Ao serviço do capitalismo nacional?

André Seoane Antelo

Umha das ladainhas mais ouvidas nos começos da minha vida militante foi aquela frase em que se lamentava a inexistência de umha burguesia nacional galega, como umha das grandes pejas para levar avante a libertaçom nacional do País. Normalmente, a enunciaçom vinha seguida da inescusável comparativa com bascos e cataláns: “a eles si que lhes vai bem, porque tenhem um nacionalismo de direita forte”, costumava dizer o analista de política comparada de serviço.

De facto, em ocasions, mesmo tenho escuitado afirmar abertamente que no nosso país nom havia burguesia autóctone. Afirmaçom que saía da boca de pessoas com estudos universitários, mas com umha evidente miopia na hora de fazer analises sociais da realidade mais imediata.

Eu, na minha ingenuidade, cheguei a acreditar nalgum momento nalgumha dessas afirmaçons. Por fortuna, com a experiência vai-se aprendendo, e finalmente cheguei à conclusom de que a inexistência dessa burguesia nacionalista era simplesmente o fruto da conformaçom da sociedade galega e nom umha maldiçom caída de nom se sabe bem onde. E que mesmo nom haveria que avaliar tal carência como umha peja, mas como umha virtude que permite colocar abertamente a luita pola libertaçom nacional do país como um projecto político exclusivo e próprio do povo trabalhador.

De outra parte, nunca acreditei nessa suposta ausência de burguesia autóctone. De facto, é mais do que evidente que existem burgueses galegos, mesmo existe umha oligarquia no nível nacional, conformada por grandes fortunas amassadas sob relaçons de exploraçom que tivérom a sua origem dentro das fronteiras nacionais. Existe burguesia galega e existe um capitalismo galego, todo o raquítico, dependente e miserável que quigermos; o único problema é que essa burguesia considera de modo absolutamente maioritário que o projecto político que mais bem se corresponde com os seus interesses é o espanholista.

Em todo o caso, eu, na minha ignoráncia de adolescente, cheguei a considerar que a ausência desse nacionalismo galego de direitas era um handicap para o nosso país; mas em nengum momento pensei que, se a burguesia galega nom dava o passo de conformar um projecto político nacional próprio, seria labor do nacionalismo de esquerdas oferecer-lho como presente.

A meus olhos, a simples formulaçom dessa hipótese era umha aberraçom. Como iam os sectores mais avançados das classes trabalhadoras do nosso país dedicar décadas a construir ferramentas organizativas e políticas para vir a cedê-las aos amos do capital, aos patrons. Nom é acaso um absurdo?

Ainda mais, como se pode tam sequer conceber que se a classe burguesa carece da vontade e iniciativa necessária para liderar um processo de construçom nacional, sejam as classes trabalhadoras que renunciem ao seu papel protagónico. Nom é isso umha garantia absoluta de fracasso? Será que alguém acredita que numha batalha pode ganhar um exército liderado por ferventes defensores do exército inimigo? Eu, na minha modesta opiniom, considero que tal ideia é um absoluto absurdo, mas a realidade demonstrou-nos que nom há nada que impida que os absurdos existam no mundo real.

 

Porque é isto precisamente o que se está a acontecer com o BNG. Os três anos de governo bipartido na Junta confirmárom umha deriva que, para alguns de nós, já era previsível desde há mais de umha década, embora nom estivéssemos conscientes das situaçons aberrantes que nos tocaria presenciar.

Estes três anos tenhem sido fecundos em multidom de exemplos de como o BNG está a fazer as beiras ao grande capital galego. Só por repassarmos alguns dos exemplos mais impactantes, poderíamos lembrar agora como o nacional-autonomismo foi o grande valedor da instalaçom da regasificadora de REGANOSA em Mugardos, ou a defesa que fijo no seu momento da privatizaçom de ASTANO e a sua venda à mui galega BARRERAS, ou simplesmente rever o currículo destes anos de governo do grande Fernando Branco (Conselheiro de Indústria e suposto “comunista”).

Assim, podemos ver como na agenda do BNG está a defesa da indústria galega e dos sectores produtivos, o bom entendimento com as caixas de aforros, a defesa da produçom de energia eléctrica... Isso sim, sempre considerando que o fundamental a defender som os lucros do capital como único método para fomentar o desenvolvimento do País.

 

Porque, postos a lembrar situaçons aberrantes e de um alto valor simbólico, nom sobeja termos em conta que, nestes três anos, o BNG nom deixou passar a mais mínima ocasiom para demonstrar o seu alinhamento com os interesses do grande capital galego. Som centenas as festas, merendinhas e “vinhos espanhóis” onde a presença de altos dirigentes do BNG aderia às mais díspares iniciativas do capital galego. Os jornais estám cheios de declaraçons em que Quintana e os seus colegas apoiárom os interesses de Tojeiro, BARRERAS, PESCANOVA e, em geral, qualquer explorador etiquetado com a marca da galeguidade.

Mas, tam ruidosos como estes apoios directos às grandes empresas, fôrom os silêncios ou as críticas dirigidas aos movimentos sociais e sindical que se oponhem à espoliaçom e ao saque capitalista.

O BNG ficou mudo na hora de defender a exemplar luita do proletariado do metal de Vigo e, em todo o caso, mesmo chegou a criticar os “excessos” dos piquetes. No entanto, nem abriu a boca para criticar a patronal que incumpriu durante todo um ano os acordos negociados após a greve de 2006.

