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O marxismo como teoria-matriz

Segunda-feira, 30 Maio 2011

Iñaki Gil de San Vicente

1.- APRESENTAÇOM

2.- UM MUNDO ABSURDO E INCOMPREENSÍVEL?

3.- A CURTA RACIONALIDADE DO IMPERIALISMO

4.- A LUITA DE CLASSES E DOS POVOS

5.- O MARXISMO COMO TEORIA-MATRIZ

1.- APRESENTAÇOM

Os e as companheiras de Askapena querem debater hoje sobre o marxismo e a luita de classes. Askapena é um movimento popular internacionalista que tem como um dos seus objetivos ajudar a que os povos explorados e oprimidos entrelacemos as nossas luitas numha ágil e irrompível rede que acabe com o imperialismo. É um objetivo formoso e necessário, e também cheio de perigos e de riscos. Sabemos do que falamos, e sabemos como ninguém qual é o preço da liberdade. Carregamos sobre as nossas costas, no nosso coraçom e no nosso pensamento, com a dor e o sofrimento causado pola ferocidade do imperialismo. Lá onde houver umha prisioneira ou prisioneiro por razons humanitárias e internacionalistas, por razons de justiça e de ética, lá estará e está Askapena. Nom pode ser de outro modo.

Ao ser um movimento internacionalista, a exposiçom que vou fazer sobre marxismo e luita de classes centrará-se só na situaçom mundial e nom na basca. A tese que vou expor em quatro epígrafes sustenta que o marxismo é a teoria-matriz que explica a natureza do capitalismo e os seus efeitos destruidores e inumanos. Por teoria-matriz entendo o corpo teórico que articula todos os restantes conhecimentos críticos que estudam exploraçons e injustiças específicas da civilizaçom do capital. O racismo, por exemplo, compreende-se só se conectamos os sentimentos racistas e xenófobos, os medos dos machos por perder “as suas” mulheres a maos de homens de outras culturas, as escusas para sobreexplorar as e os migrantes, os sistemas repressivos especialmente orientados contra os migrantes, etc., com a necessidade do capital de saquear e esgotar todas as sociedades do mundo dotando-se de umha justificaçom ética e cultural que nom é outra que o racismo. Algo parecido à xenofobia existia antes do capitalismo, nas culturas clássicas grega e chinesa, mas só a burguesia criou o racismo e, o que é pior, tentou-no justificar cientificamente inventado a sociobiologia, o darwinismo social, os supostos “testes de inteligência”, o determinismo genético, etc.

Podemos seguir a citar exemplos -ecologia, feminismo, arte, tecnociência, religiom, sexualidade…-, e sempre voltaremos à mesma pergunta inevitável: que relaçons internas existem, se as houver, entre estas e outras realidades do sistema capitalista? Antes de responder vamos recorrer a um último exemplo especialmente valioso para um movimento internacionalista como Askapena: a FAO afirma que um terço da produçom mundial de alimentos, perto de 1.300 milhons de toneladas, se desperdiçam todos os anos devido a um conjunto de problemas. Para qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade estes dados som insuportáveis. Som várias as razons que explicam semelhante esbanjamento insustentável, mas todas ellas nos remetem no momento da síntese à irracionalidade global do capitalismo.

Para o tema que tratamos nesta reuniom de Askapena, o marxismo e a luita de classes e dos povos, a teoria-matriz dispom dos conceitos necessários para explicar, primeiro, por quê as classes sociais devem-se definir sempre em movimento, como relaçons ativas, em vez de como cousas passivas e estáticas, de maneira que definir quê é o proletariado mundial a começos do século XXI exige analisar como se moveu o capitalismo nos dous últimos séculos e como, apesar dessas mudanças, segue a ser o mesmo; segundo, que as classes sociais nom som só relaçons em movimento mas à vez unidade e luita de contrários irreconciliáveis, de maneira que definir a classe obreira exige definir no mesmo ato a classe burguesa e vice-versa; terceiro, que definir as classes a começos do século XXI exige considerar as mudanças nas formas de opressom e exploraçom pré-capitalistas que fôrom subsumidas no capitalismo, sobretodo e fundamentalmente a patriarcal e a nacional, para ver como se plasmam na luita de classes atual; quarto, que definir as classes sociais exige definir os movimentos da sua alienaçom e da sua consciência, do seu estado passivo em quanto classe em si, e da sua dinámica ativa como classe para si; quinto, que definir a realidade classista atual exige, também, estudar os movimentos das “classes intermédias” entre a burguesia e o proletariado; e sexto e último, que a história da luita de classes no capitalismo e no presente exige analisar a permanente pressom do Estado burguês para debilitar no possível o proletariado e reforçar no possível a burguesia.

Por último, é vital recuperar e desenvolver o marxismo como teoria-matriz já que nos últimos lustros a fábrica burguesa de mercadorias ideológicas produziu em série toda umha gama de ofertas “teóricas” de usar e deitar antimarxistas que, por diversas circunstáncias, calhárom em amplos setores das velhas esquerdas desiludidas, à vez que freárom quando nom impedírom a tomada de consciência de grupos juvenis, disolvendo-os. Enfrentamo-nos a umha decissiva batalha prática e teórica para derrotar a ideologia burguesa, batalha que em realidade fai parte do conflito mundial entre o capital e o trabalho.

