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Do virtual ao real. Internet e Revoluçom

Quinta-feira, 17 Novembro 2011

Disponibilizamos um novo artigo do Abrente nº 62. Desta vez, oferecemos-vos um artigo elaborado polo membro do Comité Central André Seoane Antelo intitulado “Do virtual ao real. Internet e Revoluçom”.

André Seoane Antelo

Os acontecimentos recentes nos países árabes, assim como a articulaçom de mobilizaçons maciças em estados europeus como as da Geraçom à rasca ou a da Democracia real ya tem posto de atualidade, mais umha vez, a questom do emprego da internet como ferramenta revolucionária. Insistimos enfaticamente na ideia de que nom se trata dum novo descobrimento, mas da atualizaçom dum tópico que já tivo o seu sucesso no final da década de 90 do passado século, motivado naquela altura polo emprego das ferramentas da rede de redes por parte do que se chamou movimento antiglobalizaçom.

A nossa experiência, e estamos a falar da individual do autor deste artigo e da coletiva do conjunto da esquerda independentista galega, permite-nos ser conscientes da tendência que existe entre amplos setores da chamada esquerda social a se agarrar a qualquer elemento supostamente inovador que aparentemente permita substituir o esforço perseverante, cansado e muitas vezes frustrante, que carateriza a maior parte da atividade política revolucionária, por algum género de mágico artifício que da noite para o dia provoque umha mutaçom revolucionária da nossa injusta sociedade sem canseiras, sem repressom e praticamente sem confrontaçom.

As pessoas que passamos por experiências como o movimento contra a LOU, Nunca Mais ou a organizaçom dos protestos contra as cimeiras da UE, sabemos como podem chegar a funcionar alguns fetiches dentro das dinámicas de mobilizaçom de massas e é por isso que costumamos adotar umha atitude no mínimo cauta, diante de qualquer novidade supostamente milagreira que nos permita atingir a revoluçom social sem mais esforço que o de estender a mao.

Para afrontar o tema do papel da internet, e mais concretamente das chamadas redes sociais, na atual conjuntura política, devemos partir dumha avaliaçom materialista no sentido epistemológico da palavra. Isto é, prescindir de qualquer idealizaçom do fenómeno e aprofundar a sério no que é a internet na realidade e, partindo desse conhecimento, estabelecer quais som as suas virtudes e quais as suas carências. Deveríamos começar, pois, por reivindicar a supremacia do material sobre o ideal.

A internet é umha rede interconetada de computadores formada, portanto, por esses computadores que ela integra e polos elementos conetivos que os unem. Dizer isto pode parecer umha obviedade mas, se repassarmos o argumentário usual dos gurus da rede, achamos que sempre se nos está a insistir na ideia da importáncia central da informaçom, a articulaçom horizontal e nom hierárquica e a desapariçom de distáncias e barreiras geográficas. Cousas todas elas muito interessantes e importantes, mas que ficam em nada se figermos desaparecer cousas aparentemente tam banais como: a própria existência material de computadores, netbooks e telefones com tenologia 3G (que alguém tem que desenhar, e por cima de todo fabricar e comercializar); os milhons de quilómetros de cabo polo qual a informaçom circula, os milhares de repetidores do sinal sem fios ou o ainda mais básico aceso à energia elétrica, sem a qual nengum artefacto computerizado pode funcionar.

Sem todos esses elementos, que alguém tem que fabricar e conseguir que sejam adquiridos por parte de milhons de pessoas por todo o mundo (desde o último telemóvel com ecrám tátil até a mais humilde das conexons elétricas), a suposta centralidade da circulaçom nom hierárquica da informaçom como elemento basilar da internet nom passa de ser mais que umha fantasia.

Tendo clara a realidade material sobre a qual se ergue a rede de redes, devemos continuar com a nossa análise, desvendando quem é que tem a propriedade sobre ela.

Deparamos já com um outro dos tópicos mais usuais entre os gurus cibernéticos: a rede como ente nom hierárquica carece de donos legítimos. Nom vamos entrar em disquisiçons sobre a legitimidade da propriedade inteletual, que costuma ser o debate mais habitual quando se fala de propriedade na rede, mas em avaliar a realidade efetiva da propriedade sobre a internet. Tratamos de avaliar o que é e nom o que deveria ser, cousa que, além do mais, os comunistas temos muito claro.

Assim as cousas, para desvendar quem é realmente que tem a propriedade, partiremos de considerar os elementos constitutivos da própria internet.

