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Colômbia: pilhagem, esperança e paz

Terça-feira, 16 Agosto 2011

James Petras

Vivemos tempos de grande destruiçom e de grandes oportunidades económicas. A América Latina nom é excepçom. No contexto global, o Império estado-unidense está empenhado em guerras destrutivas (Afeganistám, Iraque, Paquistám, Líbia, Iémen, Somália e Haiti). Em contraste, a China, Índia, Brasil, Argentina e outras “economias emergentes” estám a expandir comércio, investimentos e reduzir pobreza. A Uniom Europeia (UE) e os Estados Unidos (EUA) estám em crises económicas profundas. A periferia da UE (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha) está totalmente em bancarrota. As “dependências” dos EUA na América do Norte (México), América Central e Caribe som narco-estados virtuais praguejados pola pobreza em massa, taxa de crime astronómicas e estagnaçom económica. As dependências dos EUA som pilhadas por multinacionais, oligarcas locais e políticos corruptos.

A Colômbia posiciona-se em encruzilhadas: ela pode seguir as pegadas do seu antecessor, o narco-presidente Álvaro Uribe, e permanecer umha dependência militar, um solitário posto avançado do Império estado-unidense na América do Sul. A Colômbia pode permanecer à margem da maior parte dos mercados mundiais dinâmicos e em guerra com o seu povo ou, através de umha nova liderança sócio-política, pode efectuar umha reorientaçom profunda de política e consumhar umha transiçom rumo a maior integraçom com os mercados dinâmicos do mundo.

A Colômbia tem todos os ingredientes objectivos (recursos materiais e humanos) para ser parte da nova ordem dinâmica. Mas primeiro e acima de todo ela deve abandonar seu papel como vassalo militarizados dos Estados Unidos e objecto de exploraçom de umha oligarquia rentista. A Colômbia deve deixar de apoiar golpes dos EUA (Honduras, Venezuela) e de ameaçar seus vizinhos (Equador).

A Colômbia nom pode desenvolver as suas forças produtivas e financiar a modernizaçom da educaçom superior e melhoria de treino técnico e [ao mesmo tempo] gastar milhares de milhons com as centenas de milhares de militares, paramilitares, polícias e operativos de inteligência. O aparelho repressivo militar está orientado para a repressom dos sectores da força de trabalho mais produtivos, criativos e motivados. A prosperidade depende da paz civil a qual depende da profunda desmilitarizaçom do estado colombiano. A conexom entre a economia e o pode militar é clara. A China gasta um décimo do orçamento militar dos EUA mas cresce cinco vezes mais rápido. A política externa independente do Brasil e o realinhamento com o mercado asiático levou a um alto crescimento, ao passo que o México, como um satélite do North American Free Trade Treaty, é um estado estagnado e fracassado.

Desmilitarizaçom: as especificidades da Colômbia
A Colômbia é a sociedade mais militarizada da América Latina, com o mais elevado número de vítimas na sociedade civil. O “militarismo” na Colômbia inclui a maior força militar activa operacional dentro das fronteiras do estado e ser o maior recipiente de financiamento militar da maior potência militarista do mundo. Como cliente subordinado do Império estado-unidense, a Colômbia tem o pior registo de direitos humanos, no que se refere a mortes de jornalistas, sindicalistas, activistas camponeses e advogados de direitos humanos.

Contodo, a violência estatal e para-estatal nom é aleatória. Mais de 4 milhons de agricultores, camponeses e intermediários rurais forom expulsos à força e a suas terras forom tomadas por grandes latifundiários, narco-traficantes, generais e homens de negócio aliados ao governo. Por outras palavras, o Estado terrorista e a expulsom em massa é um método peculiarmente colombiano de “acumulaçom de capital”. A violência do Estado é o método para assegurar os meios de produçom para aumentar agro-exportaçons a expensas de famílias de agricultores.

Na Colômbia, o extermínio estatal e para-estatal substitui o mercado e “relaçons contratuais” no cumprimento de transacçons económicas. As relaçons desiguais entre um estado militarista e movimentos populares da sociedade civil tenhem sido o principal obstáculo a umha transiçom de um regime político oligárquico para um sistema eleitoral democrático e pluralisticamente representativo.

A Colômbia combina formas de representaçom da elite do século XIX com meios de repressom militar altamente desenvolvidos do século XXI: um caso de desenvolvimento desigual e combinado. Em consequência deparamo-nos com “crescimento desequilibrado”, um aparelho militar, policial e paramilitar super-desenvolvido e subdesenvolvidas instituiçons sociais e políticas dispostas e capazes de entrar em negociaçons através da reciprocidade e dos compromissos dentro de umha estrutura cívica.

