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Novidade na Abrente Editora: Disparos vermelhos, compilaçom de artigos de Carlos Morais

Quarta-feira, 11 Janeiro 2012

Nos próximos dias, a editora ligada ao nosso partido, Abrente Editora, lançará umha nova obra dentro da coleçom Biblioteca Galega de Marxismo-Leninismo. Trata-se de umha seleçom de textos e intervençons públicas de temática política escritos polo secretário-geral do nosso partido, Carlos Morais, publicados durante a última década em diferentes meios impressos e digitais.

A compilaçom, que leva por título Disparos vermelhos, inclui mais de 60 artigos e intervençons que abordam temas ligados à atualidade política da Galiza e do mundo, com a perspetiva marxista e de compromisso político permanente por parte do autor. Episódios como o desastre do Prestige e o movimento Nunca Mais, o processo de degeneraçom política do autonomismo ligado ao BNG, o final do fraguismo, reflexons sobre o leninismo, a tática e a estratégia revolucionárias, a análise de processos de luita noutros povos do mundo como o colombiano, o perfil da corrente política que o nosso partido aglutina… Esses e outros temas enchem as páginas deste novo volume, que conta com o prólogo do marxista argentino Néstor Kohan, cujo conteúdo reproduzimos a continuaçom, junto à capa que ilustra a obra de Carlos Morais.

Para além desta novidade, nas próximas semanas esperamos poder informar de novos títulos que estám em processo final de ediçom por parte da Abrente Editora.

Repensar o marxismo

em tempos de crise generalizada

Néstor Kohan

Prólogo ao livro Disparos vermelhos»

de Carlos Morais

Prologar este livro constitui para nós umha honra, umha alegria e um prazer.

            Conhecemos o seu autor, o companheiro Carlos Morais, há menos de um lustro, quando nos convidou a umhas «Jornadas Independentistas Galegas» impulsionadas pola organizaçom comunista Primeira Linha. Hoje podo confesar que duvidei muito aceitar o convite.

Diferentemente do que sucede com grande parte da inteletualidade do nosso país, o eurocentrismo tem-nos fartos e saturados. Muitos companheiros com os quais estudei e talvez a maior parte do mundo universitário argentino sonha com ir à Europa, com a mandíbula caída, as maos nas costas e as pupilas dilatadas, como bons alunos submissos dispostos a se humilharem perante as metrópoles sonhadas que lhes tiram o alento e o pensamento próprio. Nessas fantasias que idealizam o que nom se conhece, a esquerda europeia -por mais moderada, derrotada ou institucionalizada que se ache- sempre jogou o papel de “guia” e de “farol”. Paris continua a senr a meca cultural para grande parte dos nossos intelectuais, incluindo os “vermelhuscos”.

Em qualquer grupúsculo juvenil argentino minimamente “progressista” ou com poses esquerdistas, conhece-se muito mais do maio francês de 1968 do que da Reforma Universitária que o antecedeu meio século, tomando por assalto as universidades argentinas e latino-americanas de 1918 em diante. Umha tímida e mesurada greve do correio francês, realizada com os melhores modais, o reformismo mais morno e sem incomodar ninguém, gera em segmentos importantes da esquerda do meu país orgasmos intelectuais, enquanto que o mesmo tempo se vira, com toda a petuláncia, as costas a umha guerrilha comunista latino-americana que conta com 10.000 combatentes. Umha mentalidade tipicamente colonial e sipaia, atravessada de lés a lés por complexos de inferioridade política e cultural.

É por isso que duvidei muito quando Carlos Morais ligou comigo para ir à Galiza. Para ser justo, devo reconhecer que errei totalmente. Ao conochecê-lo cara a cara e ao tomar contato com a sua organizaçom comunista -de notoria maioria juvenil-, achei algo bem distinto e completamente diferente dessa esquerda europeia, altaneira e soberba, ja cansada de pelejar, institucionalizada, hegemonizada e cooptada polo poder, sempre rápida para condenar os que luitam enquanto se submete mansamente à disciplina do grande capital, cujas guerras de conquista considera, curiosamente, “civilizadas” e “humanitárias”.

O que achei na Galiza, contrariando as minhas prevençons? Um companheiro, rodeado de muitos outros e outras jovens, disposto à luita e ao confronto e aberto -a sério, sem simulaçom algumha- às experiências insurgentes do terceiro mundo. Carlos inclusive me surpreendeu ao conhecer perfeitamente quem era Mario Roberto Santucho, enquanto também me falava com admiraçom e entusiasmo do galego António Soto (líder comunista libertário da rebeliom obreira do sul argentino a inícios da década de ’20) e do galego Fernández Palmeiro, combatente do Exército Revolucionário do Povo (ERP-22 de agosto). Sem querê-lo nem esperá-lo, conversando com Carlos e os seus companheiros e companheiras da Galiza, sentia-me na minha própria casa[1].