Assim, para dentro, achamos primeiro os milhons de máquinas computerizadas que fornecem acesso e capacidade de interagir na rede. Estas, é claro, na maioria dos casos som propriedade individual de cada umha das pessoas que as empregam; neste nível mais superficial, o efeito democratizador da rede de redes parece evidente, lamentavelmente nom passa de ser mais que umha aparência externa.

No seguinte degrau, a democracia e igualdade começa a se esbater rapidamente, já que a interligaçom entre mais dum computador, fora dum mesmo espaço físico, na absoluta maioria das ocasions, passa ineludivelmente pola compra a umha companhia privada dum ponto de acesso. Esta ideia pode ser contestada por aqueles que participam de iniciativas em redes wireless comunitárias, já que esta é umha forma de acesso que nom passa pola compra do serviço de ligaçom a umha empresa, mas é tam só até este segundo degrau que, por enquanto, pode chegar a suposta democratizaçom.

O terceiro degrau já é o da propriedade dos meios físicos polos quais circula e se armazena a informaçom, e aí temos que ter em conta que, sem dúvida, existem uns proprietários, ainda que só seja porque há alguém que repara os cabos que rompem, as torres que caem ou os servidores que se estragam. Deparamos entom com a propriedade das grandes empresas de telecomunicaçons e a dos Estados, que até agora nom parecem muito dispostos a ceder a propriedade, ou o que é o mesmo, o controlo sobre as infraestruturas básicas que permitem o funcionamento da internet.

Nom vamos aprofundar mais, pola falta de espaço que temos para desenvolver o tema mas, em todo o caso, nom é de mais mencionar que, para além do controlo e propriedade sobre os elementos materiais estruturais da rede de redes, temos que ter em conta também a capacidade que dumha forma “livre, horizontal e nom hierarquizada” poderíamos ter para construir computadores ou gerar eletricidade.

Resumindo o que até o de agora expugemos, poderíamos concluir que a internet tem uns donos efetivos que som os que tenhem a capacidade de a pôr em funcionamento, mas também de a desligar. Seria muito difícil, para nom dizer impossível, montar umha ferramenta equivalente de parámetros comunitários sem enfrentar antes questons mais básicas como a edificaçom de alternativas estatais revolucionárias que permitam luitar pola desapariçom dos direitos de propriedade dos atuais possuidores. Para provar isto, seria interesante que alguém começasse a estender cabo e criar umha rede de repetidores sem a autorizaçom do Estado, e ver o que se passava…

Mas a questom mais candente na atualidade nom se situa apenas na suposta dimensom democratizadora da informaçom da internet, entendida esta como simples ferramenta ténica, mas na própria virtualidade do emprego da internet como ferramenta organizativa.

Nos últimos meses, nos meios de comunicaçom convencionais, tenhem-nos repetido abundantemente o papel jogado polas redes sociais, como Facebook e Twitter, na organizaçom das revoltas populares nos países árabes. Se figéssemos caso às mais simplistas informaçons e análises, pareceria que é tam fácil tombar um governo como se unir a um grupo de “Senhoras que…”; porém, a realidade, que costuma ser mais complexa que as elucubraçons neo-progres dos tertulianos do La Sexta e a SER, parece querer demonstrar que umha cousa é favorecer a agitaçom e outra organizar umha revolta, nom digamos já umha revoluçom.

Nom seremos nós que neguemos a utilidade da rede para difundir convocatórias e propaganda, seríamos parvos e hipócritas se o figéssemos, já que fazemos uso dessa ferramenta. Mas também, partindo da nossa experiência, somos conscientes dos seus limites.

Para dar um exemplo suficientemente esclarecedor do fenómeno, gostávamos de recordar que, tanto na Tunísia como no Egito, em determinado momento, os governos depois derrocados suspendêrom o funcionamento de umha ou várias das redes físicas polas quais se podia aceder à internet, e apesar disso a revolta continuou avante. Mas também nom é de mais salientar que se no nosso contexto cultural o acesso à internet nom é universal, é bastante evidente que em países com níveis de renda muito inferiores ainda será menor o número de utentes dessa tecnologia.

Em resumo, que na hora de avaliar o sucedido nos países árabes (e deixando de parte o tratamento propagandístico que se dá à guerra na Líbia, que mereceria em si mesmo um estudo polo miúdo) a maior parte dos analistas dos media adotárom a posiçom do parvo daquele famoso provérbio chinês que di que “quando o sábio assinala a lua, o parvo olha para o dedo”.

