…, Maio-Junho do 68, … Julho de 2008, … Contra o fim da História

·Domingos Antom Garcia Fernandes

Há toda umha dramatologia arredor do Maio do 68, umha litúrgia (no sentido de serviço ou culto público aos deuses falsos e ainda aos verdadeiros), um actuar consumista devorador (a modo de exemplo: o dia 22 de Junho de 2008, na livraria Gallimard de Paris, figuravam 133 livros sob a legenda Mai 68), umha reproduçom alargada do Capital, um desmitificar e remitificar continuados… Daquela Raymond Aron tinha a impressom de que algo irracional estava a acontecer; do contrário Sartre vê relevante a acçom, que se produziu num momento em que todo o mundo cria que era impensável, pois se aconteceu pode voltar a reproduzir-se. Maio pode esvaziar-se, domesticar-se, considerar que hoje está realizado e ultrapassado, que estamos no melhor dos mundos possíveis, que as democracias representativas som o fim da história, que a utopia perdeu vigência… A doxa (no sentido platónico de opiniom, como passo prévio aos saberes científico e filosófico. Talvez gostasse mais de empregar a palavra ‘ideologia’, com o significado de “falsa consciência”, ocultaçom do real…) do 68 em maos de “esquerdistas” reformados e de sociólogos descrevedores do status quo pode conduzir-nos a umha teleologia do presente, à volta à lógica do Mesmo, a nom olhar além de umha revolta geracional, a um revisionismo, a umha despolitizaçom, a um transitar de um Estado burguês autoritário a umha nova burguesia finaceira, liberal e moderna… Mas pode também convidar à subversom, a fazer memória, à criaçom, ao rescaldo redivivo… Som bem conhecidas as palavras de Sarkozy instrumentalizadoras, monopolizadoras e que incitam a ser amnésicos, ou melhor coveiros:

“… Veu de impor-se a ideia de que todo valia, de que doravante nom há diferença algumha entre o Bem e o Mal, entre o verdadeiro e o falso, entre o belo e o feio. Eles tratavan de acreditar que o aluno valia o que o mestre (…) que nom existiam valores, nem hierarquia (…) Tratará-se de saber se a herança de Maio 68 deve ser perpetuada ou liquidada de vez.”

Conhece-se bem a resposta de Sarkozy ao devandito dilema. Porém, há outras formas de encarar o assunto.

Que aconteceu em Maio 68? Adentremo-nos com umhas palavras de Kristin Ross:

“… Numha cidade em que as escolas estavam fechadas, nom era possível enviar umha carta nem um telegrama, nem comprar o jornal, nem cobrar um cheque, nem apanhar o autocarro nem o metro, nem deslocar-se de carro, nem comprar cigarros ou açúcar, nem olhar a televisom, nem ouvir as notícias na rádio, nem botar o lixo, nem partir da cidade de comboio, nem escuitar o prognóstico do tempo, nem dormir à noite em partes da cidade onde o gás lacrimogénio enchia os andares até o quinto andar, em dita cidade a leitura pode encher o tempo. Nestes pormenores acabou de esconder-se um sentido do que acontece com a vida quotidiana no tempo em que nove milhons de persoas, de todo o tipo de empresas, públicas e privadas, desde os empregados das lojas até os pedreiros, abandonam o seu posto de trabalho. Maio do 68 foi o maior movimento de massas na história francesa, a maior greve na história do movimento obreiro francês e a única insurreiçom “geral” que o mundo desenvolvido conheceu depois da segunda guerra mundial. Foi a primeira greve geral que se estendeu alem dos centros tradicionais de produçom industrial e afectou a trabalhadores dos sectores de serviços, telecomunicaçons e cultura, ao abranger deste modo toda a esfera da reproduçom social. Nem um sector profissional, nem umha categoria laboral, nem umha regiom, cidade ou vila de França se mantivo à margem da greve.”

E logo de matinar sobre que poderia dizer a respeito do Maio 68, sem exceder os 12.000 caracteres, optei por reproduzir em parte um artigo publicado com motivo do vinte e cinco aniversário em o Xornal Diario de Ponte-Vedra (que só sobreviveu uns quantos meses), no dia 13 de Abril (o artigo era inédito e de cinco anos antes). Dizia assim:

“O Maio do 68 nom foi um milagre, nem um facto inusitado, nem o acontecimento mais sobranceiro do século XX (…) Para entender minimamente o fenómeno haveria que se retrotrair aos eventos económicos que desembocárom na Primeira Guerra Mundial e, acima de todo, ao desenlace da mesma – cumpre ter em conta que a Segunda Guerra Mundial é, em boa medida, umha prolongaçom da primeira. As grandes quebras da ordem social e moral tradicionais som derivas dos anos finais da guerra e da angúria e desencanto da posguerra. Os processos ali incoados vem-se incrementados pola Grande Depressom dos anos trinta, agravados pola Segunda Guerra e generalizados desde a década dos quarenta aos nossos dias (…) Ao centrar-se mais no assunto: O Maio françês nom era unicamente um movimento reivindicativo no ámbito do ensino – ou ao menos no seu processo deixou de o ser – era umha denúncia de umha ordem social dirigida a satisfazer um reduzido número de privilegiados em detrimento da maioria. Há que o vincular ao protesto estudantil dos anos 60: nos EUA em contra da guerra do Vietname, umha das mais macabras carnificinas do século; na Europa, em contra da sociedade de consumo (…); na América Latina, motivados polas palavras entusiásticas do Che Guevara e esperançosos numha alternativa que tivesse como paradigma a Revoluçom Cubana; na China, ao aguardar o sucesso da Revoluçom Cultural; nos países africanos, ao converter em irreversível o processo descolonizador, por mais que subjugados pola recolonizaçom; noutros lugares, ao luitar pola defenestraçom das ditaduras… Som revoluçons com umha boa dose de voluntarismo, que recusam o duplo jogo de valores da nossa sociedade: que fala de paz e fai a guerra, que fala de igualdade e pratica a espoliaçom, que fala de liberdade e Direitos Humanos ao tempo que apoia ditaduras e monopólios. Umha sociedade, em expressom de Helder Cámara, que exerce a violência institucional e provoca umha lógica violência insurreccional de resistência a que se dá resposta por meio da violência repressiva.

Ao se situar (…) em França, há que dizer que, tal como a Europa industrializada, viveu um período de aceleraçom económica, de prosperidade neocapitalista, com enorme capacidade para atenuar todo o tipo de conflitos. Mas a guerra argelina e o ingresso na CEE induzem o governo de De Gaulle a um fortalecimento da economia nacional para proteger o capital francês que acabava de se ressentir dos dous referidos acontecimentos. E o financiamento de tal processo recaiu fundamentalmente sobre a classe obreira. Mas concretamente: no ano 66 tinha o horário semanal mais elevado da comunidade europeia e, ao invés, os salários mais reduzidos. Som muitos os milhons de horas de greve protagonizadas pola referida classe entre os anos 65 e 68. Em conclusom, e sem restar importáncia ao Maio do 68, nom cabe umha leitura isolada da infraestrutura económica do país e dos movimentos anticapitalistas a escala planetária. O movimento estudantil foi só o detonante de umha forte convulsom social.

Segue a polémica a respeito do papel reformista ou nom dos partidos maioritários de esquerda (e mais em concreto do PCF) e dos sindicatos (de modo principal a CGT). De feito a luita estudantil passou por umha primeira fase em solitário até o 10 de Maio. De 13 a 31 é quando se produz o vínculo entre luita universitária e luita obreira – um pouco a contragosto dos sindicatos e partidos de esquerda com mais implantaçom; de facto, entrou em declínio com os acordos de Grenelle. Por último, ficou controlada em os começos de Junho e voltou-se à ordem, ao tempo que se produzia umha forte repressom governamental fronte às organizaçons mais radicais (…)

Que persiste vinte anos despois? umha importante constestaçom social, que pode traduzir-se em movimentos ecologistas, feministas, autogestionários, pacifistas, antiautoritários… Movimentos nacionalistas que som contestaçom aos monopólios – por vezes nom som outra cousa que meras organizaçoms sucursalistas dos mesmos. Um crescimento do movimento dos nom-alinhados de cara à quebra da política de blocos (…) Também há que constatar com amargueza (…) a execuçom de umha política fortalecedora do sistema (olhe-se o papel das social-democracias no cone Sul de Europa) (…) O Maio françês nom foi umha revoluçom. O aparelho estatal nom correu em nem umha ocasiom um sério perigo (…) Tampouco foi umha algaravia romántica. Foi umha luita por umha nova Universidade com capacidade para encarar a maciça concorrência. Umha luita polo trabalho (…) Nom foi, como pretendem muitos, umha guerrinha dos filhos de papá caprichosos (…)

Fosse, como querem alguns, umha revoluçom proletária e um novo jeito de definir o proletariado numha sociedade informatizada, ou umha revoluçom cultural, ou umha simples rebeliom, ou somente umha manifestaçom em prol de umha pedagogia nom directiva, ou mesmo um fruto de imaturidade juvenil… está aí para aprender:

Que nom há que desligar os obreiros do estudantado.

Que as organizaçoms de massas nom tenhem de se esclerosar e devem estar preparadas para oferecer canais às novas iniciativas e abandonar os velhos dogmatismos ao ser guia e motor e nunca entrave.

Que nom se tem de separar o estudantado da realidade social sob o falaz subterfúgio de neutralismo pedagógico. As Universidades, os liceus, as escolas … nom som umha ilha (…)

Que a acçom antissistema tem de ser quotidiana e planificada.

Que cada país pode assumir opçons revolucionárias específicas…

Decerto que o Maio foi para o Poder “deixar ladrar os cans diante das fortalezas bem muradas e em disposiçom de aguentar todo o tipo de trombetearia”, mais nom se esqueça que nom ficou todo na mesma (…) Foi mais um berro, mas muito qualificado, em contra de umha sociedade desumanizada.”

