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A razom de Estado, um “pragmatismo” totalmente errado

Quinta-feira, 28 Abril 2011

Néstor Kohan

Os factos já se conhecem. O extraditarom rapidamente. Sem maiores trámites e sem duvidá-lo um segundo.Toda a nossa solidariedade para o jornalista e companheiro Joaquín Pérez Becerra. Esperam-lhe momentos muito duros. A burguesia colombiana, mafiosa e corruta, e os seus amigos do norte que dirigem essa máfia, nom perdoam nem tenhem clemência. Interrogatórios, tortura, vejaçons, montagens, sentenças pre-anunciadas enfrentadas com a lei, cárcere, isolamento.

Primeira reaçom

Surpresa, indignaçom, nojo, ódio, tristeza. Muitas perguntas.

Segunda reaçom

Analisar razons e objetivos.

Que procura o governo de Colômbia?

Com esta nova operaçom, o governo de Santos mostra-se tal qual é: a continuidade absoluta do governo de Uribe (mal que lhe pese a mais de um ingénuo que acha que Santos é umha inocente caperuchinha e nom quem bombardeou Equador e, em tanto chefe do Ministério de Defesa em tempos de Uribe, o responsável por milhares de cadáveres em fossas comuns).

Que persegue? Um triplo objetivo:

(a) Gerar medo. A pergunta óbvia que todo mundo começa a se fazer (alguns já o escreverom, outros só o pensarom baixinho) é a seguinte: Quem é o próximo? Se alguém que tem passaporte sueco e vive há décadas na Suécia (“paraíso” imaginário da social-democracia, país “civilizado” e pluralista bem afastado do Terceiro Mundo) termina apresado como um animalinho por estas bestas sedentas de sangue? que fica para os que vivemos na América Latina onde a vigilância, as ameaças, a repressom e a morte estám à volta do canto?

(b) Golpear a toda a dissidência. Já nom só contra a insurgência comunista nas suas forças diretas -secretariado, blocos, frentes e combatentes das FARC-EP ou militantes do Partido Comunista Clandestino, forças do ELN, etc.- senom contra o leque inteiro da dissidêencia, incluindo até ao mais afastado intelectual embora viva ao outro lado do planeta e que se tenha animado a escrever duas linhas alertando sobre as violaçons aos direitos humanos, as fosas comuns com milhares e milhares de cadáveres atirados como animais, sem tumba, sem identificaçom, torturados com as maos atadas e vejados, ou que denuncie os vínculos do governo da Colômbia e das suas principais instituiçons com o narcotráfico, os paramilitares, a economia suja e a delinqüência.

Ali, nessa perseguiçom global da dissidência, inscrevem-se desde as ridículas causas judiciais contra a senadora Piedad Córdoba (que segundo tenho entendido nom anda com um fuzil ao ombro senom pregando a paz e chamando ao diálogo), até o julgamento contra o jornalista chileno Manuel Olate (cujo pecado mais atrevido foi fazer umha reportagem); desde as ameaças públicas de morte contra os cineastas que se animam a oprimir PLAY em um projector em festivais de cinema para ver um documental até a perseguiçom de uns jovens nórdicos, nom lembro se dinamarqueses ou noruegos, que se animarom a imprimir umhas t-shirts com o logo da insurgência colombiana (as t-shirts com a imagem do Che e o seu boina ou as do sub Marcos com o seu pipa som cool, mas as remeras com símbolos das FARC-EP som «terroristas»?).

Os exemplos som muitíssimos. Impossível recordá-los todos. Mas sempre tenhem o mesmo tenor. Olhados em conjunto som ridículos, grotescos, bizarros, irracionais e profundamente reacionários. Assim é o regime colombiano, mal chamado “democrático”.

(c) Impedir a solidariedade internacional. Que a dissidência colombiana se senta isolada e sozinha. Que ninguém no mundo -inclusive vivendo na Europa- anime-se a dizer nem “mu” por medo a ser vigiado, perseguido, demonizado e chegado o caso extremo extraditado. Que todo mundo cale. Que até o último curioso olhe submissamente para abaixo e tenha as maos nas costas. Que guarde silêncio, muito silêncio, para que continuem os negócios e os assassinatos. E se alguém se anima a dissentir, suponhamos o Papa da Igreja Católica Apostólica Romana ou o secretário geral da ONU, Riki Martin ou Shakira, Calle 13 ou Calamaro, pode chegar a aparecer nos computadores mágicos de Raúl Reyes…

Isso é Colômbia hoje e isso foi durante as últimas décadas. Nom é novidade. É indignante, gera vontades de vomitar, mas nom é novidade.