Dado que temos pouco tempo e que existem em Askapena diferentes níveis de formaçom e de opçons, por quanto é um movimento popular, vou a dividir a minha palestra em quatro partes. A primeira reflexom que quer provocar é que, mirado o mundo a simples vista, parece que está submetido a forças absurdas e incoerentes, que as atrocidades imperialistas nom respondem a planos meticulosos mas aos caprichos egoístas de umha minoria. A segunda reflexom tentará explicar as razons de fundo que sustentam a brutalidade imperialista e a quê contradiçons capitalistas responder. A terceira reflexom tratará sobre quê é e como é a luita de classes mundial a começos do século XXI segundo a cronologia cristao-ocidental, e por último, a quarta reflexom versará sobre por quê o marxismo é a teoria-matriz que nom só explica estas situaçons como também argumenta como se pode luitar contra o imperialismo.

2.- UM MUNDO ABSURDO E INCOMPREENSÍVEL?

Nos começos da década de 1990 o optimismo burguês dominava no imperialismo ocidental. A URSS e o seu bloco implosionara; a China Popular levava desde começos dos ‘80 abrindo-se a cada vez mais ao mercado capitalista; Cuba, a Ilha Heroica, sofria estreitezas e pobreza sem conto, e os média capitalistas auguravam a sua debacle; o Vietname e outros países que se independizaram graças a sobre-humanos esforços, encontravem-se abocados ao desastre. Nas Américas, o imperialismo acabara com a Nicarágua, com as guerrilhas no Salvador e em Guatemala, e na Colômbia existia umha espécie de empate político-militar, enquanto todo indicava que nom haveria umha onda revolucionária após as ditaduras assassinas na Argentina e no Chile. Os problemas do México podiam resolver-se porque a sua burguesia aceitava a cada vez mais as exigências ianques, e o Brasil nunca fora um inimigo dos EUA. Dentro dos países imperialistas reinava a ordem. É certo que o Japom, a por entom segunda economia mundial, entrara em crise, mas todos esperavam que as ingentes ajudas públicas acabassem aginha com ela. Desde a metade dos ‘80 a liberalizaçom financeira, o neoliberalismo, o ataque duríssimo às classes trabalhadoras e, por nom nos estendermos, o baixo preço das matérias e energias primas, todo isto, sustentava as condiçons da longa expansom que concluiria em 2007.

O triunfalismo sobre a “vitória de Ocidente” vinha reforçado pola tese da previsível “guerra de civilizaçons” que sobreviria quando o mundo atrasado, mussulmano e pré-político, assim o qualificavam, quigera chegar rapidamente aos estándares de vida e consumo da “civilizaçom cristá”. Havia que preparar-se para “defender Ocidente”, quer dizerr, o “modelo de vida norte-americano”. O fundamentalismo cristao ianque, de extrema direita racista, dominava no plano ideológico-cultural e propagandístico.

Se isto ocorria no lado da reaçom, das forças vivas do capitalismo, no lado do reformismo reapareceu a velha tese de que já, por fim, era possível o tránsito pacífico, legal e “democrático” a “um outro” socialismo que nom tivesse os erros autoritários do que fracassara na URSS. A globalizaçom, dizia-se, caminhava face um “governo mundial”, face a “governança” do mundo mediante a reforma das instituiçons que já nom tinham sentido após finalizar a Guerra Fria. A superaçom das fronteiras estatais, a mundializaçom do mercado e a perda de poder dos Estados, todo isto permitia aos povos avançar face a “democracia mundial”. Muitas envelhecidas esquerdas acreditárom nestes contos. A demagogia pós-modernista, segundo a qual já nom faziam sentido as teorias sociais dos séculos XIX e XX, os denominados pós-marxistas que diziam que já nom havia luita de classes mas demandas individuais e movimentos populistas resolúveis mediante a legalidade da “sociedade civil”, a aceitaçom da aberrante tese das “intervençons humanitárias” da OTAN e a ONU, estas e outras teses debilitárom profundamente as esquerdas combativas mas mui pouco formadas teoricamente, precisamente quando o imperialismo endurecia os seus ataques aos povos.

Mentres tanto, centrada na preparaçom de umha nova e moderna “cruzada”, o grosso da burguesia quase nom emprestou atençom aos crescentes indícios de que quatro cousas começavam a se torcer no centro imperialista: a sucessom de crises financeiras que a cada vez mais rapidamente estouravam em toda a parte, advertendo de que algo profundo estava a apodrecer nas entranhas capitalistas; a lenta recuperaçom das luitas de classes na Europa, na Ásia, nas Américas e na África que, com altos e baixos, voltava à cena social; a acumulaçom de inquestionáveis estudos científicos sobre a crise ecológica; e a tendência à reduçom da superioridade do imperialismo ocidental, liderado polos EUA, sobre as denominadas “potências emergentes”.

De entre todos os disponíveis, ressaltamos três acontecimentos que expressavam a progressiva interaçom destas dinámicas até entom isoladas entre si: o “corralito” argentino em 2001 e a derrota do golpe anti-Chávez de 2002 na Venezuela; o fracasso da Cimeira de Kioto decorrida em 1997, e o aumento das luitas internacionais e antiimperialistas que se recuperárom ao calor da “antiglobalizaçom”. Nesse contexto produzírom-se os ataques às Torres Gémeas em setembro de 2001. Em mui pouco tempo começou-se a esfumar a euforia burguesa acima vista. Mas restava o pior: a crise iniciada em 2007 e definitivamente assentada desde 2008, e as suas consequências mundiais, embora mui especialmente nos países imperialistas. Agora limos algumhas escusas de altos managers ianques dizendo que se poderia ter evitado a crise se se tivesse feito caso aos sinais económicos. Trata-se de umha escusa mentirosa e ignorante porque, primeiro, nom só nom imaginárom que a crise poderia rebentar, como nem sequer acreditárom em que se produzira até que era mui tarde; e segundo, é umha mostra de ignoráncia porque a economia política burguesa nom pode conhecer teoricamente as contradiçons do capitalismo.