É evidente que no sucedido na Tunísia, Egito, Iémen ou Síria a internet, e mais em concreto as redes sociais, pudérom ser umha ferramenta comunicativa através das quais se transmitírom as palavras de ordem e se chamou às mobilizaçons; mas fica fora de toda dúvida que por baixo funcionárom os clássicos mecanismos da organizaçom política popular com as suas assembleias, comités e grupos de açom direta nas ruas. Internet facilita a transmissom de informaçom, mas é necessária a confluência de muitos outros factores para que se leve avante a mais mínima açom política das massas.

Limitaçons da internet

De facto, a internet apresenta umha série de importantes eivas que podem funcionar como empecilhos na hora de formular a açom revolucionária. Eivas que curiosamente som ignoradas por grande parte dos propagandistas das supostas novas formas de organizaçom do ativismo social frente a modelos mais tradicionais.

Em primeiro lugar, queremos ressaltar a curiosa relaçom dialética entre anonimato e controlo das identidades que se estabelece na internet, e em especial nas chamadas redes sociais.

Assim, para quem se achegar a algumhas das novas iniciativas mobilizadoras que partem da rede, fica realmente difícil saber quem se situa por trás da sua organizaçom. Um blogue, um manifesto pendurado em várias páginas e um foro de debate som os supostos pontos de partida, nos quais nascem as novas formas organizativas “horizontais” e “democráticas”; porém, as mais das vezes é praticamente impossível saber qual é a origem primeira dessas dinámicas.

Parece bem curioso que quem demanda transparência frente à opacidade dos interesses políticos das organizaçons mais convencionais tenha tantas dificuldades para mostrar desde um primeiro momento quem é. Porque por muitas histórias sobre “formas de organizaçom difusas” e “horizontalidade” que se nos quigerem contar, o certo é que todo documento tem um redator primeiro, toda página web tem um proprietário e todo fórum tem um administrador.

Nom falta quem alegue que a manutençom da privacidade é umha ferramenta necessária para fugir da infiltraçom e do controlo policial e, perante esse argumento, nom podemos mais que surpreender-nos e escachar de rir.

Como bem lembramos ao começo deste artigo, a rede nom é apenas umha entidade difusa pola qual flui a informaçom entre diferentes pessoas que se ligam a ela. Muito polo contrário, é também umha realidade material conformada polos elementos físicos polos que circula a referida informaçom. Elementos físicos que tenhem uns proprietários e que som amplamente fiscalizados polas autoridades estatais e polas próprias empresas que os possuem.

Isto leva-nos a umha conclusom lógica: a opacidade das identidades na internet tam só afeta a relaçom existente entre os diferentes usuários da rede, mas nom na relaçom entre estes e os gestores e proprietários dos elementos físicos que a conformam.

Eu, como simples usuário, nom poderei conhecer quem está por trás da convocatória que se organiza a partir do blogue X, o fórum Y ou a rede social Z; mas ficai bem seguros que os estados e os seus aparelhos policiais saberám de onde se ligam os criadores e usuários de todas essas plataformas “anónimas” e mesmo quem som, quais som as suas preferências de navegaçom, o seu saldo na conta bancária e mil e um detalhes mais, facilmente rastejáveis por parte de quem tem o controlo e os meios para gerir o funcionamento da rede.

Tendo em conta isto, nom pode surpreender que haja quem desconfie das intençons de quem tem tanto interesse por ocultar a sua identidade diante de quem seria o seu igual numha organizaçom “democrática” e “horizontal”, quando sabemos que nom pode ocultar essa informaçom a quem supostamente deveria ser o seu inimigo.

Um segundo elemento a destacar é a falsa sensaçom de açom que invade quem participa em mil fóruns, secunda trescentos eventos no facebook e escreve em quatro ou cinco blogues sisudas análises; mas entretanto, na realidade material, nem dá participado das atividades dumha associaçom vicinal.

Este é um fenómeno que nom nasceu com a internet e que no passado recebeu o nome de “revolucionarismo de salom” -hoje talvez devêssemos chama-lo “ativismo de ecrám”- e que se carateriza por substituir a açom efetiva pola digressom literária ou discursiva em espaços cómodos.

