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A chamada de Londres entre as lapas

Terça-feira, 16 Agosto 2011

Ramiro Vidal Alvarinho

O mundo está escandalizado; na Europa democrática, civilizada, opulenta, desenvolvida, alguém decidiu quebrar as regras do jogo e romper montras, deitar contentores, queimar carros, roubar tecnologia e roupa de marca nas lojas… violência gratuita, nihilista, amoral, desideologizada, ou se calhar nom tanto.

Todo começou em Tottemham, com a morte de um jovem negro sob fogo da polícia. Esse foi o facto que desencadeou a ira juvenil naquele bairro londrino, umha ira que se materializou em distúrbios, em destroço de mobiliário urbano, em confrontos com a polícia. Estes distúrbios trascendêrom o bairro de Tottemham e estendêrom-se polos bairros operários da capital británica, e daí a outras cidades da Inglaterra. É um facto indignante para os gestores políticos e a oligarquia económica do regime. Se estes distúrbios se produzissem no mundo árabe, seriam a expressom da ira popular frente às injustiças de um regime autoritário; na democracia burguesa, que é a única que eles concebem, isto é um problema de vandalismo e pilhagem que denota umha crise de valores e autoridade, e que justificará um aumento de recursos e dinheiro destinados à repressom.

Mas evidentemente, a luita de classes (o fantasma inomeável) toca à porta de novo. Nom porque os protagonistas diretos da revolta que se está a dar nos bairros operários de Inglaterra sejam indivíduos superideologizados com um grau de consciência superior. Provavelmente nem sequer poriam o carimbo de luita de classes ao que eles estám a protagonizar (polo menos a maioria deles). É umha expressom da contradiçom de classe porque quem protagoniza estes distúrbios maioritariamente som jovens desempregados, com poucos recursos e marginalizados. Fartos de serem excluídos, discriminados, reprimidos. E naturalmente, quando essa situaçom se agudiza num contexto de crise económica e cortes sociais (isto até os media do sistema o reconhecêrom como fator decisivo) sempre aparecerá um facto desencadeante (neste caso a morte em circunstáncias nada claras de um jovem negro em Tottemham) que faga saltar a faísca da revolta. Claro que há questionamento da autoridade e da ordem, mas esse questionamento é correlativo ao crescente mal-estar que desencadeia os distúrbios. Nada a ver, naturalmente, com a desorientada e castrada “Spanish Revolution”, protagonizada por setores que tenhem mesmo interesses contrapostos e que vam ser incapazes de consensualizar um rumo concreto para o seu amorfo movimento. Aqui a entrada em conflito com a classe média foi automática: a apariçom de patrulhas de “autodefesa”, naturalmente capitaneadas polos empresários hoteleiros e os comerciantes.

Mesmo num canal espanhol de televisom vim o outro dia umha reportagem fazendo um paralelismo entre a rebeldia dos anos da New Wave, com a entrada em cena do movimento punk como resposta a essa época de brutal regressom social que foi o thatcherismo e o que se está a viver nestes dias no mesmo cenário mas trinta e tal anos depois. A finais dos anos setenta e começos dos oitenta, aquele hino incendiário interpretado por The Clash “Londres a chamar aos povos longíquos, Londres a chamar aos infernos” ou o iconoclasta “God save the Queen” dos Sex Pistols “Deus salve a Raínha e o seu regime fascista” punham trilha sonora à rebeldia de umha juventude farta de umha moral decadente, farta de pagar a fatura da crise económica… hoje a música de fundo será outra, o espírito será o mesmo.

Haverá quem pretenda desqualificar a revolta, porque quem a protagoniza nom rouba arroz, leite ou maçás e sim rouba calças, casacos, televisores ou aparelhagens de música. Evidentemente isto nom é Honduras nem a Tunísia. A revolta nom é por fame física, a revolta é pola angústia abafante da exclusom social. É lógico pois que se ataque aos maiores símbolos do sistema de produçom, ainda que seja de maneira inconsciente. Que cousas som as que marcam as diferenças sociais de maneira mais evidente numha sociedade como a inglesa? Arrassar os templos do consumismo e levar consigo os seus ícones como botim, para expropriá-los ou destruí-los, é na minha opiniom umha boa prática revolucionária. Queimar um carro, bem apreciado e chave no sistema de produçom ao ponto que marca parámetros de bem-estar e mesmo a diferença entre a possibilidade de aceder a um posto de trabalho ou nom, fai muito sentido. Roubar um ecrám plano, como denúncia de certas fronteiras interesseiramente obviadas em tempos de paz social, mas inequivocamente traçadas, também.