O artigo seguia com algumhas emendas, logo dese lustro entre a escrita e a publicaçom, que nom vou reproduzir… Sim quero dizer mais algo, já de volta a 2008 – precisamente o subtítulo do artigo alude a que Maio 68 nom é algo isolado, há uns antecedentes e uns prolongamentos. Quer-se indicar que os reducionismos som nefastos e arredor de Maio montárom-se muitos. A modo de exemplo: som nove milhons de pessoas que vam à greve em Junho; Nantes, Caen e outros lugares som reclamos para abandonar o centralismo parisino; Bernard Lambert, activista ligado ao agro, deve ser recordado igual que os omnipresentes Serge July ou Daniel Cohn-Bendit… Nom se tem de confinar Maio ao Bairro Latino…

Um Maio poliédrico que hoje, com demasiada freqüência, se confunde com revoluçom sexual ou com umha grande revoluçom cultural de signo liberal ou libertário ao silenciar, entre outras, a crítica ao imperialismo. A tam cacarejada liberdade eclipsa os combates pola igualdade… Os obreiros e os militantes anticolonialistas som secundarizados ou obviados… O Gulag e o Holocausto, tam popularizados por os “novos filósofos”, a ubíqua ideologia dos Direitos Humanos, a presença nos media de determinados “intelectuais” vam na supradita linha de dissipar a memória, de amansar, docilizar, civilizar… ao presentar o mundo actual como o melhor dos possíveis. Nunca se deve confundir a assunçom do consumo ao estilo de EUA com os efeitos culturais de Maio… Portanto, nesta tentativa de mudar o crítico em orgánico (terminologia de Comte), nesta era neopositivista liquidadora de sonhos, nesta pretensom de apresentar o após-Maio como o grande rio que volta ao seu canal, neste desejo de trocar o fenómeno num episódio de luita geracional e de se referir aos jovens como descarreiradosque regressam ao bom caminho, neste processo de banalizaçom… temos de reivindicar a acçom comunista, no sentido que tenho explicado noutros escritos (um comunismo de luita, como figura em A Ideologia Alemá de Marx, e nom um comunismo de etapa final), a luita anticapitalista e nom permitir que se elimine a componente fulcral de classe… Lembrar en funçom da luita e nom da claudicaçom e de umha justificaçom autocomplacente.

Para pôr ponto e final quero mencionar três escritos, que me parecem cruciais para se adentrar nas procelosas águas do Maio 68.

Um deles é um longo artigo em três partes de Alain Bihr, que leva por título Maio–Junho 1968 em França (pode encontrar-se em: http://www.alecontre.org./print/Bihr68­_1.html). A primeira parte, subtitulada o epicentro de umha crise de hegemonia, analisa o mundo na segunda metade dos anos 60 (que naceu nos dias que se seguem à Segunda Guerra Mundial); recorda com brevidade que se entende polo conceito gramsciano de hegemonia; e indaga com minuciosidade a crise do bloco hegemónico sob o gaullismo. A segunda parte pesquisa a ofensiva proletária e a contraofensiva capitalista: as transformaçons da condiçom proletária no seio do fordismo, a construçom de diques para conter as águas das luitas proletárias, e o refluxo dessas luitas. A terceira parte esculca a longa marcha desde a contestaçom até a submissom voluntária (lembrando com esta expressom o título do discurso de Etienne de la Boëtie).

Outro é o livro de Kristin Ross, de que se transcreviam umhas palavras supra. O seu título, em versom espanhola, Mayo del 68 y sus vidas posteriores. Ensayo contra la despolitización de la memoria, onde se nos explica como o Poder nom pode deixar de governar a memória e trata de reduzir a mesma, de neutralizar a dimensom política, de liquidar qualquer indício de ruptura, de favorecer todo o tipo de amnésias, de dobregar subjectividades revolucionárias, de mudar en inofensivas as simbologias…

E um terceiro seria umha enciclopédia da contestaçom, com perto de 900 páginas, sob o título de La France des années 1968, com quase que 80 colaboradores e que se pergunta se findará algum dia Maio 68. A direita, sempre disposta a trazer à memória, encarniça-se contra esse pasado. Quarenta anos despois ele, o Maio, denuncia as pegadas na sociedade francesa. A confissom é de tal proporçom e, paradoxalmente, indica bem a largura e intensidade de um acontecimento que nom pode circunscrever-sesó ao mês de Maio de 1968, nem à França do general de Gaulle. Esta obra testemunha: que o desferrar das velas foi mais extenso, tocante a vários continentes, mais longo, ao se dilatar até o fim dos anos 1970. Esta enciclopédia, que abrange vozes muito diversas, relata esta despedaçadora época e analisa esta sublevaçom planetária… concluo o artigo com as palavras finais do limiar:

Nom há história fechada, todo será de novo possível.

·Domingos Antom Garcia Fernandes é filósofo

 

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