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Perspetivas da crise do BNG

Terça-feira, 27 Março 2012

Carlos Morais

A crise pola que atravessa o autonomismo galego nom é um fenómeno novo. A recente imagem de divisom e ruptura interna provocada pola saída do beirismo do BNG é tam só um capítulo mais de umha crise estrutural e prolongada, cuja génesse direta há que procurá-la nos adversos resultados eleitorais conseguidos nas autonómicas de outubro de 2001. Com a mudança de século -após umha década de permanente expansom organizativa, implantaçom social e acumulaçom eleitoral, o BNG atinge o seu teito dando início a um declínio e perda de referencialidade em todos os ámbitos.

Em menos de umha década, a reformulaçom organizativa promovida pola UPG em Riazor, convertendo a velha AN-PG no BNG, colheitou avanços tangíveis. A imagem renovada e pluralista que proporcionava a prestigiosa e iconoclasta figura de Beiras foi um factor determinante.

O novo BNG emergia numha conjuntura social e política condicionada pola brutal reconversom industrial e agrícola imposta à Galiza polo governo de Felipe González, seguindo as diretrizes que impunha a CEE para a incorporaçom do Estado espanhol. Umha etapa convulsa, de grandes luitas obreiras e populares, onde a esquerda nacionalista mantivo um enorme protagonismo e capacidade de iniciativa. A INTG convocou três greves gerais em 1984 de caráter nacional, a primeira -14 de fevereiro, em solitário. O BNG cresceu na rua, ganhando um enorme espaço como único referente da “esquerda antissistémica” que superara o naufrágio da Transiçom.

Mas o regime pós-franquista tinha decidido condená-lo ao ostracismo para forçar a sua rendiçom ou aggiornamento. A tropelia jurídica que permitiu a expulsom dos três deputados da coligaçom da esquerda nacionalista vertebrada pola UPG para participar no primeiro parlamentinho de cartom em 1981 foi o primeiro sinal da determinaçom de cortar o avanço experimentado.

O nascimento e articulaçom do BNG, em parte, responde à urgente necessidade de se reinventar para superar umha situaçom complexa na que as contradiçons internas tinham adotado forma de ruptura.

A posterior decisom de acatar por imperativo legal a Constituiçom, já na segunda legislatura autonómica e com Beiras como único deputado, voltou a tensionar internamente o movimento nacionalista, provocando em 1986 umha das mais importantes cisons da UPG. Porém, foi a partir desse momento que o BNG, de forma gradual, mas constante, foi iniciando o longo percurso de incorporaçom ao regime. Foi um processo lento, às vezes impercetível, mas a linha política plasmada na “Lei de Bases”, emanada da III Assembleia Nacional, realizada no Carvalhinho em 1987, marcou um ponto de inflexom. Priorizava aproximar-se dos setores intermédios (pequenos propietários), sobre a defesa das tradicionais camadas populares.

Todo este processo foi implementado polo tandem UPG-Beiras, entre tensons e negociaçons consubstancias a duas culturas e trajetórias políticas diferentes, mas ao fim e ao cabo entre ambas partes.

A meados dos noventa, a UPG já tinha quebrado o camilismo, a corrente mais moderada com que competira durante duas décadas pola hegemonia do espaço da esquerda nacionalista. O crescimento do BNG, seguindo a estratégia do Projeto Comum baseado no interclassismo, permite que a finais dessa década, no seu interior, convivam “harmonicamente” galeguistas liberais, social-democratas autonomistas, ex-militantes da esquerda radical estatal, com a UPG, o beirismo precariamente vertebrado numha estrutura partidária e centenares de militantes nacionalistas sem adscriçom. Os resultados da fórmula, combinando a implementaçom de um política pragmática e possibilista (após a recuperaçom da representaçom municipal nas cidades acordos estáveis de governo em aliança com o PSOE), com umha aparente firmeza nos princípios estratégicos (defesa da autodeterminaçom, do monolingüismo, oposiçom à CEE, à NATO, ao Tratado de Maastricht), unido ao estilo rupturista de Beiras na intervençom parlamentar, permitírom que o BNG atingisse o sorpasso sobre o PSOE e representaçom na Uniom Europeia.

Concatenaçom de erros táticos de conseqüências estratégicas

Porém, o crescimento acelerado era proporcional às renúncias e concessons paulatinas que iam desfigurando o modelo frentista no plano tático e estratégico. Na alteraçom de preocupaçons e investimento de recursos, centrando-se no ámbito institucional-eleitoral em troca do abandono da intervençom e mobilizaçom social e da batalha de ideias.