Por isso, a alegria e o orgulho de prologar este livro, volume que vê a luz no momento justo, no meio de umha crise formidável do capitalismo mundial que atravessa como nunca o Estado espanhol e todas as zonas, regions e naçons submetidas por este.

Ler este livro permite pensar a crise capitalista -ainda mais aguda e feroz que a de 1929, como tenhem reconhecido Paul Volcker, George Soros e até Angela Merkel- a partir de abaixo, do ángulo das classes exploradas e dos povos que luitam e resistem. Nom da perspetiva dos “mercados”, dos banqueiros nem do empresariado, mas da fábrica, da escola, da universidade, do bairro e dos diversos territórios de resistência popular. Nom da “governabilidade”, mas da rebeldia da rua e da indisciplina juvenil.

No meio dessa crise capitalista e frente os restos decadentes da velha esquerda que se desmorona sem pena nem glória, o pensamento político de Carlos Morais e da organizaçom Primeira Linha, que este livro adensa, exprimem a emergência de umha nova esquerda revolucionária e independentista. Nova esquerda que aspira a ser nom só cultural, mas também política, constituindo-se em aberta disputa de hegemonia com o nacionalismo burguês galego e outras expressons  análogas da burguesia. Nom devemos esquecer que a extrema-direita espanhola, herdeira do franquismo (corrente na qual militam desde Manuel Fraga a Mariano Rajoi, recentemente eleito presidente de Espanha), nom poucas vezes tem encontrado nas correntes burguesas da Galiza um dos seus mais fortes bastions. Daí que a luita que encabeçam Carlos Morais e a sua corrente seja duplamente dificultosa e complexa.

Há já longos anos que temos aprendido com António Gramsci que o pensamento e a filosofia marxista, se pretenderem ser revolucionários a sério, devem devir política concreta e projeto orgánico a longo prazo, nom só teoria crítica cultural ou literatura de circulaçom exclusivamente universitária. Esse espírito centralmente político aninha neste livro e para ali aponta claramente o seu autor, se nom entendemos mal a sua prosa e o seu pensamento.

O pensamento político de Carlos nom pertence só a um individo- onde a biografia e a própria experiência de militáncia deixam a sua pegada indelével-. Em tanto intelectual orgánico, o seu ponto de vista também exprime e adensa o horizonte de toda umha corrente. As suas entonaçons principais som anti-imperialistas, anticapitalistas, descolonizadoras, feministas e radicais.

            Carlos Morais pertence a umha geraçom jovem de militantes políticos revolucionários que se formou depois da transiçom espanhola, remando contra a maré do pragmatismo, do possibilismo e da realpolitik que as velhas formaçons do PSOE e o PC, assim como também os setores reformistas do nacionalismo galego, imprimírom à maior parte da esquerda ibérica.

            A principal meta que tem traçado, junto com os seus companheiros e companheiras de militáncia, tem sido e continua a ser recuperar e recriar a herança da esquerda extraparlamentar dos anos ’60 e ‘70, nas novas condiçons de globalizaçom capitalista. Sem nostalgia algumha, mas com um projeto de futuro. A sua corrente incorpora e recruta velhos quadros sindicais -conhecemo-los- que  tenhem luitado durante décadas contra as empresas espanholas e galegas (apesar do qual tenhem sido abandonados pola esquerda tradicional e a burocracia sindical), mas a maior parte da sua corrente é formada por militáncia jovem, forjada nas luitas atuais e no forno dos últimos anos.

            A tarefa mais difícil e ao mesmo tempo a mais urgente que se  tenhem proposto Carlos Morais e estes novos revolucionários da esquerda independentista galega consiste em sintetizar a luita de classes e a luita de emancipaçom nacional numha nova fusom onde a cultura jogue um lugar central (por exemplo a defesa do idioma galego-português frente o espanhol-castelhano) sem subestimar tampouco as luitas feministas de género e o ecologismo radical. Essa tentativa de fusom esforça-se por superar e deixar atrás o pesado e inútil lastro dos velhos esquemas economicistas, onde unicamente importava “o factor económico” na história (economicismo acedamente criticado desde António Labriola, Lenine e António Gramsci até Raymond Williams, EP Thompson e muitos outros marxistas atuais).

