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Crise e Revoluçom

Quinta-feira, 16 Abril 2009Um Comentário

André Seoane Antelo

É bem curioso comprovar como as supostas verdades inamovíveis do pensamento único abalam nos últimos tempos sob a vigoroso força da realidade material. Nom há muito, apenas umha década, o neoliberalismo rampante impunha o seu discurso por toda a parte sem que ninguém dos que o sistema considera “alguém”, é claro, ousasse contradizer o desenho de um capitalismo triunfante em perpétua expansom.

Poucas eram as vozes que se atreviam a questionar a deriva suicida do desenvolvimento económico, capitaneado polo imperativo da acumulaçom e reproduçom do capital fosse como fosse. E essas poucas eram oportunamente silenciadas ao ser-lhes negada a legitimidade das grandes palestras académicas e o acesso aos altifalantes mediáticos.

Porém, nos últimos dous anos a cousa tem mudado um chisco. A implosom do sistema financeiro mundial demonstrou o que o marxismo leva mais de século e meio a dizer. Assim as cousas, finalmente a cousa deu em que, mais umha vez, o modo de produçom capitalista revelou as suas fraquezas e, a um período de desenvolvimento, véu seguir-se um outro de crise.

E insistimos na ideia: mais umha vez o capitalismo a nível mundial atravessa umha crise. Crise que era facilmente previsível, se nom nos seus traços mais concretos, sim nas suas definiçons mais grossas.

Qualquer observador minimamente atento podia enxergar quais eram os elos fracos do modelo concreto de capitalismo que se achava no seu apogeu nos anos finais do século XX, elos que supunham o seu principal factor de risco, e polos quais, evidentemente, começou a sua queda.

Assim, a crise desta primeira década do século XXI tivo a sua origem, ou por melhor dizer, o seu factor detonante, nos fundos financeiros ligados à indústria imobiliária. Porém, o problema nom findou aí. A queda de um sector do mercado financeiro na América do Norte arrastou boa parte do sistema financeiro mundial, demonstrando mais umha vez até que ponto chegou a interligaçom entre as economias no sistema global. E, por trás do sistema financeiro, caiu também a economia produtiva, que como era bem sabido por alguns, e agora já é por todos, estava intimamente ligada e numha relaçom de dependência com o que noutros tempos era definido como o “capital usurário”.

Esta cadeia de quedas, facilmente previsíveis, ainda nom atingiu o seu patamar inferior. Daí que seja prematuro alviscar até que grau de ruína é que ficará reduzida a economia mundial, mas, e apesar das mais optimistas visons que de certos sectores da esquerda mundial estám a ser propostas, nom parece que o capitalismo vaia desaparecer no imediato.

O mito do desenvolvimento sem fim tornou a cair

Di a sabedoria popular que o ser humano é o único animal que tropeça mais de umha vez na mesma pedra. Polo que toca as pedras, nom sei muito bem qual é o número exacto de vezes que é preciso bater para aprender a esquivá-las ou para tomar a iniciativa de as arredar do caminho; mas no referente às instituiçons sociais é mais que evidente que fai falta um número elevadíssimo de repetiçons para que a nossa espécie tome nota do erro e interiorize a necessidade de mudá-las.

Ao longo da história, som inumeráveis os exemplos de como instituiçons ou sistemas sociais completos atravessárom crises de longuíssima duraçom antes de serem substituídos por outros que se adaptasem melhor às novas condiçons.

Para o caso concreto do capitalismo, esta afirmaçom é plenamente válida. Até esta altura, o modo de produçom capitalista tem atravessado umha multidom de crises de diferente intensidade, que demonstrárom quais som as suas principais eivas, mas às quais nom se seguiu umha superaçom do sistema na sua totalidade, mas apenas a aplicaçom de reformas que lhe permitírom subsistir até a actualidade.

Porém, ainda que a existência de crises cíclicas no modo de produçom capitalista seja um facto rigorosamente estudado e empiricamente demonstrado, a ideologia dominante continua a apresentar-nos a ideia de um desenvolvimento progressivo e linear polo qual, supostamente, o capitalismo permitiria atingir num futuro o bem-estar de toda a humanidade.

Esta visom, absolutamente falsa, contém dous erros grossos. O primeiro deles é o de insistir na ideia de linearidade do progresso da humanidade, ignorando conscientemente a existência de avanços e retrocessos no devir histórico.
O segundo, é o de apresentar o capitalismo como umha ferramenta que busca o bem-estar da humanidade, quando na verdade a motivaçom dinámica deste modo de produçom nom é mais que a reproduçom alargada do próprio capital por qualquer meio.

A incompreensom destes dous erros está na raiz do tremendismo com que alguns analisam a actual crise.
Quem até anteontem acreditava com devoçom na absoluta infabilidade do sistema económico capitalista, hoje vê-se confrontado com um panorama que lhe deve parecer aterrador. Mas nom nos poderá surprender que amanhá, quando o sistema consiga rearticular um modo de se reconfigurar e comece umha nova fase de reponte, voltem a esquecer onde estava a pedra.

