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Terrorismo de Estado USA. Rumo ao IV Reich

Terça-feira, 17 Maio 2011

Miguel Urbano Rodrigues

 

Comentando o assassinato de Bin Laden, Michael Moore escreveu no Twiter: «Matamos mais de 919 000 no Iraque, no Afeganistám, no Paquistám, etc., e gastamos 1 biliom e 200 000 milhons de dólares em despesas militares, e, finalmente, conseguimos assassinar mais umha pessoa».

 

A operaçom militar que eliminou o líder da mítica Al Qaeda confirmou umha realidade: o sistema de poder dos EUA, na sua ânsia de dominaçom planetária, pratica umha política internacional na qual o terrorismo de Estado se tornou componente fundamental. Os EUA comportam-se como candidatos a surgir na Historia como o IV Reich do século XXI.

 

A «operaçom Gerónimo» – nome que insulta a memória do herói apache – foi o desfecho de um projecto concebido com minúcia científica pola Administraçom Obama. Anunciada a candidatura do Presidente à reeleiçom, faltava somente marcar umha data.

A CIA sabia há muito onde ele se encontrava. Acompanhava-lhe os movimentos diários na residência de Abotabad através de sofisticados aparelhos electrónicos e os contactos dos seus mensageiros com o exterior, recorrendo inclusivamente a satélites. O Pentágono e os serviços de inteligência conheciam os nomes de todas as pessoas que viviam com Bin Laden.

 

O novelo de contradiçons que envolve o folhetim da morte do «inimigo número 1» dos EUA nom resulta de desinformaçom. Foi concebido para semear confusom e transmitir a ideia de que Obama, agindo como democrata, transmitia ao povo norte-americano informaçons sobre a «operaçom militar» logo que as recebia.

Mentia conscientemente, como demonstraram em importantes artigos intelectuais progressistas como Michel Chossudovsky, Noam Chomsky, James Petras, Domenico Losurdo, John Pielger, e outros.

O presidente, aliás, apresentou diferentes versons dos factos nas entrevistas às três grandes cadeias de TV, a ABC, a CBS e a CNN. Inicialmente, afirmou que, ao dar a ordem para o ataque à casa de Abotabad, as probabilidades de Bin Laden ali se encontrar eram de 99,9%; mas na última entrevista essas probabilidades caírom para 55%. A encenaçom foi muito estudada.

 

O elogio do Presidente à CIA e ao seu chefe foi encomiástico. Foi ele quem todo preparou e dirigiu. Leon Panetta, nas suas entrevistas, nom escondeu, por´rm, que a CIA torturou prisioneiros para obter informaçons decisivas para a localizaçom de Bin Laden. Interrogado sobre os métodos utilizados nos interrogatórios, defendeu, quase com orgulho, o recurso à tortura e justificou o «afogamento simulado». Falou com a frieza serena de um gauleiter nazi.

 

Obama logo que viu as fotos do cadáver de Bin Laden decidiu que nom seriam divulgadas. Sabia que elas provocariam umha onda de indignaçom no mundo islâmico. Mas afirmou entom que hesitava e iria reflectir. Depois, proibiu a entrega das fotos à comunicaçom social.

 

Talvez nom esperasse que as imagens de três corpos despedaçados de homens abatidos durante o assalto fossem entregues aos jornalistas polo Exército do Paquistám.

 

A rapidez da retirada dos comandos da Marinha do edifício metralhado – levarom somente o cadáver de Bin Laden e o do neto – criou porem, problemas imprevistos à Casa Branca. As mulheres estavam com as maos amarradas como se fossem animais. Os sobreviventes encontrados polos militares paquistaneses – umha das esposas estava ferida – falarom muito e as suas declaraçons forçarom Obama e o Pentágono a apresentar nova versom da «brilhante operaçom Gerónimo». Reconhecerom que, afinal, Bin Laden estava desarmado. Teria sido abatido quando procurava umha pistola, ou, segundo outros, umha metralhadora. O folhetim dos «escudos humanos» também nom resistiu a evidências resultantes do interrogatório das testemunhas do massacre. Umha das esposas de Bin Laden, a jovem iemenita Amal Abdulfatah, esclareceu que o marido vivia no Paquistám há sete anos, cinco dos quais na casa de Abotabad e nom nas montanhas afegás, como repetidamente garantia o governo de Washington.