A cultura do estado de “guerra permanente” mina as condiçons de confiança e reciprocidade e levanta riscos inaceitáveis para quaisquer interlocutores sociais e políticos.

Dentro do estado militarizado – especialmente devido às suas ligaçons profundamente enraizadas a instituiçons militares regionais dos EUA – apenas “negociaçons” que reforçam a actual ordem sócio-económica e disposiçom política institucional som aceitáveis. Mesmo reconhecidos “mediadores da paz” empenham-se em “negociaçons” só com um lado exigindo concessons unilaterais de insurgentes e raramente fam exigência de concessons recíprocas do Estado.

A maior parte dos países latino-americanos que passarom por transiçons do domínio ditatorial para a política eleitoral respeitou os oponentes. Só a Colômbia assassinou toda a liderança política e os activistas – da Uniom Patriótica – que se converterom da luita armada para a luita eleitoral. Nengumha outra oposiçom latino-americana (ou europeia ou asiática) experimentou a violência do estado infligida à Uniom Patriótica (UP): o assassínio de 5.000 activistas incluindo candidatos ao Congresso e à Presidência.

Os actuais regimes de centro-esquerda da América do Sul, suas economias em expansom e as luitas de movimentos sociais livres e abertas, som um produto de levantamentos sociais (entre 1999-2005) que terminarom “políticas militarizadas”. Revoltas populares na Bolívia, Argentina, Equador e Venezuela abrirom o caminho para o centro-esquerda. No Brasil, Uruguai e Chile movimentos sociais ajudarom a deslocar regimes de direita.

Em consequência de luitas de massa e levantamentos populares, regimes de centro-esquerda prosseguem políticas económicas relativamente independentes e programas anti-pobreza progressistas. Eles elevarom padrons de vida e proporcionaram espaço político e social para a continuaçom da luita de classe.

A Colômbia é um dos poucos países que fracassarom em efectuar a transiçom de um regime militarista de direita para um modelo de bem-estar e desenvolvimento de centro-esquerda, porque ao contrário do resto da América Latina ela ainda tem de experimentar um levantamento popular, resultando numha nova configuraçom política.

Colonatos de paz: América Central ou Indochina?
“Colonatos de paz” produzem vencedores e perdedores. Eles reflectem a correlaçom de forças externa e interna. O processo de negociaçom, incluindo quem é consultado no estabelecimento de prioridades e em efectuar concessons, é central para a trajectória futura do “processo de paz”.

A história recente proporciona-nos dous “processos de paz” diametralmente opostos e com consequências dramaticamente diferentes: os aldeamentos de paz indochineses de 1973-75 e os aldeamentos de paz centro-americanos de 1992-1993. No caso da Indochina e mais especificamente dos aldeamentos vietnamita-americanos, a Frente de Libertaçom Nacional (FLN), assegurou a retirada das forças militares dos EUA, o desmantelamento de bases militares estado-unidenses e a desmilitarizaçom do estado.A FLN concordou acordou um processo de integraçom política baseado no reconhecimento de certas reformas sócio-económicas e políticas básicas, incluindo reforma agrária, a recuperaçom da posse de terras de milhons de camponeses deslocados e o processamento de responsáveis civis e militares acusados de crimes contra a humanidade. Os negociadores da FLN figerom concessons políticas mas em consulta estreita com a sua base de massa de camponeses, trabalhadores e profissionais. Eles apoiarom o princípio da democratizaçom do estado e desmilitarizaçom da sociedade como condiçons essenciais para a finalizaçom da guerra.

Ao longo dos últimos 35 anos, o Vietnám evoluiu de país socialista independente em direcçom a umha economia capitalista pública-privada, transitando para um crescimento mais alto e padrons de vida mais elevados mas aumentando desigualdades e com maior corrupçom.

