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O Piloto, luitador audaz, rebelde

Quarta-feira, 28 Setembro 2011

Ramiro Vidal Alvarinho

 Na minha infáncia, eu estava fascinado por personagens como Robin Hood, aquele bom bandido que tinha as fragas como fogar e que roubava aos ricos para valer aos pobres. Dos guerrilheiros galegos costuma-se dizer, sobre todo por parte de quem pretende deostá-los, que eram em realidade simples bandoleiros, delinquentes comuns que roubavam e atracavam sem horizonte político nengum e apenas para benefício próprio, e que adoptavam tal estilo de vida por simples comodidade.

Eu nom acredito em tais afirmaçons, nom acredito nessas versons que falam do Foucelhas como de um “pilha-galinhas” ou do Piloto como de um sanguinário assaltador de casas e caminhos que praticamente matava por prazer.

O Piloto para mim é um símbolo dessa Galiza que nos ocultam; umha Galiza rebelde que se levantava contra as injustiças, que nom se resignava ante as agressons que o poder daqueles anos lhe infringia.

A lenda do Piloto começou na manhá do dez de março de 1965, nada menos que vinte e seis anos depois de oficialmente ter acabado a guerra civil espanhola. Nesse dia, e graças à delaçom de um vizinho que observara os movimentos do Piloto nas proximidades da barragem de Belesar, a Guarda Civil organizou um dispositivo para dar-lhe caça ao temido guerrilheiro.

Cercarom-no quando se encontrava a comer pam com chouriço à beira do regato do Facheiro ou das Andorinhas. Ainda que na crónica oferecida ao dia seguinte no jornal El Progreso fazia-se eco do parte da Guarda Civil, no que se afirma que os agentes do corpo repressivo disparárom sobre ele depois de o “forajido” ter desouvido as cominaçons a entregar-se por parte do chefe do operativo, testemunhas do que aconteceu asseguram que só se escuitou um apelo à rendiçom depois de que os uniformados descarregaram quatro disparos que fôrom parar à cabeça e ao ventre do Piloto.

José Castro Veiga, militante do PCE, antigo aviador do exército republicano espanhol, guerrilheiro, fora selvagem e covardemente assassinado por efetivos da Guarda Civil, sem opçom a render-se, fogir ou defender-se. Punha-se fim à vida de um rebelde por vocaçom, e, sem queré-lo, ajudárom ao nascimento de um mito.

 A imagem do capitám de Monforte a dar pontapés no cadáver do Piloto e a berrar “Agora apanhei-te, porco comunista!” é a síntese do que realmente significou a figura de José Castro Veiga, à margem de que evidentemente sempre haverá interessados em incidir na sua condiçom de “bandoleiro”, para disipar qualquer traço de luita política na sua atitude.

Sem dúvida o facto de viver à margem da lei obrigava ao Piloto a conseguir dinheiro por métodos que obviamente nom eram legais. Segundo a sua companheira Ramona Curto, O Piloto costumava a tirar-lhe cartos a gente do sistema, a colaboradores com o regime fascista de Franco e, além disso, muitas vezes dava dinheiro a vizinhos necessitados.

O que está claro é que, se estamos a falar de alguém que resistiu no monte desde 1946   -ano no que regressa à Galiza tras sofrer prisom em Madrid, precisamente pola sua adesom à República- até 1965, e se esta pessoa ainda é recordada e homenageada espontaneamente por vizinhos e vizinhas do lugar onde está enterrado (Sam Fiz) isto será porque nom todo o mundo via a José Castro Veiga como um malfeitor.

Um comunista é, sem dúvida, alguém que ama intensamente a humanidade, e a rebeldia de José Castro Veiga é um exemplo de amor polo povo e pola terra, um exemplo inequívoco de insubmissom convencida e consequente ao estado franquista.

Nom quijo abandonar a resistência armada quando o partido deu a guerra por perdida e ordenou aos seus militantes depôr as armas. Também rejeitou a possibilidade de fogir à França, como figerom muitos camaradas seus. Continuou a sua resistência em solitário ainda que conservando parte da rede de apoios e simpatias que tivo a guerrilha enquanto ela existiu, porque quem o conhecia sabia que O Piloto nom era um malandro qualquer, mas um amigo dos débiles, dos desherdados, dos filhos do trabalho.

Mas era evidente que à partir da derrota militar oficialmente reconhecida pola direçom do PCE, a resistência do Piloto inevitavelmente se convertiria na peripécia de um indivíduo no fio da cortante navalha da Espanha franquista, desafiando em solitário aos esbirros do regime e à sua rede de delatores. Talvez o Piloto tinha assomido que o seu final seria trágico e violento, e preferiu aguardar essa morte desafiando-a cada dia, batendo com contundência ao inimigo. Provavelmente pensou que seria mais digno morrer assim do que entregar-se e expor-se à vil tortura, à prisom infame e à execuçom praticamente segura.

Na manhá do dez de março de 65, no regato das Andorinhas, dous amedonhados membros da Guarda Civil derom-lhe chumbo sem prévio aviso ao corpo do Piloto…a José Castro Veiga tirarom-lhe a vida, ao povo galego derom-lhe um ícone, um referente, um herói.

Asseguram aqueles que viram o lance, que os uniformados disparárom antes de exigir-lhe a rendiçom ao Piloto, porque se se chegam a dirigir a ele antes de disparar, o guerrilheiro apanharia a sua ametralhadora e os guardas nom teriam oportunidade nengumha.

Houvo que empregar más artes para por fim poder ganhar-lhe umha batalha a aquele homem tam conhecedor daqueles caminhos e montes, e tam excelente tirador que mesmo a Guarda Civil lhe tinha verdadeiro pánico.

Se o Piloto fosse norteamericano a sua vida seria levada ao celuloide, sem dúvida nengumha. Mesmo se fosse andaluz ou castelhano, seguramente a sua trajetória seria tema para livros, filmes ou documentários em grande quantidade. Mas isto aconteceu na Galiza e, inclusso para muita gente pretendidamente progressista, na Galiza nom houvo resistência armada, Galiza foi franquista desde o mesmíssimo dia do “Alzamiento”.

Precisamente O Piloto, derradeiro fogido abatido polo aparelho repressivo franquista, é a negaçom desse dogma que sustentam rigidamente os espanholistas mais furibundos, tanto os de direita como os de esquerda.

Ao Piloto já nom o vam derrotar nunca…matarom-no numha emboscada, mas ele e a sua ametralhadora justiceira, terror dos exploradores, dos delatores, dos reaccionários seguem a percorrer os montes e os caminhos na memória da Galiza mais rebelde, essa que recorda aos seus filhos mais dignos.

Saúde, Camarada José Castro Veiga.