Pois bem, de forma acelerada desde 2008 a euforia transformou-se em desconcerto, medo e mesmo pánico polo futuro. O rearme é umha resposta lógica do capital em situaçons como esta, e unido a ele também o aumento repressivo e policial. Logo olharemos con mais detalhe o por quê. Mas se o miedo prende na alta burguesia, em setores das massas alienadas que votam no centro-dereita e no reformismo o medo reforça-se com umha mistura de desconcerto e de autoritarismo. Umha vez que se afundírom as cómodas certezas que alegravam umha vida cinzenta e anódina, a sangrante realidade é olhada por esta maioria silenciada e castrada mentalmente com umha mistura de desconcerto e pasmo e, em muitos casos, com umha forte dose de agressividade teledirigida pola indústria político-mediática.

As cenas do assassinato do suposto Osama Bin Laden, os intentos de assassinato de Khadafi, o que a OTAN deixe morrer de sede no mar a dúzias de emigrantes, os aplausos à entrega ilegal pola Venezuela de um súbdito sueco aos torturadores colombianos, o rejeitamento dos europeus ricos a ajudar os europeus empobrecidos despois de lhes terem imposto condiçons leoninas para entrar na UE, estes e outros acontecimentos diários que somente som a casca de tragédias espantosas, som olhados como expressons de um mundo absurdo e perigoso que deve ser salvado pola civilizaçom ocidental. A decisom de que os alimentos e outros produtos vitais quotizem nos mercados financeiros, conleva que umha minoria os açambarque à espera de que se multipliquem artificialmente os seus preços, sem preocupar-se polas desumanas fames que proliferam. Pois bem, esta e outras decisons som olhadas com indiferença por boa parte das massas ocidentais porque acreditam que é a “mao invisível” do mercado a que rege a economia, e outra parte mais reduzida por agora, aplaude-as.

A ideia da “mao invisível”, carregada de esoterismo idealista, foi popularizada pola primeira corrente económica burguesa, e sustém que o mercado, a economia no seu conjunto, se rege por razons desconhecidas em derradeira instáncia, por forças invisíveis e incompreensíveis ao conhecimento humano. Desde entom, algumhas correntes burguesas, como a keynesiana, tratárom de iluminar con umha ténue luz essa invisibilidade, mas fracassárom sempre. Já que a economia capitalista é incognoscível na sua essência, só podemos ajudar-nos do neokantismo e do subjetivismo individualista para intuir como funciona.

Atrapados nesta cegueira ignorante e idealista, os acontecimentos mundiais parecem-nos igualmente indecifráveis e absurdos.

3.- A CORTA RACIONALIDADE DO IMPERIALISMO

Porém, na fase imperialista do capitalismo a “mao invisível” do mercado precisa do “punho de aço” do Estado para impor aos povos explorados quando falhárom outros instrumentos prévios de suborno, engano e divisom. A história real do capitalismo, a que padecem as classes oprimidas, mostrou desde sempre que este modo de produçom nom logrou derrotar o modo feudal na Europa e expandir-se logo polo planeta enteiro a nom ser graças à força armada do Estado, ou como dixera Marx, graças aos métodos terroristas, fundamentalmente. As primeiras expediçons sistemáticas europeias em busca de riquezas que roubar aos mussulmanos, as sanguinárias Cruzadas, já adiantárom algumhas práticas que ao pouco melhorariam os aventureiros portugueses e espanhóis quando se lançárom à busca de espécias, escravos e ouro, em expediçons sufragadas polo Estado e por comerciantes.

Se os exércitos estatais fôrom necessários para a vitória do capitalismo colonial, também o fôrom as suas burocracias arrecadadoras, administrativas, técnicas e científicas, educativas e religiosas, etc. Por exemplo, projetar bons mapas resolvendo como transladar a duas dimensons umha superfície esférica era tam vital como criar boa artilharia, bons barcos, boa alimentaçom e boa saúde; e era igualmente vital resolver o problema da latitude e da longitude da esfera terrestre, o que exigia fazer precisos e fortes relógios e minuciosas tabelas matemáticas, astronómicas, de correntes marinhas e de ventos, etc. O que agora chamamos ciência cresceu impulsionada polas exigências implacáveis da expansom militar e económica, sobretodo a partir do século XIX quando a burguesia compreendeu que, para impor-se à humanidade, devia lograr a proeza científica de sintetizar e concentizar num buque de guerra moderno toda a civilizaçom do capital.