O marxismo de Carlos, da sua corrente política e de todo este livro (pois o atravessa como um fio vermelho ao longo de todas as suas páginas) constitui um marxismo revolucionário e independentista, crítico do reformismo e outras variantes aggiornadas da dominaçom ao interior das filas populares. Um marxismo crítico, mas ao mesmo tempo organizado que promove a luita de libertaçom nacional e social do povo galego num mesmo movimento, sem as separar artificialmente em “etapas” mecánicas, mutuamente excludentes.

            Esse marxismo renovado nutre-se explícitamente do internacionalismo do Che Guevara (marxista revolucionário analisado en detalhe em vários dos capítulos de Disparos vermelhos), entendido como a pedra de toque de toda perspetiva autenticamente radical.

Carlos promove com orgulho e sem rubor, sem fazer caso dos chamados a “madurecer” e a “entrar em razom”, a solidariedade ativa com as luitas anti-imperialistas do terceiro mundo (desde a insurgência colombiana das FARC-EP à resistência no Iraque, Afeganistám, Líbia ou qualquer outro país agredido polo imperialismo em nome da “democracia”, os “direitos humanos” e outros mitos legitimadores do genocidio imperial do nosso tempo que pretende converter o planeta terra numha imensa despensa para alimentar a voracidade ilimitada do grande capital financeiro). Nom casualmente em muitos países em luita temos encontrado as camisolas comunistas de Primeira Linha (que levan como palavra de ordem “Por umha Galiza rebelde e combativa”), portadas por militantes das organizaçons revolucionárias mais diversas.

A partir desse internacionalismo militante e concreto, eludindo qualquer visom “provinciana” ou cerradamente localista, Carlos Morais pom em discusom a existência mesma da Uniom Europeia e o seu projeto imperial (incluindo dentro seu toda a arquitetura jurídico-institucional que pretende legitimá-la) e, como parte central dela, o lugar que joga nessa estrategia da dominaçom a defesa da “unidade espanhola”, bandeira reacionária desde os antigos tempos de Franco  até os mais «modernos» do PSOE e do PP.

Esse internacionalismo conseqüente e radical, fiel herdeiro de Lenine e o melhor que produziu a Internacional Comunista impulsionada polos bolcheviques, assim como também pola Revoluçom Cubana e Vietnam, nom só está exprimido no terreno teórico de Disparos vermelhos. Carlos Morais, a sua organizaçom política e a corrente ideológica que eles exprimem e defendem, fam parte orgánica do Movimento Continental Bolivariano (MCB), um dos destacamentos políticos fundamentais do reagrupamento internacional contemporáneo dos revolucionários e as revolucionárias a escala mundial.

Como parte fundamental  desse internacionalismo que combina a dimensom de classe e o projecto de emancipaçom nacional, o anticapitalismo e a luita cultural, o anti-imperialismo e as diversas rebeldias contemporáneas, Carlos Morais nom permanece alheio nem desconhece os combates de outros povos pola liberdade. Aproveita esses referentes para a luita insubmissa da Galiza rebelde.

Mas o autor de Disparos vermelhos nom copia mecanicamente esses exemplos, recupera-os a partir de umha olhada própria, situando no centro de gravidade o específico da história e a tradiçom rebelde galega, na qual se inscrevem nomes-símbolos emblemáticos como Benigno Álvares, José Gomes Gaioso e Moncho Reboiras.

Nessa indagaçom e no seu pensamento político, Carlos aferra o touro polos cornos e nom teme refletir com todas as letras sobre o lugar da violência (a de cima e a de abaixo, a estatal e a revolucionária), na sociedade contemporánea. Essa violência que as classes dominantes vivem condenando a partir dos seus monopólios de (in)comunicaçom e as suas iradas declaraçons jornalísticas enquanto a exercem sem piedade e dia a dia como ferramenta de submetimento dos setores populares.

Cada página do livro, cada trabalho aqui reunido, vibra, late e palpita o calor da luita, tanto a que se desenvolve no território da Galiza, como a que transcorre no Estado espanhol, na Europa ocidental, na América Latina e noutras partes do mundo. Nengum dos textos e trabalhos está redigido de maneira formal, segundo o estilo insulso e falsamente neutral dos papers e teses académicas, inodoras, incoloras, insípidas. Ao contrário, Disparos vermelhos está guiado pola evidente e nom ocultada intençom de intervir na cojuntura e tomar partido a partir da «análise concreta da situaçom concreta», como gostava repetir esse rapazinho que algo sabia de revoluçons e que nom casualmente constitui a principal fonte de inspiraçom ideológica e política das análises de Carlos.

