperou, e supujo que em 1907 houvesse a suficiente acumulaçom de forças para realizar a Primeira Conferência Internacional de Mulheres Socialistas. Nessa Conferência, as mulheres elaborárom as bases mínimas do seu modelo organizativo de âmbito internacional e plasmárom as suas revindicaçons a respeito do sufrágio e os direitos laborais. Em três anos, a participaçom das mulheres no movimento revolucionário aumentou de forma espetacular, como deixárom patente os informes da Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas de 1910 elaborados por Alexandra Kollontai2. Mas nom só isso; o movimento de mulheres socialistas conseguira converter-se numha força social a ter em conta. As revindicaçons feministas tinham que ser escuitadas, materializadas e satisfeitas. Esta experiência proporciou-nos um decisivo avanço teórico, que possibilitou analisar a fundo a opressom patriarcal no capitalismo de mais de metade da força de trabalho.

Também podemos tirar conclusons das nefastas conseqüências que supujo a eliminaçom durante o estalinismo destas estruturas revolucionárias centradas na emancipaçom e nos direitos das mulheres trabalhadoras. Em 1930, foi abolido o Secretariado Internacional de Mulheres Socialistas sob a palavra de ordem de que todas “as questons das mulheres” se resolveram. As conquistas feministas da Revoluçom de Outubro fôrom-se paulatinamente derrogando. O Gleichheit, órgao de expressom revolucionário e feminista alemám, passou a chamar-se Mundo Femenino e a incluir notícias de moda, conselhos caseiros e receitas de cozinha.

Na Galiza, também podemos tirar conclusons respeito da importância da trajetória de auto-organizaçom das mulheres desde meiados da década de setenta, período onde datamos o nascímento do MFG. As estatísticas demonstram as vitórias acadadas polo Movimento e o grau de tomada de consciência por parte das mulheres do povo trabalhador galego respeito do controlo do seu corpo, da natalidade e da sexualidade. Entre 1975 e 2009 reduziu-se de 32,7 a 6,7 a taxa específica de fecundidade em mulheres menores de 20 anos e de 309,7 para 83 em mulheres menores de 30 anos. O índice sintético de fecundidade ou número meio de crianças por mulher passou de 2,4 em 1975 para 1,1 no 2009. A percentagem de maes nom casadas passou de 3,4 % em 1975 a 34,2% em 2009, e a idade meia da maternidade passou de 28,1 anos em 1975 a 31,6 anos em 2009. Também podemos tirar conclusons positivas sobre a incorporaçom das mulheres do povo trabalhador de maneira maciça à educaçom universitária. Assim, no ano letivo 1971/1972 as mulheres representavam só 35,5% do estudantado, passando a representar mais da metade (52,3%) em 1980. A partir desta década a percentagem de mulheres matriculadas na Galiza sempre foi superior à dos homens, e nos últimos dez anos a percentagem de mulheres nunca baixou de 61%. Mas, também houvo mudanças significativas nos estudos maioritariamente realizados por homens. Nos estudos técnicos ou engenharias, o número de mulheres matriculadas aumentou 2.000% em vinte anos, passando de 170 mulheres matriculadas em 1980 a 3.240 no ano 2.000. Estes factos nom som outra cousa que a demonstraçom empírica da importante luita das mulheres pola sua emancipaçom como mercadoria sexo-económica, propriedade privada do patrom, do marido e do pai. Som as consequências de rebelar-se contra o destino ao que nos condena o patriarcado: nascer para ser boas maes e esposas. Som factos que demonstram que a auto-organizaçom e a autonomia das mulheres é imprescindível para avançar face conquistas feministas, onde nós, com as nossas próprias forças construamos a nossa resistência.

Em palavras da feminista portuguesa Ana Barradas: “Só se pode concluir que a emancipaçom do género nom depende da benevolência dos homens evoluídos, mas da revolta em massa delas próprias”3.

A criaçom de espaços própios como meio de auto-afirmaçom

Em 1977, a fotógrafa e feminista alemá Marianne Wex editava o seu trabalho Recuperemos o nosso espaço: a linguagem corporal feminina e masculina como resultado das estruturas patriarcais. Através de um compéndio de milhares de fotografias sobre mulheres e homens na rua, demonstrou que os homens empregavam o espaço, abrangendo o máximo possível, e as mulheres ao contrário. Muitas vezes passa que numha assembleia de 300 mulheres e 3 homens, som esses três homens os que falam primeiro.