Estamos a dizer que existe umha lógica nada absurda e irracional que explica por quê e como o colonialismo capitalista por expandindo-se à vez que desenvolvia o que se define como “contributos da civilizaçom”, quer dizer, que junto a atrocidade terrorista do extermínio de culturas e povos também se produzia o avanço da ciência. Trata-se de umha unidade dialética de contrários sem a qual nom entendemos nada da história. Esta lógica já latente nas Cruzadas -os selvagens saques de Jerusalém, Constantinopla, etc.,- desenvolveu-se logo com ritmos e intensidades diferentes, mas de forma imparável até que batiam com as resistências das classes e dos povos. No fundo de tanta brutalidade rugia e ruge a necessidade cega da acumulaçom de capital, quer dizer, a necessidade ditatorial de acumular a cada vez mais capitais, mais riquezas, mais terras, mais dinheiro, mais ouro, porque, sob as leis do capital, por um lado, os empresários e os Estados que nom mantenhem este ritmo crescente som vencidos por outros Estados e empresários, som esmagados; e por outro lado e à vez, a classe burguesa que nom explora o suficiente a sua classe trabalhadora, espremendo até o derradeiro alento da sua vida, começa a descer posiçons na carreira pola hegemonia imperialista, o que a debilita frente os seus competidores e também frente o seu próprio povo explorado.

Todos os exemplos presentes que olhamos acima tenhem a sua causa comum no ataque global que o imperialismo lançou desde finais dos ‘80 endurecendo-o desde 2001. Som os efeitos externos de diversas estratégias que, por diferentes caminhos é meios, com diferentes táticas, buscam os mesmos objetivos básicos: apropriar-se dos recursos energéticos, reservas vitais e espaços produtivos; acantoar as “potências emergentes” para que nom se atrevam a apresentar umha resistência conjunta ao imperialismo ocidental; ameaçar os Estados e povos que podem resistir-se ao imperialismo com a sua destruiçom, à vez que criar novos poderes colaboracionistas sobre as ruínas dos Estados destruidos; e sobreexplorar as classes trabalhadoras do centro imperialista.

Sem maiores precisons agora, desde finais do século XX assistimos a umha sequência marcada polos seguintes factos: destruiçom da Jugoslávia, balcanizaçom e contrarrevoluçons “laranjas” em países da ex-URSS; primeiro ataque ao Iraque e invasom e destruiçom definitiva num segundo ataque; ataque ao Afganistám e extensom das incursons no Paquistám; crescentes ameaças à Rússia ao querer assentar a OTAN mui perto das suas fronteiras; despregamento da IV Frota em centro e sul América, ocupaçom ianque da Colômbia consentida pola sua burguesia, extensom ianque na cordilheira andina e cerco militar à Venezuela, Equador, Bolívia, Cuba, etc., assim como ameaças a outros Estados soberanos; criaçom de bases militares no gigantesco arco que vai desde os montes caucásicos, o Indukush, Ásia Central e o Himalaia, até chegar à Coreia do Norte ameaçada e ao sul da China Popular; partiçom do Sudám para deixar os seus recursos em maos da direita cristá; e, por nom estender-nos, recomposiçom do poder no norte de África e outras zonas para apropriar-se das suas riquezas, e cercar e preparar um ataque ao Irám. Como se apreça, nesta breve lista nom introduzimos os ataques contra as classes trabalhadoras, contra as mulheres, povos oprimidos e migrantes dentro dos Estados imperialistas.

Mas devemos-nos fazer umha visom histórica desta lógica. Nengumha análise do presente é completa se nom está afiançada nas experiências históricas anteriores. A perspetiva histórica é imprescindível para conhecer o presente e saber como poderá ser o futuro, como podemos agir hoje mesmo e amanhá. Vejamos três experiências anteriores: umha, a denominada “diplomacia das canhoneiras” sobretodo na primeira metade do século XIX, que abarcou práticamente a todo o mundo; dous, a reorientaçom do imperialismo británico trás chegar ao pico de produçom de carvom na sua Ilha, o que o obrigou a lançar-se à conquista de outros territários agudizando as tensons do “Grande Jogo” na Eurásia com a Rússia czarista e com outros imperialismos; três, a estratégia ianque de controlo do seu “pátio traseiro” expulsando a espanhóis, británicos e franceses das Américas; quatro, a denominada “criaçom de África” mediante as pugnas e negociaçons entre potências europeias a finais do século XIX; cinco, o reparto similar mas mais complicado do sudeste asiático e da China entre imperialismos ocidentais; e por nom estender-nos, a política imperialista mundial durante a “Guerra Fria” concluída a finais da década de ‘80.

Esta longa experiência histórica caracteriza-se por umha continuidade no essencial da lógica capitalista, e por umha inovaçom mui importante acrescentada durante o tránsito da fase colonial à fase imperialista. A constante essencial é que o capitalismo sempre foi, é e será, invasor, esgotador, saqueador e espoliador dos povos e da Natureza. Nom tem outra alternativa porque a lógica do máximo benefício no menor tempo possível exige às burguesias, como dixemos acima, sobreexplorar os seus povos e a Natureza e à vez, luitar entre ela, entre as diversas burguesias, para nom perder poder.

Tanto tem que no século XV se buscassem especiarias, ouro e escravos, ou que no século XXI se busque lítio, terras raras, uránio, etc. Estas mudanças som secundárias porque o permanente segue a ser a necessidade cega de acumular capital. A inovaçom nom é outra que com a fase imperialista adquire preponderáncia o capital financeiro-industrial, que nom só o industrial e menos ainda o comercial. Desde começos do século XX e de forma crescente, a exportaçom de capitais converteu-se numha obsessom, e é esta a que melhor explica o porque das decisons tomadas desde a segunda metade da década de ‘80, quando os EUA e a Gram-Bretanha, abrírom o melom podre da desregulaçom absoluta dos movimentos financeiros, decisons que marcárom o imperialismo na sua etapa mais recente.