Ou como esquecer as críticas lançadas polo grande líder “comunista” Francisco Rodríguez depois da primeira mobilizaçom de Galiza Nom se Vende. Ali onde convergiam as luitas de todo o País contra especulaçom e o saque de recursos do nosso território, Paco percebia confusionismo e má intençom.

Mesmo poderíamos lembrar as recentes declaraçons de Emílio Lôpez Milucho, actual alto cargo da Conselharia de Meio Rural e antigo sindicalista labrego, dirigidas contra os gadeiros convocados polas Unions Agrarias em luita contra os preços de miséria que paga LEYMA polo leite produzido. Numha luita em que os gadeiros actuárom com umha contundência muito semelhante à empregada nas mobilizaçons convocadas polo SLG no tempo em que Milucho era um dos seus máximos dirigentes, agora o senhor Emílio Lôpez considera que se empregárom formas que nom som próprias do sindicalismo labrego. Ou Milucho tem umha memória nefasta, ou afinal vai ser um hipócrita de primeira ordem.

Mas o certo é que esta deriva nom é completamente ilógica, se atendermos com rigor à formulaçom matriz do próprio BNG. Lembremos que esta força política nasceu desde um primeiro momento como umha força de carácter interclassista, e que em momento nengum colocou umha vontade revolucionária no sentido de alterar o ordenamento económico capitalista.

Certo é que a praxe política do BNG da década de 80 está a anos luz da actual, mas na sua matriz ideológica incubava-se a doença que se véu a manifestar. A formulaçom de um projecto interclassista, especialmente quando nunca se manifesta a intençom de garantir a hegemonia dos interesses do povo trabalhador, tem que derivar na vitória dos interesses da burguesia.

O BNG ansiava incluir no seu seio todas as classes e sectores sociais do País, e foi no momento de atingir umha quota considerável de poder institucional que se lançou à conquista quase romántica da burguesia galega. Classe que demonstrou ao longo dos anos, umha imensa prudência na hora de se deixar conquistar por este ou aquele projecto político, e que tam só começa a dar ouvidos às insinuaçons do BNG quando este lhe pode dar algum benefício.

Logicamente, a deriva do BNG nom se poderia explicar tampouco sem compreender que realmente esta força política nunca foi em puridade umha organizaçom da classe operária, mas umha amálgama de fracçons e sectores onde o predomínio corresponde a elementos da pequena burguesia e o funcionariado público. Assim, esta organizaçom reflecte a tradicional incapacidade da pequena burguesia para definir umha alternativa política própria acabando por se botar nos braços do grande capital.

 

Todavia, o ansiado achegamento à burguesia galega também tem outros efeitos secundários, para além da traiçom aos interesses populares no sentido económico ou laboral. Seria muito pedir que toda umha classe se deixasse influir por um movimento político sem lhe transmitir parte das suas características. E assim está a suceder, de facto.

Se bem o nacionalismo galego moderno desde os seus inícios, lá polas décadas de 60 e 70 do passado século, apresentou umha estranha tendência ao complexo e ao tabu na hora de assumir soluçons políticas radicais, nomeadamente de reivindicar a independência do País; hoje, essa moderaçom aumentou até limites há poucos anos inconcebíveis.

A necessidade de fazer digerível o discurso político aos novos sectores sociais que se pretende atrair está a forçar que, cada dia mais, o discurso do BNG abandone o campo do nacionalismo mais moderado, onde se poderia situar na década de 90, para entrar em cheio num regionalismo um tanto radicalizado nalguns aspectos de ordem menor, mas completamente cómodo na ideia de Espanha.

Contodo, embora aos actuais dirigentes do BNG lhes pareça que o rumo adoptado é o mais seguro para continuar a avançar na conquista de maiores quotas de poder institucional, o certo é que, fazendo umha analise minimamente rigorosa, qualquer pessoa pode ser consciente do imenso risco que estám a correr.

Porque, em puridade, o BNG nom é umha organizaçom da grande burguesia e, apesar da aproximaçom de alguns elementos destacados, como é o caso do actual proprietário do semanário A Nosa Terra, o empresário imobiliário Jacinto Rei, ainda nom existe um compromisso equiparável entre algumha fracçom destacável da burguesia galega com o BNG, como o que esta organizaçom está a manifestar com os interesses dessa classe. Portanto, é bastante provável que o nacional-autonomismo esteja a cair numha piscina sem água.

No fim de contas, em política existe umha tendência à economia de forças e, se o BNG nom conseguir deslocar o PSOE ou o PP da representaçom de algumha das fracçons da burguesia galega, corre o risco de entrar numha profunda crise.

Ao mesmo tempo, ninguém deveria esquecer que o deslocamento para a direita do BNG está a deixar orfo politicamente a um amplo leque de sectores sociais que conformam os elementos mais conscientes do povo trabalhador galego.

Abriu-se, pois, um tempo de reorganizaçom das forças populares que deveria ser aproveitado para levar avante um novo projecto aglutinador que ultrapasse as eivas do BNG, nom só as presentes, como também as passadas, e sirva como ferramenta de luita na defesa dos interesses das classes trabalhadoras. Oxalá respondamos a essa necessidade.

André Seoane Antelo é membro do Comité Central de Primeira Linha

 

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