 

Na sua primeira comunicaçom ao país, Obama afirmou que a operaçom, por ele acompanhada da Casa Branca, durou 40 minutos e que o efectivo da «força elite» da Marinha nom excedia 20 homens. Mas, posteriormente, altos funcionários civis e militares referiram totais diferentes. Nom foi dada umha explicaçom credível para umha acçom armada tam prolongada contra umha casa cujos poucos moradores nom opuserom resistência.

 

Assessores do Presidente e a Marinha repetiram exaustivamente que Bin Laden tinha sido sepultado no mar no respeito dos ritos islâmicos. É insólito o súbito respeito pola religiom muçulmana; mas acontece que o Corám nom permite sepultamentos marítimos. Os filhos do morto já informarom que pensam processar o Estado norte-americano por mais essa ofensa à sua fé.

Outro tema que ridiculariza a versom oficial dos acontecimentos, e envolve a CIA e o Pentágono num labirinto de mentiras, criou já problemas no campo das relaçons dos EUA com o Paquistám.

 

O governo Obama tem, na prática, tratado aquele país como um protectorado de novo tipo. Os bombardeamentos de aldeias do Waziristám por avions sem piloto da USAF tornarom-se rotineiros. Islamabad limita-se a tímidos protestos quando os mísseis estado-unidenses matam camponeses da regiom. Mas desta vez o desrespeito pola soberania paquistanesa atingiu tais proporçons com a intervençom militar concebida para assassinar Bin Laden que a vaga de indignaçom no país foi maiúscula.

 

A reacçom do presidente Asif Zardari foi, porém, suavíssima. Porquê? Ficou transparente que o Exercito do Paquistám e o seu serviço secreto estavam ao corrente da instalaçom do chefe da Al Qaeda em Abotabad. A sua casa dista apenas umhas centenas de metros da sede da Academia Militar do país. Trata-se de umha cidade de guarniçom, com vários quartéis. Alguns media estado-unidenses afirmarom que as Forças Armadas do Paquistám nom somente conheciam a presença de Bin Laden, como o protegiam.

 

A rede de cumplicidades é, porém, tám densa que Tom Donilon, conselheiro de segurança nacional de Obama, levou a hipocrisia ao ponto de declarar aos jornalistas que nom há «quaisquer provas» de que o Governo paquistanês tivesse conhecimento da presença no país de Bin Laden.

O farisaísmo do presidente Obama nom é menor. Derramou elogios sobre a CIA, enaltecendo como grande e histórico serviço à democracia e à liberdade o massacre de Abotabad. Mais, deslocou-se à base militar para onde forom conduzidos os comandos da Marinha e condecorou-os numha cerimónia secreta. Os seus nomes nom forom revelados, com receio de represálias, mas na apologia que deles fijo guindou-os a heróis tutelares da Pátria.

 

Como recompensa, o director da CIA, Leon Panetta, foi nomeado secretário da Defesa. Simultaneamente, o general Petraeus, comandante supremo na área do Medio Oriente e do Afeganistám, foi transferido para a chefia da CIA…

 

Ao ler o elogio do senhor da CIA polo Prémio Nobel da Paz recordei a atribuiçom das cruzes de ferro nazis a generais das SS.

Obama, em exibiçom mediática permanente, anuncia ao mundo que os EUA utilizam o seu poder militar em defesa de valores e princípios eternos, cumprindo, afinal, a sua vocaçom de naçom predestinada para salvar a humanidade.

Inverte a realidade com despudor. O sistema de poder imperial dos EUA desenvolve umha estratégia orientada para a dominaçom perpétua e universal, um projecto que ameaça a própria sobrevivência da humanidade.

 

A chacina de Abotabad inseriu-se nesse projecto monstruoso. Bin Laden – ex-aliado de Washington – foi um tresloucado que inspirava repulsa a centenas de milhons de pessoas. Mas as circunstancias em que se consumou a sua eliminaçom som inseparáveis dessa estratégia de controlo planetário.

 

É significativo que os bombardeamentos das áreas tribais do Paquistám por avions nom tripulados sejam agora quase diários. Na Líbia, a NATO continua a bombardear residências de Khadafi, afirmando que pretende «proteger as populaçons» no âmbito de umha «intervençom humhanitária».

 

O poder da gigantesca maquina de desinformaçom imperial impede os povos de compreenderem o perigo que os ameaça. A mentira é diariamente imposta como verdade a nível planetário.

 

É alarmante o que está a acontecer. Um dia a humhanidade tomará consciência de que o sangrento episódio de Abotabad assinalou umha etapa no avanço de umha engrenagem cujo funcionamento traz à memória os crimes do III Reich alemám.


Vila Nova de Gaia, 11 de Maio de 2011