Ocorre que os empresários tendem a investir nos negócios financeiros o que nom invirtem na indústria e nos serviços comerciais devido a que os negócios industriais e de serviços tendem a ir reduzindo os seus benefícios, por razons que agora nom podemos explicar. Os capitais sobrantes som improdutivos, o que é suicida para os empresários, assim que investem esses capitais sobrantes na banca, nas finanças, na especulaçom de alto risco, etc. Abre-se assim umha espiral mortal que fai que cada vez sobre mais capital polo que há que pressionar a cada vez mais para que os povos aceitem esse capital financeiro estrangeiro que os arruina e empobrece. Com o tempo, cria-se umha bolha financeira e de outros negócios totalmente dependentes dela, que acaba rebentando em crises a cada vez mais profundas, longas e daninhas. E com cada hecatombe, o imperialismo redobra os seus ataques. Agora encontramo-nos na mais recente, demolidora e terrível crise.

Começamos este apartado falando da “curta racionalidade” do imperialismo. Queremos dizer que, primeiro e com efeito, o imperialismo é racional, nom é absurdo, porque sabe buscar os meios adequados para obter os fins que busca. Um exemplo da sua racionalidade é a sua sobrevivência, as vitórias pírricas que recebeu e as derrotas que infringiu à humanidade trabalhadora. Mas esta racionalidade é parcial, limitada e curta, é operativa em parcelas determinadas e em tempos breves, porque em geral, olhada a escala temporal longa, o imperialismo é irracional porque nom pode evitar conduzir a humanidade ao desastre, à barbárie e ao caos. Por exemplo, um empresário deve levar bem os seus negócios e modernizar as suas máquinas, e neste sentido é e deve ser o mais racional e lúcido possível sempre dentro dos limites capitalistas; mas quando passamos de um empresário individual e isolado ao conjunto da burguesia mundial, entom nom serve a soma de racionalidades individuais, mas a sua sinergia sistémica, o facto de que a resultante nom é outro que a irracionalidade global do sistema capitalista. O imperialismo, como fase atual do capitalismo, leva ao extremo esta dialética entre a racionalidade parcial e a irracionalidade total, que é a que domina a longo prazo.

Para compreendermos melhor como e por quê funciona o imperialismo, e quê sucede agora mesmo, como interactuam em todo momento a curta racionalidade do sistema com a sua irracionalidade global, para isto, devemos estudar a luita de classes a começos do século XXI.

4.- A LUITA DE CLASSES E DOS POVOS

Da mesma forma em que existe umha continuidade da exploraçom capitalista mas também inovaçons e mudanças nas suas fases e etapas, também sucede o mesmo com a luita de classes, com a mesma natureza e composiçom das classes sociais. Como dixemos ao começo, nom devemos pensar as classes sociais como estruturas quietas e incomunicadas, mas como contraditórios processos sociais em luita mútua e em mudança. Por exemplo, a começos do século XIX a classe obreira era absolutamente minoritária em Europa e nos EUA, e só na Gram-Bretanha aparecia como um movimento em formaçom inseparável das suas formas de resistência. Fora da classe obreira existiam grandes massas de camponeses e artesaos arruinados que cada vez mais tinham que compaginar as suas lavouras com trabalhos em pequenas e medianas empresas. As mulheres seguiam a ser exploradas no domicílio embora na Gram-Bretanha também nas fábricas. A finais do século XIX o movimento obreiro era já umha realidade temida pola burguesia, e começava a estender-se por outras zonas do mundo, mas também era umha realidade minada por umha tendência reformista interna potente porque o capitalismo podia subornar e corromper a amplas faixas de trabalhadores. O marxismo era mui minoritário e excepto outras correntes socialistas revolucionárias e anarquistas, a maioria do movimento obreiro e sindical guiava-se por ideias reformistas.

Mas as contradiçons sociais minárom a dominaçom burguesa. A fase imperialista agudizou tais contradiçons e engadiu um impressionante sujeito de massas, que já aparecera havia anos mas que já era imparável a começos do século XX: as guerras de libertaçom nacional anticolonial e anti-imperialista. E também, e sobretodo em muitas luitas, as mulheres reafirmárom-se como outro sujeito decisivo, sobretodo o feminismo socialista que desbordou o feminismo burguês anterior. Desde a Comuna de 1871 a burguesia mundial aprendera que a classe trabalhadora era o seu inimigo mortal, e em 1917 a revoluçom bolchevique confirmou-no definitivamente. Mas já nom era o proletariado inconexo e utópico de começos do s. XIX, mas umha fuorça inquietante, e tanto mais perigosa dado que apesar de estar desunida pola existência de umha corrente reformista interna, ainda assim demonstrara umha temível força. Pior ainda, além da revoluçom bolchevique e da onda que a seguiu, assentárom as luitas de libertaçom anti-imperialista como se demonstrava em todos os continentes.

La duríssima crise mundial de 1929 deu a oportunidade ao capital para reforçar a sua contraofensiva já iniciada com anterioridade. Umha forma de destroçar a luita obreira foi a progressiva introduçom do sistema fabril denominado como taylorismo, ou produçom de cadeia em série, teorizada em 1912 e demolidor para a classe obreira pré-taylorista e mui beneficiosa para o patronato. Um outro sistema foi o de planificar o consumismo, algumhas reformas sociais e as migalhas repartidas do sobreganho imperialista, sem esquecer-nos do nacionalismo burguês e do racismo imperialista. Mas sobretodo, nos mui contados Estados burgueses afiançados, o capital pudo contar com o apoio do reformismo, dos ganhos imperialistas e com a própria alienaçom que gera a sociedade burguesa, assim como das primeiras medidas keynesianas, mas também com o medo ao socialismo e com organizaçons de extrema dereita e até nazifascistas toleradas até 1940, que ameaçavam o movimento obreiro. Mas o grosso da resposta burguesa internacional foi o endurecimento repressivo, o militarismo, o fascismo e o nazismo, a contrarrevoluçom sangrenta.

