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A cultura galega e os seus inimigos

Segunda-feira, 16 Maio 2011

Ramiro Vidal Alvarinho

Ainda nos pitam os ouvidos recordando aquelas declaraçons (parece ser que no contexto de umha ceia-conversa num hotel da Corunha) do Conselheiro de Cultura, nas quais se afirmava que a cultura galega estava “ensimesmada e complexada”. O próprio Conselheiro fazia outras exposivas declaraçons pouco depois nas quais se dizia que a cultura galega “estava bem, mas limitava”. Já sabemos que qualquer extracto de declaraçom perante a imprensa pode ser malinterpretado e que a umha mesma frase pode-se-lhe adivinhar umha ou outra intencionalidade segundo o contexto, mas aqui nom parece haver um problema de contextos. Demasiada casualidade que de umha mesma pessoa saiam duas declaraçons no mesmo sentido e precisamente nas duas nom se quigesse dizer aquilo que os que as criticamos chegamos a perceber.

Poderia passar a escusa da má interpretaçom, ou da amputaçom do contexto, se as duas frases nom coincidissem plenamente com esse discurso que identifica a cultura galega em todas as suas manifestaçons com atraso, mediocridade, limitaçom, inferioridade… e é que a cultura, como a língua, como o desporto, como o meio natural, som cousas que podem criar referentes próprios que reforcem a autoestima coletiva do nosso povo, e isto já se sabe que é muito perigoso para os interesses do império e também para os desta burguesia lacaia que vive do teto miserável do imperialismo. Por isso a cultura galega é limitada, por isso a língua galega apenas serve para falar com as vacas, por isso é umha barbaridade pensar em seleçons desportivas próprias ou num desporto de elite nutrido da canteira, por isso mais valia atear lume a todo o bosque autóctone e plantar eucaliptos e, onde nom, semear patacas.

O progresso para a direita galega é renegar do próprio e, se se figer a partir da brutalidade, quase melhor. Fazer apologia do suicídio, entre certos sectores da populaçom sempre foi garantia de sucesso.

O senhor Fasero, diretor da Agência Galega de Indústrias Culturais, foi comparecer ao Parlamento da Galiza para dar conta da sua gestom, mas para se curar em saúde das críticas que, sem dúvida, previa que lhe iam cair, já levou ao hemiciclo autonómico um bom feixe de projécteis para lançar de maneira preventiva. Dixo, entre outras cousas, que a cultura é apolítica, que o Partido Popular devolveu a liberdade à cultura galega, e que o nacionalismo galego pensava que a cultura era umha leira da sua propriedade. Este senhor nom anda mal de dotes dialéticos, e de cinismo e cara dura nom anda também falto. O problema é que na burra velha já caírom tantos paus, que reagir fica cada vez mais difícil e cansativo. O lombo vai-se afazendo a levar as pancadas e já nem sente a dor.

A cultura galega é de quem a quiger, fundamentalmente. A cultura galega é de todo aquele que se quiger achegar a ela, e nesse sentido há pessoas que nem nascêrom nem morárom nunca na Galiza e que tenhem mais direito a sentir a cultura galega como própria do que muitíssimos galegos e galegas. É tam absurdo ter que insistir nisso…

…a isto haveria que acrescentar que aqueles que nunca estám para defender a cultura galega quando a há que defender, é mais, inclusive soltam genialidades do calado de que a cultura galega está “ensimesmada e complexada” e que “está bem mas limita”, nengum direito tenhem a protestar porque o nacionalismo galego faga da cultura própria bandeira. Claro que o fai, e com todo o direito, além de com toda coerência, já que se nom fosse assim, nom se poderia chamar nacionalismo. Como é possível reivindicar o direito a existir de umha naçom sem reivindicar a sua cultura? A questom é que, se realmente essa comunidade política que se aglutina à volta do PP, sente a cultura galega como própria no mesmo grau que a sinto eu, que a sentimos nós, os que trabalhamos pola cultura galega, assistimos a atos relacionados com a cultura galega, consumimos cultura galega… nom tenhem mais do que fazer o mesmo. Mas, evidentemente, por algumha razom é que se lhes chama espanholistas… esse carimbo de espanholistas notará-se também nos seus hábitos sócio-culturais; preferem Manolo Escobar a Berrogüetto, igual que som do Real Madrid e igual que no seu monte nom plantariam nem cobrando um carvalho. Porque isso de que a cultura é apolítica, todos sabemos que nom é certo.

Na Galiza, sen dúvida, trabalhar em galego, quer dizer, escrever em galego, fazer música em galego, fazer artes cénicas em galego, fazer cinema em galego, nom é umha decisom que se tome à margem da ideologia. Quando sabes que o que vas produzir vai ser simplesmente ignorado por umha maioria da populaçom do teu próprio país, quando sabes que as instituiçons nom te vam apoiar e a indústria cultural te vai marginalizar, quando sabes que os meios de comunicaçom nom che vam dar o tratamento que vam dar a outros, independentemente da qualidade do que figeres… qual vai ser o motivo para que te decidas a optar pola língua própria do País? Naturalmente que esse motivo vai ser ideológico.

Os que fazemos cultura galega, os que apoiamos a cultura galega, os que consumimos cultura galega, somos os proprietários da cultura galega. E os que com o nosso dinheiro tenhem a teórica missom de administrar os recursos culturais estám sujeitos, como nom, à nossa crítica, umha crítica que será em chave política toda vez que detrás de umha gestom há sempre umha conceçom política. Porque evidentemente, nem nós estamos obrigados a concordar com a gestom de um político, nem somos apolíticos. E porque nom é igual umha política cultural de esquerda que umha de direita, nem é igual umha política cultural nacionalista do que umha política cultural espanholista.

Se tam livre, espontánea e apolítica é a decisom de trabalhar em chave galega, porquê há tanto artista nascido ou residente na Galiza que nunca empregou nem empregará a língua galega? Que casualidade que precisamente umha cousa tam dentro do terreno do livre albedrio nom seja objeto de decisons mais aleatórias; que misterioso condicionante haverá para que muitos artistas, com os seus espíritos livres, decidam precisamente nom trabalhar em galego? Nom era a opçom lingüística em qualquer ámbito da vida umha decisom essencialmente livre? Claro que cantar, escrever, representar em galego é umha decisom política; e nom fazê-lo também. Tanto como optar polo copy right, polo copy left, ou polo creative commons. Tanto como decidir fichar por umha multinacional ou nom.

O senhor Fasero deveria abster-se de fazer cantos à apoliticidades em que ninguém acredita e explicar em base a que critério (sem dúvida, político) em tempos de crise presenteia tantos milhons a tantos artistas estrangeiros. Se queremos revitalizar as nossas indústrias culturais, nom haverá que investir em produto nacional? Enfim, nom pudem evitar a minha intencionadamente política pergunta.