Deste jeito, os estrategas da campanha eleitoral das autonómicas de 2001 -instalados no autismo e empoleirados na prepotência que desprezava os cada vez mais claros sintomas do divórcio entre aparelho, militáncia, base social e corpo eleitoral, consideravam factível superar os magníficos resultados de 1997, impossibilitando assim que Fraga ratificasse a sua terceira maioria absoluta. Mas a realidade desmentiu os seus prognósticos e erróneas perceçons. O BNG perdeu 50 mil votos, empatando tecnicamente com o PSOE e, portanto, sem a mais mínima possibilidade aritmética de governar.

O shock de um Beiras afetado polo revés eleitoral precipita-o a reconhecer a legitimidade democrática do ex-ministro franquista, normalizando subitamente a política institucional da Comunidade Autónoma da Galiza. Contasse ou nom com a prévia luz verde da UPG para implementar o Dialógo institucional com o PP, os resultados do movimento estratégico fôrom catastróficos. A perplexidade instalou-se na base social mais firme e, à medida que a linha galeguista e social-democrata cada vez se diferenciava menos da sucursal do PSOE, o novo eleitorado de perfil mais centrista foi progressivamente realizando o caminho de retorno, seduzido polos fictícios ares de regeneraçom do zapaterismo.

A mais de dez anos destes acontecimentos, o BNG nom se recuperou. Perdeu musculatura social e um terço do eleitorado atingido em 2001.

A errónea focagem que imprimiu na crise nacional provocada polo afundimento do Prestige e na morna e legalista orientaçom do fenómeno de massas vertebrado mo movimento Nunca Mais foi útil para cortar os efeitos imediatos da hemorragia eleitoral, mas reforçou as tendências conciliadoras e direitistas que, como umha metástase, fôrom devorando o melhor do projeto.

Previamente, o BNG nom tinha apoiado publicamente a greve geral de junho de 2001, na qual a CIG jogou um papel determinante.

Para alargar apoio eleitoral e crescer entre a faixa mais centrista, cometeu um conjunto de concessons apresentadas como meramente táticas, que nom dérom os resultados aguardados, mas que sim provocárom umha agudizaçom das contradiçons.

Esta conjuntura foi oportunamente utilizada polo partido da espiral para substituir de forma desajeitada e grosseira um Beiras perplexo e agravado por ser relevado sem o suficiente consenso por um oportunista que, num abrir e fechar de olhos, pretendeu saltar etapas na evoluçom “natural” do BNG, conduzindo-o sem complexos para o espaço do centrismo galeguista, e que tivo a “sorte” de contar com os ventos auxiliares de cogovernar de forma subsidiária com o PSOE a Junta de Galiza.

A inesperada entrada no governo autonómico aprofunda a crise

No período 2005-2009, o BNG fracassou na sua tentativa de se converter na expressom política da pequena e mediana burguesia galega, pois nom ganhou adesons ou apoios significativos destas fraçons comodamente instaladas no papel de classe subsidiária e intermediária do bloco oligárquico espanhol. Mas porque basicamente provocou um afastamento e ruptura com amplos setores populares organizados ou ativos socialmente que até esse momento apoiavam criticamente o BNG.

O continuísmo do governo bipartido nos temas fulcrais da sua política a respeito do fraguismo permitiu umha expansom pola direita e umha perda pola esquerda. Mas o balanço desta viagem é claramente negativo.

A frustraçom pola recuperaçom do governo autonómico polo PP, a perda de modestos mas destacados espaços de gestom institucional que moviam milhons de euros e tinham situado em status privilegiados centenas de quadros e militantes, estala em forma de confronto aberto entre os diversos lobbies após a saída em falso da substituiçom “pactuada” do quintanismo e no tímido giro autocrítico à “esquerda” adotado na Assembleia Nacional extraordinária de maio de 2009, tam só dous meses depois de ter sido inviável revalidar um governo de coligaçom.

Os debates prévios da XII AN, realizada em dezembro de 2006, já tinham sido um claro aviso dos complexos e delicados equilíbrios da cada vez mais magmática correlaçom de forças e alianças de conveniência que competiam pola direçom de facto do BNG, e em nengum momento expressom de umha batalha política-ideológica entre projetos qualitativamente diferentes. O quintanismo, embora aliado com a UPG, pretendeu sem sucesso deslocá-la do leme do barco, e umha UPG alarmada tomou definitiva consciência do enorme peso atingido polo seu antigo “protegido” e a urgente necessidade de se desfazer dele. Era só questom de tempo e oportunidade política.

A tensom adotou formas novas, quebrando assim o tradicional hermetismo nos debates internos numha homologaçom mais com os partidos sistémicos que empregam os meios de comunicaçom como altifalantes das batalhas intestinas.

