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Precisamos poder

Segunda-feira, 26 Setembro 2011

Iñaki Gil de San Vicente

Entre milhares de notícias idênticas, quatro muito recentes enfrentam-nos ao problema do poder. Umha, o FMI exige à burguesia grega que condene ao desemprego a 100.000 trabalhadores mais. Duas, a transnacional Renault adverte a Japom que pode deslocalizar a sua empresa em Yokohama se nom toma medidas para conter a revalorizaçom do iene com respeito ao dólar e ao euro. Três, os Estados Unidos saem umha vez mais em defesa de Israel e na contramao do direito palestiniano ao seu próprio Estado. E quatro, euroalemania aplaude à burguesia espanhola polo golpe constitucional que amputa ainda mais as raquíticas liberdades e direitos ainda sobreviventes. As quatro tenhem relacionamentos diretas e indiretas com Euskal Herria, fam referência ao papel dos Estados, às grandes corporaçon transnacionais, às agências imperialistas que defendem os interesses do capital financeiro e à funçom do medo e da violência na política assim que economia concentrada. Em síntese tratam sobre a dialética entre o poder do capital e a exploraçom dos povos sem poder próprio.

Escolhemos estes exemplos nom só porque som recentes senom porque proponhem problemas que em aparência se movem na estratosfera da alta política, mas que em realidade bulem na materialidade da vida quotidiana dos povos esmagados. Por embaixo dessas grandes notícias agitam-se as resistências e os debates por melhorar as formas de organizaçom das gentes. O povo palestiniano, dividido e esmagado, tivo que experimentar todas as formas organizativas possíveis, e o povo grego recordou em pouco tempo as formas de auto-organizaçom com as que resistiu aos nazistas e aos britânicos. A classe operária do Estado francês sustentou greves vibrantes em 2010 enquanto as grandes empresas da sua burguesia saqueavam o mundo, e no Estado espanhol a debilidade histórica das esquerdas dificulta a descolagem das resistências, enquanto as naçons oprimidas caminhamos por diante.

Ao longo destas e outras práticas muito anteriores aprecia-se umha dinâmica de avanço instável e inseguro, oscilante, com retrocessos e derrotas, que pode ir do contra-poder ao poder popular e ao Estado operário passando polo duplo poder. Falamos de umha dinâmica histórica que nos seus embrions aparece já na auto-organizaçom clandestina dos trabalhadores ingleses desde finais do século XVIII, com a sua auto-organizaçom, solidariedade e ajuda mútua, marchas, manifestaçons, greves e sabotagens. Um século depois, desde finais do XIX, a mesma dinâmica começará a estender-se por Hego Euskal Herria conforme avança a industrializaçom. E o mesmo acontecerá, mas a umha escala qualitativamente superior e mais rica a partir de finais da década de 1950 com o início do processo que culminará com a fusom do independentismo com o socialismo.

Um coletivo operário que se organiza para legalizar umha assembleia, umha associaçom de vizinhos, um grupo de estudantes, um coletivo feminista que consegue que se julgue a um agressor, umha câmara municipal que passa a maos do povo, etc., som práticas de contra-poder porque conseguirom assentar umha força classista, popular, social, vizinhal, de sexo-género, que, no seu campo de açom, detém um fechamento de empresa, umha urbanizaçom irracional ou qualquer outro ataque do poder dominante; ou ao menos condiciona-o fortemente. E tanto mais som um contra-poder na medida em que a sua açom se insere em umha estratégia independentista, de fortalecimento da identidade e língua basca.

Mas pola mesma natureza da política como economia concentrada que em última instância depende do Estado ocupante, por isto, o contra-poder nunca é estável porque é imediatamente combatido, submetido a toda a série de pressons. Um contra-poder que se apalanque à defensiva dura pouco, começa a desanimar-se se nom consegue mais conquistas. A luita ofensiva é a vida do contra-poder e isso fai com que, se quer existir, tem de dar o salto ao duplo poder. Nom há outra alternativa à luz da experiência histórica, e por tanto da teoria.

Da mesma forma em que todo contra-poder que se detém no seu avanço começa a se debilitar e, mais cedo que tarde, a retroceder, o mesmo lhe acontece mas a escala mais ampla e rápida às situaçons de dupla poder. Um contra-poder estável, por agora, som as câmaras municipais e outras instituiçons “superiores”, e podem e devem constituir-se em duplo poder graças à sua capacidade pedagógica, concienciadora, de planejamento democrática, etc., mas chocarám com mais e mais resistências desde o Estado espanhol e os seus peons autótonos.

O duplo poder caracteriza-se pola sua capacidade de derrotar planos importantes do poder opresor, desde urbanísticos até sociais, culturais, linguísticos, ecológicos e inclusive, e sobretodo para ativar vias socio-económicas muito progressistas que podem, se se quisesse fazer, começar a minar algumhas bases da propriedade privada e da força repressiva do Estado. Por exemplo, cooperativismo popular, de produçom e consumo, recuperaçom pública de empresas e de bens comuns, redes de intercâmbio justo interno e internacional, economia solidária e empréstimos sem interesse, bancos de tempo, jazigos de trabalho social, segurança coletiva democrática, luita em massa pola amnistia, etc. Mas estas vias devem assentar-se em umha crescente mobilizaçom política de massas na que o povo trabalhador seja a força diretora, e dentro deste a classe operária. Se o duplo poder nom avança, retrocede.

Falamos da dialética entre reforma e revoluçom, programa mínimo e programa máximo, auto-governo tolerado e independência socialista. Em um capitalismo em crise, nada disto se deve fazer sem um programa de integraçom do mau chamadas “classes médias” e da pequena e média burguesia, a diferentes níveis obviamente, mas se deve fazer. Nom é um debate novo na história política, remonta-se, no mínimo, à revisom crítica dos erros cometidos polas forças revolucionárias em 1848-1849. O capital aprendeu da Igreja a manipular as consciências e a dirigir a estrutura psíquica de faixas sociais e classes intermédias para a obediência à “figura do Amo”. É certo que a opressom nacional dificulta a tendência latente para o autoritarismo, presidencialismo e fascismo, reserva reaccionária que dorme como um vírus no inconsciente de massas. Mas a consciência nacional nom é umha vacina perfeita, precisa de umha praxe estratégica que alumie sempre os objetivos irrenunciáveis. Por isto, é vital seguir avançando do duplo poder ao poder popular, ao Estado basco insiro na República Socialista Basca. O duplo poder extingue-se ou é afogado em sangue se nom avança ao poder estatal, popular.

Compreendemos agora melhor o significado prático e imediato das quatro notícias com as que iniciávamos este artigo. A necessidade de um Estado é inegável para as naçons oprimidas se queremos sobreviver na mundializaçom capitalista. Inclusive os povos formalmente soberanos precisam recuperar a independência económica que as suas burguesías entregarom ao imperialismo, e neste contexto todo o Estado que queira defender ao seu povo tem de avançar ao socialismo com o poder popular e a solidariedade internacionalista. Nom há outra alternativa, caso contrário será engolido pola desnacionalizaçom inerente à expansom do capital e re-nacionalizados, subsumidos, nas novas formas ideológicas e culturais criadas polas re-ordenaçons imperialistas que estám a ter lugar. Sem um Estado basco, seremos umha regiom inserido em um protetorado económico com forma de Estado periférico da Uniom Européia.

Euskal Herria, 21 de setembro de 2011