A falácia do mercado livre

Nom há muito tempo, lá pola década de 90 do passado século, atrever-se a fazer umha declaraçom pública de marxismo era um convite aberto a ser o alvo das burlas de qualquer pessoa “assisada”.

O neoliberalismo rampante cavalgava sobre os cascalhos do muro de Berlim e estendia a sua verdade por todo o mundo. O mercado convertia-se no fetiche intocável diante do que se tinham que postrar estados e povos inteiros.
O mercado livre todo o amanhava, o mercado livre todo o podia, e ninguém podia questionar a infalibilidade do todopoderoso mercado. Ai de quem ousasse blasfemar mentando palavras tais como intervençom ou regulaçom!

Porém, já na altura havia vozes que anunciavam a queda do paraíso. A idade dourada do neoliberalismo nom podia durar para sempre, e após um período de expansom era evidente que chegaria a crise. Umha crise que se anunciava especialmente forte ao estar-se construindo um modelo de crescimento alicerçado no nada, ou na quase nada que é a economia especulativa.

As grandes empresas engordavam os seus benefícios caindo numha espiral de operaçons financeiras que multiplicavam, como se de um milagre se tratasse, o capital ao seu dispor. Mas a bolha tinha que vir a explodir. O desfasamento entre a economia produtiva e a financeira nom anunciava nada de bom, e finalmente aconteceu o inevitável.

Curiosamente, os mesmos que até o momento clamavam pola absoluta liberdade do mercado forom os que já desde o primeiro momento chamarom pola necessária intervençom dos estados para salvar as economias em crise. Entendendo, claro está, que essa ajuda deveria dirigir-se directamente a salvar em primeiro lugar aos grandes bancos e as empresas afectadas pola debacle financeira. Assim som os dogmas da ideologia neoliberal!

A extinçom do capitalismo

A ruina do sistema capitalista aparece agora como umha realidade palpável, mas seria dum infantilismo absurdo acreditar que vai desaparecer sem que exista umha alternativa. Ou melhor dito, sem que um sistema alternativo teime em derrubá-lo.

É certo que a actual crise apresenta umhas características especiais que permitem adivinhar os limites reais das possibilidades de desenvolvimento máximas que o capitalismo pudo ofertar à sociedade humana.
Nom se trata, como no passado, de umha simples crise de sobreproduçom. Desta vez, para além da sobreproduçom como problema, aparecem de jeito combinado outros factores como os limites materiais que suponhem o esgotamento dos recursos energéticos.

Além do mais, até este momento o capitalismo tinha arranjado maneira de conseguir superar o défice no consumo de mercadorias, alargando a sua área de influência. Mas agora que o globo fai na sua totalidade parte do mercado capitalista, nom há lugar onde conquistar novos mercados.

Torna especialmente curioso, sobretodo polo que nos afecta a nós como integrantes da parte favorecida pola desigual repartiçom da riqueza no mundo, como a fugida para a frente das empresas na hora de reduzir custos supujo a apariçom de um problema novo.

Se a começos do século XX o capital conseguiu superar parte do problema do subconsumo fazendo partícipe de umha parte da mais-valia explorada na periferia do sistema sectores das camadas populares das sociedades do centro do sistema-mundo; na actualidade, o processo está a ser torpedeado por umha outra ferramenta que o capital pujo em andamento para reduzir a queda da taxa de ganho.

As deslocalizaçons das actividades produtivas das grandes empresas para espaços onde o custo da mao de obra é muito menor que nos países do centro, trouxo num primeiro momento um aumento do lucro, mas tivo como efeito de rebote a queda da capacidade aquisitiva de amplos sectores da classe operária dos paises ocidentais, o que por sua vez repercutiu negativamente no interesse das grandes empresas.

As deslocalizaçons supugérom umha descida no nivel aquisitivo das camadas populares do mundo ocidental, camadas sociais que som as principais consumidoras dos produtos produzidos por essas mesmas empresas.

Contodo, embora pareça atinado afirmar que com esta crise o capitalismo tocou definitivamente o seu fundo, nom podemos cair no erro de acreditar numha rápida e milagreira desapariçom. Polo que sabemos, os sistemas sociais costumam ter umha morte agónica de longa duraçom.

O triunfalismo presente neste momento nalguns discursos da esquerda mundial que anunciam a morte do capital é um erro. O capitalismo nom se vai extinguir por si só: terá que morrer de morte matada.

Possivelmente nom passe mais de umha década sem voltarmos a passar por umha recuperaçom económica, que embora nom vaia poder atingir os níveis de desenvolvimento do século XX, sim servirá para dar novos fôlegos a um sistema tocado de morte, mas ainda disposto a agüentar um tempo longo.

Nessa tessitura, a opçom que @s comunistas devemos defender é a de continuarmos a bater no inimigo e organizar a nossa alternativa. Devemos estar preparados para que das ruínas do capitalismo nom surja algo inclusive pior do que já conhecemos.

Texto publicado no número 51 de Abrente