Estes som exemplos que evidenciam como o patriarcado afeta de variadas maneiras a vida e os comportamentos das mulheres. Desde o nascimento, o patriarcado ensina-nos, impom-nos socialmente, que as mulheres sejamos complacentes com os homens, que nom valorizemos as nossas capacidades fisicas e psicológicas, que tenhamos medo a confundir-nos ao falar e atuar em público, descartemos as nossas próprias opinions ou duvidemos no momento de expressá-las. Todo isto tem um objetivo: manter-nos em silêncio, submissas e obedentes, para que aceitemos com resignaçom ou de forma inconsciente todos os privilégios que os homens, tanto da classe dominante como os companheiros da nossa classe, conseguem com a nossa opressom patriarcal e exploraçom económica. Ainda, esta dominaçom educacional, cultural e ideológica converte-se numha barreira que propicia que as mulheres militem menos nos movimentos revolucionários e se interessem menos que os homens pola política.

Ninguém sabe mais da opressom e exploraçom das mulheres que elas próprias organizadas à volta dos seus grupos conscientizados, e por extensom, ninguém poderia desenhar melhor a estratégia e tática a desenvolver para luitar contra o patriarcado. Por isso as mulheres do povo trabalhador como coletivo, precisamos de espaços próprios, isto é, exclusivo de mulheres, onde, por um lado, sirva para nos reafirmarmos como coletivo revolucionário que luite pola emancipaçom de género sob os parâmetros nacional e social, e segundo, onde se eliminen todas as influências que a presença masculina infringe sobre o nosso comportamento e a nossa espontaneidade.

O nosso direito à autodefesa

Os complexos sistemas de alienaçom e repressom com os que se dota o sistema patriarcal inocula-nos para sermos submissas. Necessita que as mulheres acreditemos nisto para prolongar a sua existência, mantendo o monopólio da violência em maos dos homens. Mas, como qualquer povo oprimido ou como qualquer classe social explorada, as mulheres temos o direito à autodefesa e a legítima necessidade de o pormos em prática. As mulheres necessitamos acreditar que temos que autodefender-nos. Mas necessitamos acreditar, e acreditamos que nós sozinhas organizadas coletivamente, temos a capacidade de fazé-lo.

Perante a nova ofensiva patriarcal, enquadrada na crise sistémica capitalista, que procura aumentar a mais-valia roubada, aumentar a nossa opressom, e reforçar o patriarcado através de multidom e perfeiçoados sistemas de dominaçom, as mulheres do povo trabalhador galego nom temos nada a perder, e mais, sabendo que estas agressons recrucedem-se ao serem aplicadas sobre as mulheres de umha naçom oprimida como a nossa. Quando eliminam serviços públicos que recaem imediatemente sobre as já de por si danificadas costas das mulheres. Quando se recrudesce a violência machista e aumentam os assassinatos de mulheres a maos dos seus moços ou maridos, porque estes sentem que possuem o corpo da mulher como o seu sumidouro onde tirar as frustaçons. Quando penalizam e proíbem o aborto e cortam em liberdades sexuais. Quando precarizam o trabalho das mulheres em nome da flexibilizaçom do mercado de trabalho. O nosso direito a autodefesa aparece como o facho que ilumina umha nova sociedade feminista.

As manifestaçons feministas devem ser um espaço onde as mulheres tenham um papel protagonista. Devem conservar o seu papel de demonstraçom de força feminista, onde as mulheres berrem bem alto que estám dispostas a plantar-lhes cara à ofensiva patriarcal e ao machismo. Devem conservar a sua componente pedagógica, a de ser umha experiência de reafirmaçom como coletivo e demonstrar que acreditamos na nossa capacidade para a autodefesa.

1. Só em combinaçom com a mulher proletária o socialismo será vitorioso. Clara Zetkin 1896.

2. A Primeira Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, Stuttgart. 1907 e a Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, Copenhague 1910.

3. O feminismo ainda nom começou. Intervençom de Ana Barradas nas VI Jornadas Independentistas Galegas, maio de 2002.

Luzia Leirós Comesanha é militante de Primeira Linha