E o Governo de Venezuela?

Qual é a novidade entom da extradiçom do jornalista Joaquín Pérez Becerra? O que nos partiu ao médio é o que fixo o governo de Venezuela.

Também nom é umha novidade absoluta, porque houvo antecedentes nos últimos tempos.

Mas este caso já é escandaloso. Um bochorno. Supera todos os limites. Nestes dous dias escreverom-me muitíssimos amigos venezuelanos ou que vivem em Venezuela. Todas as cartas, os e-mails e as comunicaçons começam igual: “estou tristíssimo”, “nom entendo nada” e muitas outras frases similares.

Por que passou isto? Tentemos ir para além do episódio pontual, que em poucos meses, quando Estados Unidos invada um novo país e assassine a outras 100.000 pessoas, explota outra central nuclear ou seproduza um terramoto, poucos recordarám.

Como explicar o inexplicável, ao menos para quem defendemos o processo bolivariano e consideramos ao presidente Hugo Chavez um companheiro bolivariano e um dos principais líderes políticos da revoluçom latinoamericana dos nossos dias?

O que passou tem um nome preciso: “Razom de Estado”. A prevalência impiadoso de supostos “interesses geoestratégicos” que a maioria das pessoas, supostamente, nom compreende, mas que haveria que privilegiar, ainda violando os princípios revolucionários e solidários mais elementares.

A “Razão de Estado”! Monstro canceroso que todo o devora.

Sempre invocada à hora de fazer concessons aos inimigos históricos, pactos imundos com os verdugos, renúncia às bandeiras mais queridas e entranháveis dos povos, aquelas mesmas que em Venezuela permitirom derrotar um golpe de estado, à CIA e a toda a direita esquálida durante mais de umha década.

Que a “Razom de Estado” cheira a matéria fecal, poucos narizes o poriam em discussom. No entanto muitos a defendem porque pensam e acham, ingenuamente, que é realista, pragmática e -isto seria o que a maioria das pessoas nom entenderia por se deixar levar polas suas paixons-, à longa serve à causa revolucionária.

É assim? Suspeitamos que nom. A cada vez que um processo de transiçom para umha sociedade diferente, nom capitalista, que tenta realizar mudanças sociais em profundidade, começou a privilegiar a “Razom de Estado”? as cousas saírom mal, mui mal, péssimas.

“Se lhes dás a mao, tomam-se o cotovelo”, diz um refrám popular. Se lhe concedes o 10%, os inimigos vam pelo 50% e umha vez que o conseguem vam polo 100%. Entregar ao governo de Colômbia a este jornalista… nom só vai contra a ética revolucionária, nom só rompe as normas mínimas do ideal bolivariano e o internacionalismo socialista, ademais constitui um gravíssimo erro político e estratégico. O companheiro Hugo Chávez e o processo que ele encabeça ficam enormemente debilitados. O inimigo sabe que agora pode ir por mais. Se dobrou a mao, agora podem avariar o cotovelo.

Recordo em 1986 ao comandante sandinista Tomás Borge -por entom rebosante de prestígio entre muitos jovens- declarando ante umha revista argentina “Imos civilizar à burguesia”. Sim? A sério? Pouquinho tempo depois, em 1990, a burguesia nicaraguana terminou de “civilizar” à revoluçom sandinista original.

O comandante Hugo Chávez nom vai a “civilizar” ao para-militarismo colombiano desta maneira ou negociando com os seus inimigos históricos (embora recomende-lho algum que outro amigo prestigioso que em outras décadas soubo encabeçar a revoluçom latino-americana). Disso nom cabe dúvida.

Oxalá se revise com urgência esta política de “Razom de Estado” nom só porque golpeia profundamente a consciência revolucionária e bolivariana dos nossos povos, nom só porque mancha a ética da revoluçom, nom só porque fai estragos na credibilidade popular, nom só porque transforma a bandeira vermelha do socialismo e o comunismo em um pano opaco e cinza, senom porque ademais é ineficaz. Nom é realista. Nom é pragmática. Nom serve mais que para levar ao fracaso. E isso nom é o que procuramos, nom é certo?