A crise de 1929 reafirmou as ensinanças das precedentes numha questom já tratada antes: o papel das “classes intermédias”, da pequena burguesia e das “classes médias”, setores que crescem nos períodos expansivos mas decrescem durante as crises, arruinando-os e dividindo-os entre reaccionários e revolucionários, separados por umha maioria duvidosa que quase sempre acaba girando à direita mais polos erros da esquerda do que polos acertos da dereita. A crise de 1929, ao impactar nas colónias e povos oprimidos, impulsionou os movimentos de emancipaçom nacional o que multiplicou as dificuldades do imperialismo ao ver reduzidos os seus ganhos. A existência da URSS, somado ao anterior, enchia o limite do tolerado polo imperialismo. A guerra de 1939-45 buscou antes que nada acabar com o perigo comunista e assegurar a docilidade de umha classe explorada mundial, e em segundo lugar mas supeditado ao primeiro objetivo, reordenar a hierarquia interimperialista.

A luita de classes posterior a 1945 caracterizou-se por três novidades fundamentais: umha, no centro imperialista, por um pato interclassista entre a burguesia e o reformismo, com o apoio dos partidos estalinistas, de modo que o capital pudo abrir umha nova fase expansiva, pato interclassista que estava também sustido pola repressom seletiva mas dura das esquerdas revolucionárias como na Alemanha Ocidental, Japom, EUA, Gram-Bretanha, e no Estado francês pola “ditabranda” do general De Gaulle; outra, nos Estados capitalistas mais débeis por diversas ditaduras e regimes fortes vitais para a política ianque de cerco e agressom à URSS, à China Popular, e às luitas de libertaçom nacional em todo o terceiro mundo; por último, pola definitiva burocratizaçom da URSS e do socialismo que representava, de modo que internamente os povos iam despolitizando-se e girando pouco a pouco face um capitalismo idílico e inexistente na realidade, que mais tarde os afundiria na pobreza e destroçaria a sua qualidade de vida, enquanto no exterior a burocratizaçom minou a legitimidade inquestionável da revoluçom bolchevique e do marxismo -o monstro nazi foi vencido só graças à superioridade do socialismo soviético que esmagou o 80% dos exércitos nazifascistas- acelerando a descomposiçom reformista dos PCs, e o longo deserto do marxismo frente a ideologia burguesa.

A propaganda capitalista manipulaou a história, mentiu e criou umha outra história recente sobre a verdadeira evoluçom da luita de classes mundial desde 1945 até agora. Fijo-se-nos acreditar em que os “trinta gloriosos”, as três décadas decorridas até finais da década de ‘70, com o início do ataque neoliberal, fôrom umha demonstraçom inequívoca da superioridade da “democracia ocidental” sobre o socialismo. Isto é mentira. Como já dixemos, só uns mui contados Estados burgueses, os imperialistas, pudérom desenvolver sistemas democráticos formais mas graças às excepcionais condiçons posteriores a 1945, graças ao despojo imperialista e graças a umha sofisticada repressom interna. As violências de signo oposto, a contrarrevolucionária e imperialista e a revolucionária e libertadora, fôrom a realidade maioritária a nível mundial, e mui em especial desde 1973 quando mediante as criminosas ditaduras no cono sul latino-americano o neoliberalismo apareceu como a alternativa antissocialista e antiobreira a aplicar dentro mesmo do imperialismo, como assim sucede desde entom.

Como a começos do século XX com o taylorismo e outros métodos, um dos objetivos do neoliberalismo desde começos da década de ‘70 era e segue a ser o de destroçar a força de luita do proletariado, liquidando os seus direitos, desunindo-o, fazendo-o retroceder às brutais condiçons de exploraçom de finais do século XIX, etc. De novo, para saber que som as classes devemos estudar como o Estado burguês bate mui duramente as massas trabalhadoras. Com a crise iniciada em 2007, além do ataque às e aos trabalhadores, as “classes médias” e a pequena burguesia estám a ser acantoadas e diminuídas sob a pressom da grande burguesia. Por sua vez, o campesinato do mundo inteiro deve acelerar a sua emigraçom às megacidades para proletarizar-se porque a agroindústria capitalista os empobrece ainda mais e os expulsa das suas reduzidas terras privadas e das suas terras comunais. Simultaneamente, as mulheres camponesas, obreiras e autoexploradas nas grandes urbes, e no centro imperialista, sofrem um assédio crescente do sistema patriarcal e do terrorismo religioso.

A massa assalariada, quer dizer, a que vive só e exclusivamente de um mísero salário, a que nom tem nengumha autonomia económica, por nom dizer nengumha independência produtiva, esta massa que forma o componente decisivo da humanidade trabalhadora, vai aumentando em todo o mundo e vam reduzindo-se os setores autónomos, os que podem compaginar o próprio trabalho nom explorado por ninguém com um trabalho assalariado. Esta dinámica, já teorizada polo marxismo de meados do século XIX, bate a cada vez mais com a sua oposta e irreconciliável mas unida a ela por laços irrompíveis: vai reduczindo-se a minoria multimilionária possuidora dos meios de produçom.