Ordenado de maneira cronológica, Disparos vermelhos reúne trabalhos redigidos entre 2002 e 2011, ao longo da primeira década do século XXI. Embora inspirado no marxismo clássico, o seu marxismo pertence o novo século. Nom destila umha gota de nostalgia nem possui um grama de revival melancólico. Recorrendo as suas páginas, pode-se ir entom recompondo as diversas tomas de posiçom que o autor e a sua corrente política tenhem adotado durante a última década.

            Da mao de Morais, vamos descobrindo diversas arestas da formaçom económica social galega, nom assente em reflexons especulativas ou intuiçons caprichosas, mas repleta de dados empíricos. O livro sintetiza umha análise a sério da sociedade que se pretende transformar.

            Também incorpora um balanço crítico e a tentativa de realizar um benefício de inventário com a própria esquerda, europeia e espanhola em geral e galega em particular. Desde a guerra civil espanhola (e o que o autor denomina num dos seus trabalhos “o holocausto galego” referindo-se aos assassinatos em massa do franquismo que na Galiza altingem entre 7.000 e 10.000 pessoas) até hoje, passando por umha impiedosa e exaustiva análise crítica da chamada “transiçom”. Ponto de vista crítico que alcança algumhas figuras emblemáticas como o mediático e famoso juiz Baltasar Garzón.

O espírito geral que recorre como um fio vermelho todos os ensaios e artigos de Disparos vermelhos, para além da sua diversidade temática, aponta a recuperar e recriar o legado comunista nas novas geraçons galegas, deixando atrás o complexo de inferioridade que deixou em várias geraçons de velhos militantes a queda do muro de Berlim e as reiteradas desventuras políticas do estalinismo (em geral e em particular espanhol).

Esse esforço de recuperaçom e recriaçom crítica aparece formulado de maneira aberta, digna e com orgulho, sem pretender esconder em nengum momento a fonte de inspiraçom, as ensinanças e a admiraçom por Lenine que tanto ódio e rejeitamento gera em muitos ex revolucionários conversos, hoje transformados em pós-modernos, timoratos, pusilánimes e politicamente corretos, sempre atentos à pesca de bolsas da social-democracia ou de um emprego “progressista” nalgumha que outra ONG ou ministério estatal.

Nom devemos esquecer que o historiador inglês Perry Anderson nos ensinou que o principal défice do marxismo ocidental tem conssistido durante já demasiadas décadas em propor-nos diferentes e atrativas elaboraçons teóricas e discursos críticos sobre o capitalismo, mas sem acompanhá-las de um projeto político estratégico revolucionário, concreto, viável e realizável para Ocidente. Fazendo-se cargo de aquele défice (nom sempre confessado e nem sequer admitido pola esquerda europeia), o livro de Carlos Morais convida-nos a pensar as condiçons de possibilidade da revoluçom hoje na periferia do coraçom da Europa, adentrados no século XXI. Umha tarefa pendente que aponta, nom só a solidarizar-se com as luitas de “lá longe”, nas margens do sistema mundial capitalista, como também a preparar-se para confrontar no próprio território imperialista. Um desafio apaixonante dirigido de maneira inequívoca à militáncia juvenil, onde sem dúvida se acham os coveiros e as coveiras do capitalismo na Galiza e em toda a Europa.

Ao reunir estes textos e entregar-nos estas lúcidas Disparos vermelhos Carlos Morais, inteletual orgánico e entranhável companheiro, camarada e amigo, deve ter tido presente aquele pensamento com que Lenine encerra a sua obra O Estado e a Revoluçom: “é mais agradável e mais proveitoso viver a «experiência da revoluçom» que escrever sobre ela“.

Estamos seguros que as elaboraçons aqui presentes -valiosas por si mesmas- nom ficarám limitadas ao papel e a tinta, prolongando-se mais além do livro, da imprensa e a biblioteca, na luita cotidiana, organizada e prática, por um mundo melhor. Isso e nom outra cousa é o marxismo revolucionário.

 

Boedo, 29 de novembro de 2011

 


 

[1]              Anos depois de aquela primeira visita, um professor de economia argentino que posa de “gurú” de marxologia nas pequenas seitas universitárias onde a teoria de Karl Marx se tem convertido numha mercadoria inofensiva de consumo exclusivamente estudantil, acusou-me num artigo de ser “um apologista da violência”, invocando como “prova irrefutável”… as fotografias que circulam pola internet onde apareço rodeado polos símbolos comunistas e independentistas da organizaçom Primeira Linha da Galiza e ao lado de Carlos Morais… Para mim nom é nengumha vergonha, mas um honor.