E nom há nada tam cómodo como poder sentar-te na tua própria morada, ligar o computador e mergulhar numha realidade virtual (que portanto nom é realidade) na qual a má consciência acha acobilho em compartilhar inquietaçons com dúzias, centenas ou mesmo milhares de pessoas como ti, mas sem fazer absolutamente nada efetivo para transformar essa realidade que abominas.

O terceiro ponto, e já final, que devemos ter em conta como eiva fundamental tem a ver com o já exposto relativamente à propriedade efetiva da internet.

Assumamos que numha hipotética situaçom se desse o caso que umha destas iniciativas partidas da rede atingisse um sucesso efetivo. Isto é, que partindo da coordenaçom pola internet se articulasse um movimento social de corte revolucionário que enfrentasse o sistema de forma radical.

A pergunta nom pode ser outra que formular que se passaria se o Estado, como resposta, exercesse a sua capacidade efetiva para bloquear o funcionamento da rede.

A resposta é evidentemente ainda mais óbvia. Haveria que buscar ferramentas alternativas que permitissem manter a comunicaçom oferecendo umha menor fragilidade a sua intercetaçom e boicote; ou o que é o mesmo, haveria que recorrer as ferramentas clássicas da organizaçom sócio-política já que a internet ficaria inutilizada. Como bem sabem @s amig@s tunesin@s e egíci@s.

Conclusons

À luz do que expugemos até agora, as conclusons que deveríamos tirar sobre a utilidade da internet para a açom política revolucionária som as seguintes:

A rede é umha ferramenta comunicativa de primeira ordem que devemos utilizar dumha forma efetiva, consoante os nossos interesses. Do mesmo jeito que publicamos vozeiros ou organizamos palestras e outro tipo de atos públicos para difundir as nossas mensagens, devemos recorrer à rede de redes para expandir ainda mais as nossas atividades.

Porém, nom podemos cair na armadilha de pensar que com estar na rede chega, nem muito menos. Do mesmo jeito que por muitos milhares de panfletos que publiquemos ou centenas de palestras que organizemos, afinal o que conta é organizar milhares de pessoas dispostas a tomar as rendas da sociedade em que vivem e isso nom se fai só com palavras, embora estas tenham a sua importáncia.

Aliás, a paranoia sobre a questom da privacidade e o anonimato na rede tem que ser avaliada na sua justa medida. Temos que assumir que se queremos expor a nossa existência neste meio existem uns limites que nom há que transbordar, daí que todo aquilo que nom quigermos partilhar tenha que ficar diretamente fora da internet e nom confiar em chaves ou pseudónimos, que tam só podem ocultar-nos diante de outros que som como nós, mas nom diante dos proprietários da rede.

Finalmente, nom podemos em nengum momento confiar a nossa existência a uns meios ténicos que nem possuímos, nem controlamos e, em muitas ocasions, mesmo nom entendemos muito bem como funcionam. Fazendo umha analogia histórica, deveríamos entender que as ferramentas informáticas cumprem hoje um papel semelhante ao que noutros tempos cumprírom os meios gráficos convencionais. Assim, as experiências muito próximas de como as organizaçons revolucionárias do passado tivérom que superar as limitaçons para a publicaçom dos seus documentos e propaganda: com imprensas clandestinas, as dificuldades para conseguir papel ou tinta, etc… tenhem-nos que fazer refletir em como poderíamos superar umha situaçom na qual o acesso à internet fosse restringido.

Muitas mais cousas poderíamos avaliar em relaçom ao que rodeia estes movimentos sociais que estám a erguer a internet como “fetiche” nas suas dinámicas organizativas. Praticamente nom dixemos nada sobre as ideias do apoliticismo, as críticas às formas “convencionais” de organizaçom, o pacifismo, a conceçom de democracia, as contradiçons ou ausência dos seus programas políticos, a amabilidade com que som tratados polos media sistémicos ou ao obscurantismo que rodeia os seus núcleos dirigentes. Ponto especialmente destacado este último, já que na maioria das ocasions mesmo negam a existência de tais núcleos de direçom, embora existam evidências que assinalam numha direçom determinada. Mas acabamos o espaço de que dispomos, por isso deixaremos essas questons para futuras análises.

Simplesmente, remarquemos a ideia de que a nossa capacidade crítica deve estar alerta diante de quem oferece soluçons milagreiras a problemas que som extraordinariamente complexos, e transformar umha sociedade injusta numha outra mais justa é possivelmente um dos problema mais complexos a que se pode enfrentar a humanidade.

André Seoane Antelo forma parte do Comité Central de Primeira Linha