Umha outra característica já anunciada polo marxismo e que se confirma dia a dia é a interaçom entre o militarismo imperialista e a sobreexploraçom dos povos. Malvivemos num mundo finito, com recursos finitos na sua imensa maioria, e num planeta tam saturado e sobrecarregado de porcaria e detritos de mui difícil desintegraçom e assimilaçom, que literalmente o imperialismo está a comer-se o futuro da seguinte geraçom, que nom só da juventude atual. Só a sobreexploraçom dos povos pode suster durante uns poucos anos este desquiciado irracionalismo. E para que as nacçons empobrecidas se resignem passivamente ao expólio delas mesmas, da sua vida e história, da sua cultura e recursos, a civilizaçom do capital rearma-se ao máximo, militariza-se como nunca antes e adverte a viva voz ao mundo enteiro que fará o que lhe venha em gana. As declaraçons de Obama antes e depois do assassinato do suposto Bin Laden, assim o explicam sem vergonha algumha, e por cima amparando-se na vontade do seu deus cristao.

5.- O MARXISMO COMO TEORIA-MATRIZ

Imersos nesta voragem, porque devemos recorrer ao marxismo? Pois porque é a teoria que melhor resistiu o critério da prática, a prova dos factos. E nom falo só da teoria revolucionária, comparando o marxismo com o anarquismo e com outras correntes socialistas, mas fundamentalmente contrastando o marxismo com a ideologia burguesa. De entrada, e sem que podamos agora estender-nos nesta questom, o marxismo nom é umha “teoria”, nem umha “ciência”, e muito menos umha “ideologia” e umha “sociologia”, no sentido dominante destes termos, ainda que por desconhecimento ou razons vulgarizadoras e pedagógicas se utilizem para explicar quê é o marxismo. Na realidade é umha práxis, umha dialética entre a mao e a mente, a açom e o pensamento, a prática e a teoria.

O conceito de “práxis” provém do melhor da filosofia dialética da Grécia clássica, e quer dizer a capacidade do ser humano livre para criar cousas novas. Por um lado, as diversas ramas do socialismo pré-marxista, desde o lassalleanismo até o anarquismo, caracterizárom-se por repetir de algum modo anteriores conceçons sem aportar umha síntese qualitativa inovadora. Por outro lado, a ideologia burguesa retrocedeu ao marginalismo do último terço do século XIX, que surgiu precisamente para impedir o avanço do marxismo e para evitar que outros estudiosos burgueses investigassem além do alcançado pola economia política clássica. Somente o marxismo aportou umha visom totalmente nova, melhor dito, essa visom caracterizou-se já entom e sobretodo agora, nom tanto polas respostas dadas às perguntas já existentes sobres as causas da injustiça e a exploraçom, como mui em especial pola formulaçom de novas perguntas, de novas interrogantes que ninguém tinha formulado até entom, e obviamente, a dar-lhes umha soluçom inaceitável para a burguesia e de mui difícil compreensom para o socialismo pré-marxista.

A força do marxismo como teoria-matriz radica precisamente em que formula novas dúvidas e aporta novas respostas, e, aliás, fai-no desde umha nova concepçom do que é o pensamento e do que é a açom humana. Como nom temos agora espaço para desenvolver em detalhe esta crucial novidade, vamos vê-la no seu desenvolvimento em três problemas decisivos no presente e que exponhem a essência desumana da civilizaçom do capital. Os três tenhem direta relaçom com a militáncia internacionalista de Askapena.

O primeiro é a dinámica de formaçom de um “novo” sujeito revolucionário a escala mundial, umha “nova” classe trabalhadora explorada que se cria tanto como efeito da contraofensiva geral capitalista denominada neoliberalismo, como por resposta das próprias massas exploradas que, a golpes, vam aprendendo dos seus erros, das traiçons político-sindicais, das inovaçons repressivas da burguesia, etc. Vai entre aspas o de “nova” para indicar que, de facto, mantém o essencial da classe explorada já existente a finais do século XVIII e começos do XIX, sobretodo o essencial da classe existente entre 1830 e 1871, mas com acrescentados fundamentais “novos” como o papel decisivo das naçons oprimidas, o papel decisivo das mulheres, o papel decisivo da juventude empobrecida, etc., sempre em escala mundial, planetária.

Naturalmente, esta “nova” classe mundial nom surge de golpe mas necessita umha ou dous geraçons, talvez mais, para irromper com força renovada. Sempre foi assim, sempre a recomposiçom do proletariado mundial, unida irreconciliavelmente à recomposiçom da burguesia mundial, necessitou de atrozes e terríveis experiências para superar as cadeias mentais e materiais que atavam a velha classe trabalhadora ao reformismo da sua época. Ao igual que a economia capitalista tem fases e ondas, a luita de classes também as tem, e a dialética entre ambas mostra como as velhas classes exploradoras e exploradas devem mudar a sua pele, adquirir novas formas externas mantendo a sua natureza interna, para responder às novas problemáticas que elas próprias fôrom gerando na sua luita de classes, umhas vezes aberta e outras vezes encoberta e latente, mas sempre ativa.