Em contraste, os acordos de paz centro-americanos assinados polos líderes da guerrilha levarom ao fim do conflito armado e à incorporaçom da elite insurgente dentro do sistema eleitoral. Contodo, nom houvo mudanças básicas no sistema militar, económico e social. Nengumha das organizaçons populares de massa foi consultada. Ao grosso dos combatentes armados, tantos insurgentes populares como mercenários paramilitares, foi dada alta e tornarom-se um exército de desempregados “armados”. Ao longo dos últimos 20 anos, gangs criminosas tomarom o controlo de grandes extensons da América Central, ao passo que a elite da guerrilha ex-Farabundo Marti, e dos seus colegas guatemaltecos e nicaraguenses, se tornarom homens de negócio ricos e aliados eleitorais de políticos conservadores. Eles som protegidos por guarda-costas privados e nom tomam conhecimento das condiçons de 60% da populaçom que vive abaixo da linha de pobreza. Os “acordos de paz” na América Central serviram de veículo para a mobilidade social da elite da guerrilha. Eles nom acabaram com a violência. Todos os anos mais pessoas deparam-se com mortes violentas do que os que foram mortos durante os anos de guerra civil.

Os acordos de paz vietnamita e centro-americanos tiverom lugar durante diferentes momentos internacionais. Na década de 1970, a Uniom Soviética e a China proporcionavam vasto apoio material e político aos vietnamitas. Durante as negociaçons de paz centro-americanas, com a Uniom Soviética desintegrada, a China estava virar para o capitalismo e Cuba enfrentava um “período especial” de crise económica devido à perda da ajuda e do comércio soviético.

A mudança na correlaçom de forças internacional influenciou claramente, mas nom determinou, os resultados desfavoráveis na América Central. Em menos de umha década após os desastrosos acordos de paz centro-americanos, a Venezuela, sob o presidente Chávez, conseguiu derrotar um golpe e avançou rumo a umha transformaçom socialista. Revoltas populares aboliram governantes neoliberais na Argentina, Bolívia, Equador e alhures. O fim da URSS nom acabou com luitas de classe bem sucedidas na América Latina.

A reaccionária correlaçom de forças política da década de 1990 mudou dramaticamente. Em 2011, só a América Central, o México e a Colômbia permanecem como ilhas de reacçom num mar de esquerda ressurgente e de luitas populares na América do Sul, Norte de África e Sul da Ásia.

O estabelecimento da paz centro-americana, com sua aceitaçom do estado militarizado, ligado às exportaçons agro-minerais das elites e às gangs narco-criminosas, tornou-se um monumento de um “processo de paz” fracassado. O estabelecimento da paz vietnamita, se bem que longe de perfeito, polo menos proporcionou paz, segurança, reforma agrária e rendimento mais alto para o campesinato e os trabalhadores. Nom há dúvida de que a Colômbia tem diferenças históricas e estruturais com a América Central e a Indochina.

Os movimentos sociais armados na Colômbia tenhem umha história específica a qual antecede os insurgentes centro-americanos em muitos anos e desenvolveu laços políticos com certas regions e movimentos sociais os quais tenhem perdurado ao longo do tempo. Ao contrário dos insurgentes centro-americanos e vietnamitas eles também nom estám dependentes de apoiantes “externos”. Acima de todo, a experiência fracassada de “reconciliaçom política” na América Central levou insurgentes colombianos a levantarem condiçons significativas em relaçom ao processo de paz, nomeadamente desmilitarizaçom e reformas sócio-económicas (reforma agrária e recuperaçom de terra para os que dela foram privados). “Paz a qualquer preço” só levará a novas e igualmente virulentas formas de violência, como no caso actual do México com 10 mil mortos por ano, 7 mil assassínios por ano em El Salvador e um número igual de homicídios na Guatemala.

A experiência vietnamita de paz via justiça social e desmilitarizaçom parece assegurar um mínimo de prosperidade. Certamente a correlaçom internacional de forças melhorou dramaticamente. A América Latina substituiu os regimes fantoches neoliberais. As economias latino-americanas descobrirom mercados dinâmicos na Ásia independentes dos EUA. Revoltas populares no Médio Oriente e na Ásia – desde a Tunísia até o Afeganistám – estám a forçar os militares estado-unidenses a recuar. O contexto internacional e regional é muito favorável se a Colômbia souber aproveitá-lo. O método e os modos de luita, aqueles que unem movimentos populares sem distinçom, deveriam ser abertamente discutidos e resolvidos sem exclusons. A insurgência é parte da soluçom, nom do problema. A chave para um diálogo frutífero é a desmilitarizaçom do estado, finalizar a presença militar dos EUA, terminar o Plano Colômbia e converter despesas militares em desenvolvimento económico e social.

[*] Intervençom a ser apresentada no “Encuentro Nacional de comunidades Campesinas, Afrodescendientes e Indigenas por la Tierra y la Paz de Colombia: El dialogo es la Ruta” , 12 a 15 de agosto 2011, Barrancabermeja, Colombia.

Fonte: Resistir.info