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Porque estará Reixa ressentido com Carvalho?

Quinta-feira, 19 Maio 2011

Maurício Castro

Chegou-me por correio eletrónico o link para um artigo da autoria de Antón Reixa, publicado no Xornal, no qual este representante da intelectualidade autonómica se dá ao luxo de, sob a capa de defender a figura de Lois Pereiro, atacar a de Ricardo Carvalho Calero.

Supomos que num alarde de fidelidade ao seu mestre intelectual e demonstrando que, como ele, ainda conserva algumhas doses da irreverente atitude iconoclasta que os caraterizou na juventude, o ex-cantor e agora empresário aproveita a polémica sobre a conveniência ou nom de dedicar o Dia das Letras ao desaparecido autor monfortino, para atacar o velho professor ferrolano.

Numha mesma frase, o colaborador (ou colaboracionista, como diria Pepe Carreiro) do Xornal, do Grupo Prisa e de Anxo Quintana desqualifica de um pulo as figuras do ferrolano Carvalho Calero e do franquista Filgueira Valverde. Frente ao acerto de Lois Pereiro (que nom negamos), igual de inapropriado teria sido, opina Reixa, dedicar o 17 de Maio a um como ao outro, já que, polos vistos, o primeiro “dedicou o último tramo da sua vida a ser especialmente crítico coa estandarización do idioma”, enquanto o segundo tinha “simpatias franquistas” e foi responsável pola instalaçom da celulose na ria de Ponte Vedra.

Nom é necessário defender Carvalho, porque a sua obra, legado e atitude vital tenhem umha fácil defesa em si mesmas. Muito mais fácil do que as do próprio Reixa, sem dúvida!

Lembremos só que, apesar do silenciamento imposto polas instituiçons públicas, Carvalho sempre tomou partido contra o acomodamento académico-institucional e em favor da coerência intelectual e patriótica. Na realidade, toda a vida de Carvalho foi um percurso de coerente defesa de princípios como a República frente ao fascismo, a soberania galega frente ao sucursalismo, e a dignidade da nossa milenária língua frente à espanholizaçom em curso.

Passou a maior parte dos seus 90 anos de vida a sofrer as conseqüências dessa coerência, em forma de prisom, de desemprego e de marginalizaçom permanente. Primeiro, como sabemos, por parte do franquismo; mais tarde, na última etapa da sua vida, imposta pola recém criada instituiçom autonómica galega, em maos da neofranquista Alianza Popular.

colaboracionistasPara além de absurda, a crítica que o subsidiado Antón Reixa dedica a Carvalho tenta manipular a memória, ao afirmar que o autor de Scórpio era “crítico com a padronizaçom do idioma”, como querendo indicar que Carvalho nom era favorável à criaçom de um padrom ou estándar para a nossa língua.

Sabe bem Antón Reixa que, na verdade, Carvalho defendia um modelo alternativo de padronizaçom, acorde com a história e com as necessidades do galego. Mas, o que é mais importante: vinte e um anos depois da sua morte, a história nom tem deixado nem um só dia de dar a razom ao professor de Ferrol Velho, que durante a década de 80 escreveu numerosos artigos que advertiam sobre qual seria o futuro do nosso idioma se as cousas continuassem polo caminho que naqueles anos começava a andar a política lingüística na Galiza. Nom podemos deixar de sublinhar o nefasto e determinante apoio de entidades como a RAG e o próprio ILG àquela orientaçom da qual Carvalho Calero discordava, hoje comprovamo-lo, com bom critério. Tampouco podemos deixar de lembrar que as sucessivas reformas do estándar isolacionista aprovado em 1982 aproximárom, se bem de maneira demasiado tímida, a norma do modelo proposto por Carvalho já em 1980.

Curiosamente, o franquista Filgueira Valverde foi naqueles anos um entusiasta apoiante da padronizaçom oficial que Reixa também defende e cujos resultados estám hoje à vista de todos. De facto, o texto legal que impujo o isolacionismo como doutrina oficial para o galego em 1982 ficou conhecido polo nome de “Decreto Filgueira”, como Antón Reixa lembrará.

Talvez nom devesse admirar-nos que tanto os popes da RAG como o próprio Reixa dediquem tantas energias a atacar quem representa uns princípios e valores tam raros nos ámbitos da intelectualidade oficial e subsidiada atual. Seguramente estarám ressentidos sabendo que, além da qualidade da sua obra, a dignidade do velho Carvalho nom está ao alcance de quem, como no caso de Reixa, nom passa de um servidor da indústria cultural hispana em terras galegas.

Maurício Castro

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