O segundo é o crescente peso das luitas tanto em defesa das propriedades comunais e comuns que ainda resistem os embates imperialistas, como das luitas por recuperar de novo, no atual contexto de mundializaçom do capital, o valor humano da propriedade comum, social, pública e/ou estatal, sem matizar agora as diferenças entre elas. Desde a segunda metade do século XIX o marxismo foi cobrando consciência da importáncia decisiva da propriedade comunal prá-capitalista nom só na luita contra o colonialismo mas também na antropogenia, na autogénese da espécie humana. Em pugna permanente com o determinismo economicista da cultura eurocêntrica, o marxismo, nom sem dificuldades, foi integrando a reivindicaçom dos bens comuns pré-capitalistas com a reivindicaçom do socialismo, integraçom que se realizava com naturalidade surpreendente nas luitas de libertaçom nacional mas que seguia, e segue, a ser incompreendida polas esquerdas dos Estados que nom sofrem opressom nacional, que nom estám invadidos nem ocupados militarmente, e que também nom padecem um saque massivo, público, notório, sem disfarces e implacável, dos seus recursos.

Mas também dentro das sociedades imperialistas e dos povos nom oprimidos sempre se livrárom luitas populares pola recuperaçom dos bens comuns. O que ocorre é que durante a fase dos “trinta gloriosos”, do mal chamado “Estado providência” (¿?), das políticas keynesianas, etc., estas reivindicaçons pareciam ter sido conquistadas para sempre, e só os denominados ambiguamente “novos movimentos sociais” desde a década de ‘60 em diante formulárom algumhas reivindicaçons neste sentido, sobretodo o feminista, o ecologista, o antimilitarista, o antirracista, etc. A contraofensiva neoliberal está a acabar com a suicida ilusom de que a “democracia” garantia os “direitos sociais” para sempre e sem necessidade de luitar por eles. Agora é cada vez mais óbvio para centenas de milhares de jovens de origem obreira e trabalhadora, inclusive de origem pequeno burguesa, que já vivem pior do que os seus pais, com menos direitos, con mais e pior trabalho explorado e com menores soldos, com mais controlo, com mais vigiláncia e com mais repressom dentro da “democracia ocidental”. De novo, como no passado, luita por umha vivenda, por uns direitos laborais e sindicais, por umha liberdade de expressom, por uns serviços sociais e públicos, por umhas ajudas institucionais, por umha reduçom da ditadura empresarial, estas e outras reivindicaçons que enlaçam basicamente com a luita polos bens comuns, volvem à cena como no passado.

O terceiro é a sinergia das contradiçons clássicas e “novas” do capitalismo a escala mundial. Por contradiçons clássicas entendemos as que fôrom teorizadas nas fases colonialista e imperialista, até a guerra de 1939-45: produçom social versus apropriaçom privada, racionalidade parcial versus irracionalidade global, aumento da produçom versus diminuiçom do consumo, desenvolvimento do pensamento científico versus mercantilizaçom da ciência, acumulaçom de capital versus exploraçom assalariada. Por contradiçons “novas” entendemos as que irrompêrom definitivamente desde 1945 em diante embora já estavam embrionariamente latentes no passado: autodestruiçom termonuclear e bioquímica versus acordos de paz e desarme, multiplicaçom exponencial do consumo versus recursos finitos, e mercantilizaçom da Natureza versus catástrofe ecológica.

A sinergia destas contradiçons é acelerada polo movimento das leis tendenciais do capitalismo: concentraçom, centralizaçom e perequaçom de capitais; assalarizaçom e proletarizaçom progressiva da humanidade; aumento do trabalho morto, do capital constante e fixo instalado, da composiçom orgánica do capital e reduçom do capital variável e do trabalho vivo; tendência à baixa da taxa média de ganho, e socializaçom da produçom. A interaçom entre as contradiçons inerentes e as leis tendenciais expressa-se mediante a luita de classes que por sua vez agudiza tal interaçom numha dinámica de retroalimentaçom que, afinal, estoupa em forma de crises a cada vez mais devastadoras e duradoiras. Para sair das crises, afinal o capitalismo nom tem outros recursos do que a derrota imisericorde do movimento obreiro e revolucionário, e das naçons oprimidas que luitam pola sua liberdade, assim como a reestruturaçom brusca da hierarquia interimperialista mediante implacáveis pressons económico-políticas, ou no seu defeito e fracasso, mediante guerras locais que podem finalizar e finalizam em guerras mundiais. Em síntese, das crises o capital sae destruindo imensas forças produtivas, a começar pola fundamental, a dos seres humanos, que som sacrificados por dúzias de milhons no altar da propriedade privada. Para a civilizaçom burguesa a morte é a vida.

Pois bem, e concluindo, somente o marxismo pode agir como teoria-matriz do resto de luitas e de pensamentos críticos parciais e setoriais, focalizados face e numha opressom concreta, numha injustiça particular e numha dominaçom determinada. E pode fazê-lo porque só esta práxis formulou as novas perguntas e deu com as novas respostas gerais, comuns e básicas, com as constantes elementais e essenciais que bulem no interior do capital e do trabalho, no interior da sua luita permanente. Saber desenvolver de maneira crítica e criativa as liçons substantivas do marxismo com os contributos particulares mas necessários de todas as formas de luita da humanidade oprimida, esta permanente dialética, é especialmente decisiva para os movimentos internacionalistas porque eles devem mover-se em cenários diferentes, em culturas, tradiçons e histórias coletivas distintas às das suas naçons de origem. É por isto, que para os movimentos internacionalistas, como Askapena, o marxismo é o único instrumento emancipador válido para estudar e conhecer outras experiências e as suas conexons de fundo com a luita anti-imperialista geral.

EUSKAL HERRIA 18-V-2011