A cisom do beirismo e parte da ala direita versus giro à esquerda da UPG

No entanto, foi sem lugar a dúvidas a perda do poder institucional das Conselharias de Sam Caetano o factor determinante do recrudescer da crise que provocou, após anos de amagos e ameaças de abandono, a recente saída do Encontro Irmandinho e outros pequenos grupos e diversos cargos públicos num processo inacabado, mas que sem lugar a dúvidas nem provocará o efeito que a dissidência procura nem vai deixar indiferentes as forças hegemónicas do BNG.

A saída de Beiras é como um tsunami. Os efeitos podem ser devastadores se nom se produz aviso prévio. Mas o inesperado abandono do Encontro Irmandinho -pois já quase ninguém acreditava nas constantes ameaças que Beiras vinha lançando de forma pendular como mecanismo de pressom interna e de reforçamento externo ocupando espaço mediático, se nom conta com o apoio da estrutura institucional do lobby de alcaides e cargos públicos nucleados à volta de +G, pode ser um pequeno movimento sísmico de efeitos mínimos.

A UPG, em quase meio século de andaina, tem demonstrado enorme capacidade de adaptaçom e recuperaçom às mais adversas situaçons. De cada crise a que se enfrentou saiu tam reforçada como direitizada. Porque esta ocasiom vai ser diferente? Nom desconsideremos que esta crise tem umha diferença substancial com a imensa maioria das anteriores: nom afeta diretamente o núcleo militante e anéis periféricos da UPG. A sua estrutura de poder e controlo interno fica intacta e, por conseguinte, a sua capacidade de readequaçom é mui superior às crises de 1976-77, 1981, 1986, 2009. Sem lugar a dúvidas, está renegociando com o pós-quintanismo a sua permanência no BNG e desta forma limitar ao mínimo os efeitos da iniciativa promovida por Beiras.

As razons que justificam a saída carecem de suficiente legitimidade. A lucidez e honradez política do artigo que Beiras publica no jornal decano da imprensa galega em novembro de 2003, afirmando sem rubor que o BNG tinha agido de dique de contençom da enxurrada de indignaçom popular que impediu assim que a impotência padecida por tantos e tantas galegos e galegas ao longo deste vinte anos nas suas necessidades e condiçons sociais de existência, desembocasse em violência social e mesmo em formas violentas de combate político contrasta com a aparente comodidade e apoio que publicamente mantivo com a política e evoluçom ideológica do BNG ao longo dos três quinquénios prévios. Beiras nom pode fazer tábua rasa das suas responsabilidades na direçom e orientaçom do BNG. O aggiornamento experimentado entre 1985-2003, por nos cingirmos exclusivamente à etapa em que exerceu de porta-voz e lider, foi sem lugar a discussom direta e/ou indiretamente obra sua. Nom foi umha imposiçom do aparelho. Beiras só começou a agir de dissidente pola esquerda quando foi substituído por Quintana.

Beiras perdeu pola mínima, mas perdeu, a XIII Assembleia Nacional, e nom esqueçamos que ia aliado com o setor mais direitoso do BNG. Centrou o grosso da crítica no modelo organizativo, nom na moderaçom política. De facto, o Encontro Irmandinho, paradoxalmente, na atualidade teria que estar mais cómodo no BNG emanado do recinto feiral de Ámio.

A atual situaçom que ameaça o futuro do nacionalismo de prática autonomista é um fenómeno histórico e estrutural, nom é expresom conjuntural e tática. A UPG nom pode nem tem capacidade para que o BNG recupere a linha política e social, as formas de intervir e agir, que o caraterizou na década de oitenta, pois tanto pola composiçom de classe da sua militáncia como polos espaços de gestom que esta ocupa nom tem margem de manobra para converter em tangível o giro à esquerda e soberansita ratificado nas teses da XIII Assembleia Nacional de janeiro de 2012. A UPG está tam acomodada e instalada no conformismo, tam desfigurada e adulterada, que já nom pode deixar de ser o que atualmente é sem se submeter a umha convulsom interna que ponha em perigo a aparente estabilidade, unidade e fortaleza que transmite.

A imprensa burguesa agita demagogicamente o fantasma da UPG marxista-leninista, sabendo perfeitamente que o partido liderado por Paco Rodríguez já só é umha força patriótica e progressista que abandonou há décadas a estratégia rupturista. Beiras também o sabe, embora empregue idêntica “acusaçom” para de forma pouco honesta marcar posiçom.

O giro à esquerda do BNG é umha necessidade ineludível para superar os “traumas” do bipartido e principalmente para tentar conectar com os setores perdidos numha conjuntura de objetiva e subjetiva radicalizaçom social e política provocada polos contínuos retrocessos nas condiçons de vida e trabalho da imensa maioria social que a burguesia está aplicando sob a justificaçom da crise capitalista. O reformismo adapta com elasticidade o seu discurso para se consolidar e nom sofrer retrocessos, mas nom significa que gire de facto e coerentemente à esquerda, mais que forma epidérmica e retórica.

Nem o PCE nem a UPG vam modificar a sua linha entreguista para se somar à luita revolucionária. Tenhem uns pactos de Estado assinados, uns compromissos que nom podem quebrar alegremente sem padecer as suas conseqüências.

É umha ilusom, umha ingenuidade, acreditar na possibilidade de regeneraçom da esquerda reformista, da sua readequaçom no espaço revolucionário. A história da luita de classes a escala nacional e internacional constata que este fenómeno nom passa, no melhor dos casos, de meros liftings que temporariamente servem para dar umha melhor imagem, mas que desaparecem com o inevitável passar do tempo, que volta a situar cada qual no su sítio. Ou é que o PSOE de Rubalcaba somando-se agora ao clamor popular contra a reforma laboral de Rajói, como antes fijo -em 2003, contra a intervençom espanhola na agressom imperialista no Iraque, também girou à esquerda? Nom, de nengumha maneira. É puro teatro para enganar incautos e ingénuos, para se recompor da grave situaçom de legitimidade que atravessa.

Som giros oportunistas realizados para assegurar a sua perpetuaçom. Se a linha aplicada no período do bipartido tivesse logrado os seus objetivos de representaçom de umha fraçom da burguesia galega e o BNG ocupasse espaços de poder institucional de máximo nível, a atual crise estaria congelada e a UPG instalada no terreno da crítica cínica e hipócrita, mas beneficiando-se diretamente da ocupaçom do espaço de representaçom e, portanto, sem vontade algumha de mudar a linha nem girar à “esquerda”.

Tempos revoltos, ventos oportunistas, ideias velhas

Os velozes movimentos que se apreciam na esquerda soberanista, tendentes a umha desesperada aproximaçom do beirismo, oferecendo-se para participar na construçom de umha nova organizaçom política das caraterísticas de umha frente ampla nacionalista, plural e com o centro de gravidade na esquerda nom deixa de ser a mais clara expressom da errática evoluçom de quem perdeu o norte e carece de firmes princípios.

Sem lugar a dúvidas, o beirismo vai tentar articular umha estrutura política que compita com o BNG no campo eleitoral-institucional. O problema é quem vai ser os parceiros adequados para participar neste processo em base à utilidade para o fim perseguido. Os grupos que se oferecêrom, por ativa ou por passiva -e alguns dos quais já estivérom presentes na assembleia do Encontro Irmandinho, pouco poder achegar nesse ámbito. Porém, dependerá da solidade do beirismo se a maioria de +G finalmente opta por permanecer no BNG que conte ou nom com eles. Mas umha caldeira nom admite todo.

Pretender refundar um BNG bis, edulcorado com o verniz do altermundismo e o glamour da inteletualidade falsamente acrítica, nom leva a mais nada que a plasmar a divisom do campo nacionalista galego, tal como existiu até 1994 com a definitiva integraçom dos restos do PSG-EG no BNG.

O resultado da operaçom está a médio prazo condenada ao fracaso porque na prática nom pretende ocupar um espaço claramente diferenciado ao que hoje representa o BNG e porque sem o apoio mediático e económico do sistema carece da estrutura organizativa mínima que lhe permita desenvolver-se e consolidar-se.

As turbulências também favorecem o abrolhar de projetos recauchutados que pretendem novamente implementar no País modelos já experimentados nalgumhas das sociedades mais desenvolvidas do capitalismo europeio a inícios da década de oitenta. Com atraso e ideias velhas, mas apresentando-as com a falsa novidade do atrativo carimbo “verde” de que tanto gosta, a pequena burguesia pretende agir de revulsiva alternativa frente a suposta fosilizaçom da esquerda. Tal como constatou o Die Grünen alemám de Joschka Fischer, estas operaçons políticas nom passam de ser umha fraudulenta alternativa liberal.

A UPG nom vai promover no BNG um giro real à esquerda, nem o beirismo construir umha alternativa da esquerda anticapitalista com projeçom de massas, nem as modas verdes vam passar de meras operaçons passageiras de marketing.

Sem lugar a dúvidas, estamos numha etapa convulsa, caraterizada por mudanças e reajustamentos, mas @s comunistas nom vamos participar em nengumha manobra de confusom. Temos que convergir com o proletariado, a juventude e as mulheres sob um projeto revolucionário integral e global de força política-movimento social. Eis as nossas tarefas. O tempo porá cada qual no seu lugar. Nós ao nosso!

Carlos Morais é secretário-geral de Primeira Linha